segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

08 de Dezembro

Nasci há muitos anos

Por 49 anos vivi na cidade de Ônix – e com esta frase Shahlo Maqsud [barba, três mil rugas e um olhar que denunciava catarata] começou seu relato hoje em 1879 na estação de Zarafshan a um magote de oficiais peterburgueses que o olhavam com um misto de curiosidade para com o estrangeiro [como todo czarista] e desprezo pelo mesmo [como todo czarista].

Sua narrativa em nada diferia das dos malucos que sempre emergiam nas estações ferroviárias fronteiriças ao platô desértico de Qyzylorda, se, primeiro, uma cidade chamada Ônix existisse [e nada havia de semelhante em toda a Ásia Central] e se Shahlo Maqsud não tivesse [a se levar a sério suas narrativas] dez mil anos de idade [onze mil, setecentos e sessenta e três, segundo uma paciente contagem].

O General Konstantin Petrovich von Kaufmann o ouviu e a coincidência de que lá se encontrasse o Comandante russo tem sido interpretada [não por poucos] como uma prova de que Shahlo falava a verdade. Vieram as inevitáveis perguntas sobre Cleópatra e Napoleão e a estas Shahlo respondia [com certa banalidade] que não conhecera essas pessoas.

O fato de não ter presenciado nem a descoberta da América nem a Queda de Roma, tendo apenas vivido em vilas abandonadas que ninguém conhecia minguou o interesse sobre ele. Terminou seus dias contando histórias a troco de moedas nos arredores de Shamearkhaant – a maioria delas inventadas, sobre Napoleão ou Cleópatra, ou sobre como presenciou a Descoberta da América.

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