domingo, 31 de agosto de 2014

31 de Agosto

O Dialeto

Um pergaminho [previsivelmente] antes perdido do Monge Gelasiminius, reforçado por um par de menções um tanto vagas dos relatos de viagem do andarilho Dasha Ulugbek, meio capítulo do Livro dos insuportáveis Paradoxos do inevitável cronista medieval Abdul Al-Wazahari, reforçado por uma palestra de 1933 pelo geógrafo Serguei Kovinev, precedido por um entusiasmado ensaio do historiador Java Kharlilah, nada disso convenceu o público da existência do estranhíssimo dialeto Abbrokh até que o Subcomitê de Propaganda e Agitação [em decisão não isenta de arbitrariedade] declarou em 1951 ser hoje o dia de recordá-lo.

Tal dialeto não pertencia ao Indo-europeu nem a nenhum outro ramo linguístico. Suas palavras não o eram, mas gestos: mãos estendidas significavam quero, apontar a garganta significava comida, e uma grande volta com o pé queria dizer O Mundo. Quanto aos objetos concretos, eles não eram nomeados mas utilizados. Então apontar para a própria garganta e depois para um pão branco tinha óbvio significado.

A inverossimilhança de uma língua de gestos e objetos explica a doce descrença dos amhitarianos em tal tradição, apesar de tão ilustres respaldos escritos. O próprio decreto do Subcomitê não foi muito respeitado – até que a Jaghon [a polícia política amhitariana] interrogou um par de recalcitrantes. A partir daí o povo acreditou [ao menos aparentemente] em tal [estranhíssima] solução linguística.

sábado, 30 de agosto de 2014

30 de Agosto

O Herói [ou a Heroína]

O guerreiro Donyhor al-Temurbek não deixou imagens e os seus admiradores atribuem essa ausência a uma modéstia do maior herói de Amhitar. Preocupado em defletir os elogios de si mesmo, o cavaleiro e espadachim recusou a todos os pedidos de gravar em papel ou pergaminho as suas feições, dizendo que ele nada mais era que um símbolo da bravura de todo o povo. [Outra história não menos lisonjeira afirma que o herói, por seu dinamismo patriótico, não tinha disposição de se sentar horas e horas posando].

Tal a versão oficial, que uma menina de seis anos [quase] demoliu ao brincar [hoje em 1881] no quintal na vilazinha de Zarkunak e topar com a quina de uma urna de argila [na verdade era uma de sete]. Abertas, quatro continham papiros destruídos por carunchos [de novo a versão oficial, para alguns suspeita] e as outras revelaram três gravuras do herói.

Inicialmente a Academia de Ciências de Amhitar saldou a descoberta como o curioso porém inócuo detalhe de que o maior vulto da pátria usava cabelo longo. Uma inspeção mais detalhada no entanto revelou que Donyhor al-Temurbek era mulher, uma Joana D´Arc centro-asiática.

O machismo amhitariano nunca permitiu que tal hipótese prosperasse. As gravuras sumiram do museu de Shmaerkhaant dezessete dias depois [não antes que cópias fossem tiradas para fomentar a suspeita recorrente]. Para todos os efeitos, o poder amhitariano insiste no gênero masculino do fundador da pátria [ou da sua fundadora].

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

29 de Agosto

O Sombra

Alimova Farhod dividiu o próprio destino em dois. Homem comum, vestia o paletó e o colarinho, passava manteiga em três torradas ao café, e encostava os lábios na testa da mulher enquanto pensava no horário do bonde e na velocidade na qual teria de correr para pegá-lo.

O dia 29 de agosto de 1914 abalou sua rotina quando se encontrou consigo mesmo numa esquina dobrada. Não precisou de caldeirões mágicos, brincadeiras de copo ou clima de mistério: era ele mesmo.

Não se olhou nos olhos [teve vergonha – nunca se achou bonito e mal se mirava ao espelho]. O outro não devolveu nenhum olhar. Barbado, roupas em desalinhamento quase que estudado, o segundo Alimova deixava aparecer [talvez propositalmente] uns cabeçalhos de panfletos políticos onde se lia Abaixo a Guerra! [a Primeira Mundial estourara dias antes].

Alimova nunca mais viu o Sombra [como o chamou]. Dedicou-se [escondido da esposa e de tudo] a imaginar uma vida para ele, um Outro revolucionário, amante e viajador.

