sábado, 20 de dezembro de 2014

20 de Dezembro

A última versão

Das 1.007 [segundo outros apenas 999] versões da vida de Donyhor al-Temurbek, em 1.006 [ou 998] delas o herói nacional aparece trágico; ou espirituoso; às vezes quase espiritual; ou discursador como um filósofo. A [pós-moderna] Academia do Passado Inexistente [então em fase underground] em gravação VHS de hoje em 1984 recuperou a única versão que retrata o Grande quase irresponsável.

Pouco antes do levante contra os dominadores Turkhmans Termurbek [segundo esta versão] combatia os derrotistas [traidores] que tentavam postergar a revolta. Esta passagem [na verdade] já constava em muitas das outras versões da vida do grande amhitariano – e em todas [a golpes de retórica máscula] ele arrebatava com os argumentos de que é possível vencer, e a revolução acontecia.

Na versão VHS [no entanto] após ouvir os derrotistas Temurbek ergueu-se

Essa revolta é estúpida.

O silêncio engoliu a todos. Continuou

Por muito tempo fizemos o que era sábio. É hora de sermos estúpidos.

O levante aconteceu e [como previu o herói] foi estúpido – os Turkhmans fartaram-se de empilhar cabeças. A libertação teve de esperar mais alguns anos [variáveis de acordo com a versão].

Quanto a Temurbek, esta é única de suas 1.007 [ou 999] histórias na qual desaparece. [Não morre em glória, não ascende aos céus]. Alguns pretendem ver nisso uma significação de que às vezes é preciso seguir caminhos não trilhados, mas fora dos livros de auto-ajuda poucos creem nela.

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