terça-feira, 2 de dezembro de 2014

02 de Dezembro

A lei do Amor

Vivemos no mundo. [Todos calaram o bate-boca]. E o mundo não é puro.

[Barba de quem não vê lâmina há três anos, cara gretada de sol do deserto]. Continuou:

E Deus, bem, talvez não exista. E se existir, pior ainda: não se importa.

O Czar tinha uma [não surpreendente] alergia por eleições. As primeiras de Amhitar ocorreram com o enfraquecimento do regime estrangulado por guerra e revolução. A Primavera das Flores de Barro açambarcou o poder no país.

O nascente governo amhitariano queria: indústrias; tecnologia; fios de telégrafo em todos os quilômetros quadrados do território; alta produtividade agrícola; e também [diziam os eternos opositores]: vida eterna; paz eterna; felicidade; amor e maçãs em calda para todos – e para o próximo ano, de preferência para a próxima semana.

Inevitavelmente surgiu a ideia de proibir a intimidade sem respaldo em amor verdadeiro. [O projeto de lei respectivo (dizem) recebeu forte apoio das floriculturas e lojas de chocolates]. Levantou-se então Nasiba Dalton, cuja idade [já próxima (fofocavam) dos cem] o respaldava teoricamente pouco para uma matéria afeita a fogosos jovens. E disse o que pensava do mundo.

Calaram-se todos. O que não impediu o avanço do projeto. Resolveu-se tudo de maneira amhitariana [a meio-termo]: tornou-se lei o amor [espiritual e puro] obrigatório. Porém não foi seguida na prática e um golpe de Estado logo derrubou o regime. Por causa ou não da lei – é questão aberta.

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