Só se soube de sua [estranha] atividade quando [a 29 de agosto de 1944, em outra guerra] desapareceu em algum ataque a tanques alemães em algum charco na Polônia. [E seus papéis foram publicados não sem repercussão]. No mesmo dia, o comunicado oficial informou que outro Alimova Fahrod também desapareceu, um traidor nas linhas inimigas. A [óbvia] versão oficial é que foi mera coincidência, e que o Sombra não existe.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

28 de Agosto

Primordiais

A tese [não pouco controvertida] de que o homem primordial é na verdade de origem nossa (o assim chamado “Homo Amhitarius”] tem esbarrado com não poucos problemas e alguns sinais animadores. [Durante muito tempo essa ideia foi considerada apenas um consolo inventado pelos historiadores românticos para um possível atraso do país].

Uma pesquisa conduzida na sétima das dezessete vilas soterradas de Khalach [no vale do rio Lebap] teve relativamente poucos resultados. O último dia de escavações [hoje em 1960] [no entanto] revelou uma [não pouco estranha] descoberta de sete jarros em forma de círculo, três garrafas [de forma surpreendentemente moderna, semelhantes a recipientes de cervejota] e os ossos de um homem e ao lado de um pássaro [de espécie (à primeira vista) indefinível].

Tal revelação teve repercussão desproporcional à sua importância, até mesmo junto ao povo – talvez porque quebrasse a vidinha cinema-namoro-trabalho-aborrecimento que assolava a todos. Não foram poucos os discursos que Agora sim, Amhitar iria voltar a ser grande no Concerto das Nações – o que levava os [poucos] críticos a perguntar quando Amhitar tinha sido importante, e em que alguns velhos ossos iriam mudar isso.

O ceticismo dos arqueólogos anglo-saxões [e certas datações de Carbono 14, que apontam para uma fraude certa [as garrafas semelhantes a cerveja eram de cerveja mesmo] não apagaram a lenda [ou esperança]. Para Amhitar , o Homo Amhitarius  é o primeiro de todos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

27 de agosto

O espião

O agente 0001-AMH [o “AMH” previsivelmente é de Amhitar] chegou ao país hoje em 1954 [a data só foi revelada nas sete horas do brevíssimo regime eleitoral de 1991], com sua túnica cinza, seu sapato cinza, seu chapéu cinza, seu queixo quadrado e sua cicatriz no rosto. Um metro e noventa de músculos, halterofilista e boxeador, não tinha amigos, não tinha família, não tinha vontade de dizer Bom Dia, mas tinha um soco inglês que nunca tirava do punho. Não pedia, ordenava, e não ordenava, rugia. Foi o primeiro homem da KGB no país.

Isso nos quadrinhos de Fanzines.

Na prática, Nicolau Andreievich Bazarov se remordia por ser o fracasso da família. [O pai sonhava em ter um filho engenheiro metalúrgico – ao menos era o que Nicolau pensava]. Não muito alto, e magro de se ver através, e com um inútil bacharelado em artes plásticas, seu destino seria dar aulas para crianças gritalhonas lá pelo Ártico quando encontrou uma porta literalmente aberta, a do novo serviço de segurança.

Passou no concurso apenas por que havia poucos interessados e muitas vagas [ou ao menos foi o que lhe disseram (talvez por malícia) e ele tomou isso como dogma]. Passou 9 anos em uma saleta nos fundos do Palácio dos Ministérios em Amhitar recortando notícias sobre a economia local e enviando relatórios para Moscou, os quais, suspeitava, ninguém se dava ao trabalho de ler.

Também escreveu [dizem] 997 cartas para o pai [o número é suspeito]. Mas estas ele as rasgou todas antes de postar.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

26 de agosto

Confraria dos homens-chave

A estranha Seita dos Adoradores da Chave [Zhugirat-el-Khilemilsh] fecha o [mais estranho ainda] Quinto Capítulo do Mito do Eterno Retorno de Mircea Eliade. [De fato, menções a esta congregação constam em duas ou três notas no capítulo XV do Decline And Fall de Gibbon].

Segundo o sábio romeno tal religião supera certos concorrentes seus na mesma época. As estimativas mais modestas põem entre meio e um milhão os que se reuniam para beijar e agradecer a chaves rituais, enquanto no mesmo período os seguidores do profeta hebreu não passavam de doze [que ficariam famosíssimos, mas ainda assim, só doze], o homem de Meca não possuía nenhum e os judeus não juntavam mais de trezentos milhares.

E nem no ponto de vista teológico tal seita é passível de excessivas críticas [e aqui é Gibbon quem fala]: que mais lógico [diz o inglês abdicando momentaneamente da ironia] que adorar uma chave? Afinal as chaves separam e unem: o jardim da sala, a sala do quarto, o exterior e interior, o céu e a terra, o Paraíso e o Outro Lado. E, com o uso da chave certa, pode-se passar de um lugar desagradável para outro talvez menos.

A simpatia dos historiadores não impediu a Seita de sumir, sufocada pelas suas inicialmente modestas competidoras. Ainda existem aqueles que têm fé, e se reúnem ajoelhando-se diante de chaves, pedindo-lhes para lhes abrirem os portões da felicidade. Um rumor de que possuiriam salões secretos em vários continentes revelou-se infundado.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

25 de agosto

Conspirações

Os Gulnoratis causaram todas as revoluções de Amhitar. [Na verdade os Gulnoratis causaram todas as revoluções do Mundo - mas fiquemos apenas com Amhitar]. Esse grupo de homens – poderosíssimo – se encontra por trás de todo acontecimento importante [na verdade supõem-se que sejam homens – podem muito bem ser mulheres, já que nunca ninguém os viu. Mas digamos que sejam homens].

Os tiranos degolam, os soldados matam, os bandidos roubam, os donos de terras esfolam e o povo se revolta – porém mais enganados não podiam estar os que atribuem as revoluções a uma revolta do povo amhitariano [degolado, matado, roubado e esfolado] contra os tiranos, soldados, bandidos e donos de terras. A culpa é dos Gulnoratis. Eles manipulam os sentimentos do povo para seus propósitos maléficos.

E ninguém sabe que propósitos são esses. Como ninguém nunca viu um dos Gulnoratis, ninguém perguntou para um deles quais eram os propósitos – embora supõem-se que sejam os de sempre: o poder completo sobre Amhitar primeiro, depois o Mundo inteiro.

Embora invisíveis, embora inaudíveis, os Gulnoratis não são no entanto inutilíveis: em cada revolta os tiranos [secundados pelos soldados, bandidos e donos de terras] descem o sarrafo no povo, mas não é no povo: é sim nos Gulnoratis, que manipulam os sentimentos do povo.

Sempre aparentemente derrotados, os Gulnoratis voltam sempre para uma nova safra de inquietação. E de lenha contra eles.

domingo, 24 de agosto de 2014

24 de agosto

Geniosos gênios

A existência de gênios da garrafa em Amhitar gera discussões que beiram [ou invadem sem peias] o terreno da bipolaridade – esta expressão [de gosto questionável], pronunciou-a o [inevitável] historiador romântico Dilafruz Michelet em discurso na Academia de Ciências de Amhitar em 24 de agosto de 1887 e tal data [que pouca relação guarda com o assunto] foi declarada [de início extra-oficialmente] como Jornada Nacional de Reflexão sobre Seres Dadivosos.

A discussão a que se referia o autor [de resto de forte caráter político] divide os partidários da questão em dois lados. Há os que consideram que os gênios vivem em garrafas; têm predileção por ilhas desertas; chamam seus salvadores de amo, concedem três [às vezes sete] desejos e são geralmente homens morenos e fortes (havendo uma minoria de louras esculturais vestidas de odalisca). Os adeptos de tal doutrina são apodados de entreguistas pelos outros, tal a semelhança dos seus gênios com gênios estrangeiros árabes.

Para a segunda escola eles não habitam garrafas; não chamam a ninguém de amo [na verdade não se comunicam]; não possuem corpos visíveis; e exigem grandes esforços [em trabalho e dinheiro] por parte dos beneficiários e às vezes nem com esses esforços eles dão nada. Esta escola é [não sem certa razão] apelidada de monótona.

Durante o regime socialista, o materialismo [talvez excessivo] da segunda escola concedeu-lhe o caráter de Pensamento Nacional Oficial, depois retirado.

sábado, 23 de agosto de 2014

23 de agosto

Muros

O Xeque Zulfizar planejava uma grande parede de pedras, torres e guardas na fronteira Noroeste frente aos 99 desertos do platô de Qyzylorda [e das tribos nômades que o habitavam].

Preocupações orçamentárias o desviaram desse grandioso [e no entanto vulgar] projeto. A falta de dinheiro o obrigou à filosofia. Pensou: o importante de uma muralha é dividir. Aqui estamos nósroeste para defender o pava um grande muro de pedras, teorres e guardas na fronteira Noroeste para defender o ap_________ [os civilizados] e lá estão eles [os bárbaros].

Invadiu a terra bárbara e dizem os cronistas [com algum exagero] que deixou poucas cabeças em cima de pescoços. Isso garantiu [enquanto perdurasse a memória do medo] que ninguém de lá viria para cá. Foi a primeira parte.

Restava convencer os de cá a não irem para lá [tarefa necessária, pensou o arguto Xeque, pois era o terror dos Bárbaros que fazia o povo aceitar o terror (alegadamente menor) dos guardas, dos dervixes, dos cortesãos e dele mesmo].

Traçou uma linha na areia e bradou – Do lado de lá não há nada! [A paisagem plana como chapa facilitou sua tarefa].

O Xeque virou ossos, e assim também seus netos e os tatara-tatara-netos dos netos destes e ninguém se atrevia a [ou queria] atravessar a linha.

Um homem [o célebre andarilho Dasha Ulugbek] passou no lugar [no dia de hoje em ano discutível] para caminhar além. [Já eram então simples lembranças as razões políticas que geraram a proibição]. Perguntaram-lhe Por que você quer ir lá?

Respondeu: Por que o Lá existe – e meteu o sapato [na verdade uma sandália] na estrada, que nem havia.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

22 de agosto

Filhos de Liz

EEEEEEEEEEEEla! [no primeiro minuto da tarde deste dia 22 de agosto de 1964] pisou com seu delicado sapato salto 13 [modelo exclusivo Dior] o batente da porta do DC-3 [voo só-para-ela da Pan-American] que a trouxe a Shmaerkhant - e parece que o sol [ou o odor das montanhas do Pamir] não fez bem ao seu delicado [e célebre] nariz: ela o arrebitou.

Isso, e mais uma [quase imperceptível] piscada dos demolidores olhos azuis fizeram todos caírem de quatro diante dela, da garota, da mulher, da atriz, de Elizabeth Taylor.

Os estúdios ruliúdianos empurravam então La Taylor para todas as esquinas do mundo, para promover [e ajudar a fechar o buraco nas contas] do arrastadíssimo [e igualmente fracassadíssimo] Cleópatra, seu último filme. Cem dias de entendimento com as desconfiadas autoridades geraram a permissão para a tournée amhitariana da estrela da película.

[Previsivelmente] deslumbrou-se com os monumentos, beijou criancinhas [embora vibrando o narizinho], mostrou os ombros em ensaiadíssimos movimentos espontâneos, cortou cordas inaugurando cinemas de bairro [que já funcionavam havia anos, segundo os eternos críticos] e [com os cílios postiços a piscar] disse que Rezava todos os dias pela paz mundial.

Os mesmos críticos mugiam que essa visita não deixará nada mas as estatísticas os desmentiram.  Nove meses depois aconteceu um boom nas maternidades – e o fato de precisar de uma atriz para isso acontecer é [talvez] pouco lisonjeiro para com a vida conjugal amhitariana.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

21 de agosto

Quatro delírios

Na noite do dia 21 para o dia 22 de agosto de 1920 Leon sonhou por três vezes. [O trem blindado e o barulho de um ou outro fuzilamento lá fora não lhe continham a imaginação].

No primeiro sonho ele era uma dançarina [inevitavelmente a mais bela de todas]. Dançava e rodopiava suas [não muitas] roupas.

No segundo sonho ele era rinoceronte - contemplava uma árvore florada e procurava se decidir se a derrubava [revoltado por não conseguir subi-la] ou meramente se quedava a contemplar sua beleza.

 No terceiro ele era ele mesmo. Acordou e uma menina de cabelos dourados [e de túnica previsivelmente cor de prata] lhe tomou pela mão, sussurrou que Nada disso é necessário e o levou para conhecer sua esposa [meia-idade, ainda bela] os cinco filhos [pobres mas felizes], a casinha perto da linha férrea e os guisados no domingo com os amigos. E o túmulo, décadas depois, depois de tranquila e feliz vida.

Leon acordou e percebeu que seu acordar anterior também fora sonho. Furioso por sua fraqueza assinou mais sete ordens de execução, vestiu o capote cinza e o gorro com estrela vermelha e dirigiu-se ao Palácio dos Povos [ainda em construção] enquanto pensava Alguém precisa salvar o Mundo.

Na tribuna falou: rompemos com o passado. A feudal Amhitar deixa de existir, e decretamos agora o surgimento do proletário Uzbequistão.

A voz de Leon Davidovitch Trotski [dizem] pareceu incompreensivelmente trôpega.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

20 de agosto

O ex-Dia Nacional da Beleza

Orgulho nacional: os historiadores [e as colunas de fofoca] apontam que o primeiro Miss Universo aconteceu nos Estados Unidos em 1930. No entanto hoje em 1570 certo Dervixe [cujo nome a história não anotou] determinou que um estrado de madeira fosse construído em frente ao palácio e que por ele as mais belas jovens do Reino deveriam passar – com formosas roupas, depois com menos roupas, e depois com poucas roupas [sendo advertido a quem assoviasse que lhes seriam furados os olhos – compreensivelmente o respeito foi total].

A grande novidade de tal concurso vem de que as vencedoras não iriam fazer parte do harém real, ou se tornariam concubinas de algum general estrangeiro. O Nababo [talvez por puro tédio – dizem os críticos] só queria contemplar a beleza. O fato de a vencedora ganhar joias e promessas de casamento com filhos de mercadores apenas acentuou a semelhança com os concursos de hoje, inflando mais ainda o orgulho nacional pioneirístico.

Desafortunadamente uma espanação um pouco mais aprofundada na Biblioteca Nacional em Shamaarkheant em 1956 causou a publicação dos originais das gravuras do pioneiro concurso. As garotas eram belíssimas – para o padrão da Amhitar do século XVI, na qual imperava o ditado Dhilzhorist-ol-Khorumek, que do proto-Bakhmar arcaico pode ser traduzido como Dá-lhe gordura que lhe darei formosura.

Não sem injustiça tal celebração caiu no olvido.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

19 de agosto

Zoo-ilógico

Sete zoólogos cravaram hoje em 1769 no chão de Shmaeerkhaant a primeira jaula do zoológico de Amhitar [a honra de ser o primeiro desses estabelecimentos na Ásia Central (e quiçá no mundo) tem sido obnubilada pela estranheza dos hóspedes do mesmo]. [Não são poucos os historiadores, especialmente da Inglaterra, que afirmam ser pouco crível que um zoo sem elefantes ou zebras seja um zoo verdadeiro. Compreensível, já que o zoo amhitariano bate em antiguidade ao mais velho da Pérfida Albion.]

O primeiro zoológico nacional ostentava o Takhvazz, um touro venenoso de sete chifres em forma de saca-rolha; o Ebok, que subia nas árvores mais altas com apenas uma pata, permanecia lá por 66 anos sem se alimentar e [por alguma razão inexplicável] imitava com perfeição os sons da língua chinesa; o Dorhumil, pássaro de quarenta asas que se alimentava de piche e que trazia boa sorte aos que ouviam seu grasnado; e [talvez o mais estranho de todos] o Zaval, bicho indefinível porque invisível, e invisível porque se escondia muito rápido. Além disso era inaudível e seu odor era de rosas vermelhas, o que o fazia sumir na temporada de floração delas.

O ceticismo [principalmente internacional] se regozijou quando escavações no lugar do estabelecimento revelaram apenas ossos de cachorro. Eles não leram os ensaios dos Sete cientistas, que afirmaram que seus animais possuem a qualidade disfarçar-se de outros bichos, enganando assim os invejosos e os predadores.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

18 de agosto

You´re dead, Muxammetdin Jack

A existência de um Velho Oeste em Amhitar não finca raízes apenas numa [talvez banal] realidade [com efeito, há um ditado do século XIX afirmando Não há Lei ao Norte de Navoiy], mas [talvez bem mais importante] na ficção.

Data do final dos anos 1950 uma breve porém próspera indústria de Western Spaghetti nos estúdios estatais de cinema na cidade-sonho de Qarshi. [O Comitê Central do Partido (não inocentemente) permitiu essas produções (de pouco valor proletário) para desviar a atenção do povo do eterno problema do abastecimento de farinha]. O próprio apelido Western Spaghetti [segundo os patriotas] revela pouca justiça, pois antes de Giulliano Gemma inundar as telas com seu Dólar Furado Amhitar já emulava [e superava, segundo alguns] os John Ford e John Wayne da vida.

Invadiram as salas de cinema [e também as poucas televisões do país] Vingar-me-ei até o fim do Mundo [com o cowboy Kid Abdulloh]; Duelo às 23:33 hs. [e o filme também não explica o porquê de tanta precisão]; e Eu e Minha Amada Esposa Somos a Lei [que tentou conciliar os tiroteios faroestianos com uma então campanha nacional pela família].

Delegados, cowboys, bandoleiros, tribos Sioux, Cisco Minusa, Pat Shernazar, Elmurod Ringo  e outros enveloparam sonhos e domingos. Perguntado sobre se não achava aquilo absurdo, Muxammetdin Jack [na verdade o seu ator] respondeu que Só o Absurdo é real [o que também é absurdo - e talvez real].

domingo, 17 de agosto de 2014

17 de agosto

Enquanto durou

O desprezível farsante Rattham Kebya adentrou o calendário nacional ao impersonar o Pachorrento Xamã Emarib Adoz [hoje em 499 do calendário dos hereges].

O inominável cafajeste [inimigo do trabalho] assistido [como sempre acontece com os cafajestes] por alguma divindade negativa soube escolher perfeitamente o timing em que uma onda de dor [e secreto alívio] varria o país pelo boato de morte do Xamã em uma de suas batalhas em distantes países [tais guerras (dizia a sufocada oposição) destinavam-se mais a re-encher o harém do governante].

Inteiramente diferente do Xamã [e vestido de trapos empapados de pó e sangue, como se saído do combate], o mequetrefe se impôs exatamente por isso: se fosse semelhante, as pessoas procurariam [e encontrariam] as inevitáveis diferenças. Como era bem diferente, elas procuraram as inevitáveis semelhanças.

Desnecessário descrever as orgias e banquetes e hectolitros de Mhir´raz [a bebida nacional] que marcaram seu curto reino – que terminou inevitavelmente com a volta do filho do Xamã [o qual afirmou que o pai morrera gloriosamente em batalha, e outros dizem que ele matara o pai para roubar-lhe o trono] e o previsibilíssimo enforcamento do farsante.

Na verdade Rhattam só entrou na história por uma frase tão tola quanto real, que é repetida sempre, e que teria pronunciado ao ser levado ao patíbulo

Lhahrik-el-Tsorumhak!

Que em uma tradução livre do quinto subdialeto Khazyr significa Foi bom enquanto durou!

16 de agosto

Nacional Animal

O estranhíssimo governo da Primavera das Flores de Barro [em decisão também estranha] declarou hoje em 1918 que o Camelo Amhitariano [Camelus Amhitarius] seria doravante festejado como animal nacional.

Não foi a proverbial indolência camelina [pois no caso nem se aplica] que enfureceu os patriotas [que pretendiam bichos nobres como a Águia, o Tigre e até mesmo o Urso Polar (malgrado a inexistência deste último a menos de oito mil quilômetros do território nacional)]. Ao contrário de seus concorrentes de outros lugares [o saariano Dromedário (Camelus Dromedarius) e o mongólico Camelo Bactriano (Camelus Bactrianus)] o Camelo amhitariano detesta os desertos, ama as montanhas e as temperaturas acima de 15 graus o fazem pegar resfriado [sendo a gripe camelínea para ele absolutamente letal].

Não pode passar sem água, sendo o terror dos viajantes que passam por uma fonte que já foi visitada por uma tropa deles – eles a secam inteira. Ao contrário de seus dois concorrentes, os camelos de Amhitar são ativos até o desconforto. Muito antes do sol nascer ficam empurrando os focinhos nos pobres donos, incitando-os a continuar a marcha. Por causa disso foram abandonados como animais de caravana.

O problema dos patriotas é que, por ser tão fora das expectativas, o Camelus Amhitarius teria pouca utilidade para uma nação que queria se afirmar como parte do mundo civilizado, provocando tal bicho mais risos que propriamente respeito.

15 de agosto

Os Diabos

Quando o Xamã Rachid Uminiso morreu os demônios vieram buscá-lo. Durante toda sua vida [longa como sua barba] argumentara que os deuses [Zeus, Brahma, Alá e Deus-Pai] não se importam com os homens, do mesmo modo que estes não se importam com as formigas. [Era 15 de agosto de 1469].

Vieram devagar, e sequer perturbaram o sábio que, ignorando o seu estado, levantou-se da cama onde a doença o fulminara e se pôs a escrever. Acrescentou mais dois capítulos ao seu novo ensaio De como a indiferença dos deuses não é maldade, é só indiferença e pediu o almoço. Um demônio disfarçado de cozinheira lhe serviu uma perdiz na manteiga, que saboreou como sempre, embora a sentisse um pouco mais amanhecida que o normal.

E durante os dias seguintes os demônios lhe foram tirando coisas, primeiro os lápis, depois um maço de pergaminhos, o tamborete favorito e em algum tempo nada tinha onde escrever a não ser em uma tábua e em costas de papéis já usados – e não tinha consciência da crueldade das palavras que colocava neles.

Reduzido a um estilete e um pedaço de papiro manchado, finalmente conscientizou-se [embora não de todo] que partira desde mundo. Concluiu seu último tratado sem mudar uma vírgula de suas ideias. E finalmente tudo foi retirado exceto as paredes.

Depois de colocar o ponto final, escreveu: alguém bate à porta. [Não se sabe se abriu ou não, sendo esta a última frase que deixou escrita].

14 de agosto

Len

E Utkirbek Rahman recebeu a visita de Jesus Cristo! O profeta adentrou pela janela do seu apartamento [décimo-terceiro andar do edifício Os Mistérios da Nova Amhitar]. Acomodou-se no sofá, cruzou as pernas, ajeitou os pequenos óculos redondos e pediu uma guitarra elétrica [Utkirbek só tinha um violão] e três gramas de uma substância proibida [que o anfitrião não possuía – a polícia política confiscara uma parte e Utkirbek acabara de queimar o resto].

Jesus cantou baladas até bobinhas de garotas lindas pela qual supostamente estaria apaixonado, falou de embarcações amarelas e mandou imaginar um mundo novo [algo estranho para quem pode criá-lo, mais estranho ainda que o carregado sotaque inglês que trazia].

Jesus falou não em três [trindade], mas em quatro pessoas [das quais ele mesmo seria um] naquele agosto de 1969. Pronunciou para um atarantado Utkirbek a misteriosa frase

Sou mais popular do que eu mesmo.

Devolveu o violão, coçou o nariz debaixo dos óculos e desapareceu tão macio que o anfitrião nunca soube como.

Só soube [logo que o outro dera as costas] que não foi o Profeta que o visitara [de resto nisso não haveria grande mérito – não são poucos os que relatam ter visto Jesus].

Utkirbek entendeu – Ele o visitara. E decidiu dedicar sua vida a seguir os passos dele. Rahman não mais existia – ele agora era Utkirbek Lennon, um dos poucos a ter visto John – ao menos tão de perto e com tal nível de franqueza.

13 de agosto

Inesquecimentos

Diz a lenda [mas as lendas não dizem nada] que o Dervixe Kebrihot [tatara-tataravô do guloso Xeque Muattax, por sua vez tataravô do balofo SemiSultão Dhoxrux] incomodou-se com a perspectiva de deixar este mundo – e por alguma razão pouco compreensível quis permanecer nele. De forma ainda mais ininteligível decidiu que, já que não podia permanecer em osso e carne, permaneceria através de seus feitos.

Durante sete anos o Dervixe lutou em sete guerras, foi ferido sete vezes e matou [ele mesmo] sete mil inimigos. Para celebrar construiu nove torres [o descompasso de números ainda hoje ocasiona não poucos debates]. Nem isso sossegou seu coração. Pensamentos o atormentavam de que logo que virasse as costas [de modo eterno] seria esquecido por seus atuais bajuladores.

Decidiu [e isso não conta a seu favor] permanecer pela luxúria. Reuniu setecentas concubinas, com cada uma teve sete vezes sete cópulas no exíguo prazo de sete meses [degolados foram os traidores que espalharam que o Dervixe utilizava certa erva azul para consegui-lo]. Nem isso o acalmou [o pensamento de que suas amantes trocariam de amor o espicaçava].

Decidiu construir uma mansão, tão grande que meia cidade de Shmakant teria de morar lá. E deixou as portas sem travas – de forma que, de noite, com o vento sacudindo as portas, ninguém conseguiria dormir. E lembrariam sempre do Maldito Dervixe. Acalentado por tal pensamento, morreu em paz. [A mansão foi incendiada três dias depois].

12 de agosto

Eternos livros

Da primeira biblioteca de Amhitar não quedaram registros, sendo pouco menos que um exercício de delírio a data de hoje [declarada como dia de sua fundação].

Certo, três paredes de abobe [e o pedaço de uma quarta] na melancólica [e abandonada] cidade de Khatlon permitem afirmar [embora de maneira pouco firme] que foi naquele [triste] lugar que um dia [alegremente] crianças, velhos e sábios cascavilharam sobre pergaminhos e tabuinhas com inscrições. [Ou ao menos esta imagem paradisíaca consta do livro ilustrado Maravilhas da Cultura de Nossa Pátria, que depois (desafortunadamente) estudos mais acurados revelaram ser tão delirante quanto a data].

À falta de resquícios físicos, sobram as interpretações. Uma das mais célebres procura explicar a falta de pedaços rasgados de pergaminho ou papel no sítio arqueológico de Khatlon por uma  maneira não carente de exotismo: exemplo único no mundo, a Biblioteca de Amhitar [sendo a cultura da época (vagamente situada entre 1000 e 3000 A.C.) totalmente oral] reunia não livros, mas pessoas que sabiam histórias. Os leitores não liam: chegavam, pediam as histórias, os contadores contavam, os leitores iam embora.

Tal versão [por delirante que fosse] originou outra mais ainda: certo Duque, cioso de sua biblioteca, proibiu os contadores de histórias de morrerem, ameaçando com terríveis punições os desobedientes. Apesar de que nem naquela região nem naquela época houvesse duques, tal versão conta com não poucos adeptos.

11 de agosto

Poetisa Quinquenal

Zoda Surayyo berrou o seu Cinco Anos de Sonho hoje em 1917 no Teatro Viva o Futuro! [antigo Teatro Catarina a Grande] de Dekhanabad [capital provisória do Regime dos Cem Dias]. A jovem [surpreendentemente] loura adentrou assim um time de [futuras] heroínas do começo do século, que inclui a sóbria intelectual contrária à família Breanna Oygul; a belíssima modelo Juju Shilmora [uma das primeiras a aparecer nua em público]; e a dupla de primas Odina e Iroshka Maruf, esta uma doce poetisa romântica.

A também poetisa Zoda rompeu com uma tradição de poetisas flores, gatinhos e príncipes e rompeu quando [inflamada de fervor revolucionário pelo novo governo] abriu com o verso Amante Vida – Galopemos pelo Quinquênio Afora. [Cabe o esclarecimento que o Regime dos Cem Dias (que ainda não sabia que duraria tão pouco) estabeleceu o prazo de cinco anos para o Novo Mundo se estabelecer – sem tomar o cuidado de esclarecer como seria ele].

Claro, nem mesmo o governo revolucionário era tão revolucionário assim – setores dele interpretaram de maneira talvez excessivamente carnal as palavras Amante e Galopemos – o que gerou polêmica que cessou abruptamente com a derrubada do regime pela Primavera das Flores de Barro.

Quando uma década depois certo russo chamado Vladimir Maiakovski pronunciou verso parecido em poema, o Centro Libertário Feminino o considerou plagiador e machista. Tal acusação [sem ou com justiça] perdura.

domingo, 10 de agosto de 2014

10 de agosto

O Invasor

Marcus Flaminius [Centurião] comandou [ou levou arrastados] seus trezentos mil homens da XXX coorte romana durante trinta meses em pouco gloriosa jornada para depois do Ponto Euxino. [Versões mais modestas porém talvez mais realistas diminuem o número de infantes para trinta mil]. O seu Comentarii de Bello Transcaucaasi [Histórias das Guerras do Além-Cáucaso] constituem a única [embora não muito segura] prova de que as fronteiras do Império Romano [que a História convencional afirma terem parado nas margens do Eufrates] na verdade se estenderam até Amhitar. [Dele existe apenas uma décima-terceira recópia (não isenta de suspeitas) descoberta em Budapeste em 1947].

A descrição de três rios [dois deles semelhantes ao Syr e ao Amur-Daria] e a menção a um Vale com 88 Desertos [sendo que a tradição atribui 99 desertos ao platô de Qyzylorda] aumentam a verossimilhança do relato. Em verdade o testemunho que o Centurião dá do país não é lisonjeiro, nem interessado. Depois das descrições de massacres [típicos dos romanos,] menciona apenas um Velho de longa barbas, do qual se dizia que nascera 9999 anos antes [e do qual não dá maiores detalhes] e o calor que lembra o Hades. Depois de descrever como as privações e as flechadas reduziram sua tropa a 299 soldados, descreve a triste volta.

A popularidade do escrito se deve a um ingênuo desejo de de ter feito parte desse império jogador de gente aos leões – é o que dizem os amhitarianos mais cheios de orgulho.

sábado, 9 de agosto de 2014

09 de agosto

Sid Gaut

E Sidarta Gautama ultrapassou os portões de Amhitar! Acompanhavam-no sete pombas (símbolo do atrevimento), sete virgens (símbolo do futuro), sete nuvens (símbolo da transição) e sete monges (símbolo da permanência). Cruzou oito rios, subiu nove montanhas e, na beira de dez lagos, encontrou onze figueiras, com ramos que se espalhavam por doze países.

Sentou-se e não fez a posição de lótus para decepção dos 776 que então já o seguiam. Não sorriu e nem chorou [embora metade dos testemunhos tenham dito que sorria, e a outra metade que chorava]. Olhou a paisagem [que para uns era belíssima, e só um grande homem poderia ter escolhido um lugar tão maravilhoso; para outros era um recanto tosco, e apenas a presença da centelha da divindade o fazia cheio de esplendor]. Seus olhos semicerraram. Não falou, não fez.

E cinco milênios se passaram [na percepção talvez não muito literal das pessoas que o seguiam]. Levantou-se [e os quatro grupos de sete que o acompanhavam levantaram-se também]. Calçou as sandálias, refez o caminho dos lagos, das montanhas e dos rios e foi embora em seu destino.

Um menino [dizem] o fez falar. Perguntou o que pensou debaixo da figueira. As versões se dividem. Uns, que ele disse não pensar em nada. Outros, que nada disse: sorriu e prosseguiu com seu caminho e suas sandálias. Outros, que ele afirmou que não se pode se pode pensar no nada, pois o Nada também é uma coisa, e pensar em Nada não é pensar em Nada.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

08 de agosto

A obra sem entendimento

Um casal – a mulher fia [com um rolo de lã] em uma sala. À esquerda, um abajur de listras. À direita uma gravura de Lênin, em vidro, com um canto quebrado. O marido chega. Ele se senta na poltrona oposta. A mulher fia. O homem checa o relógio, como autômato. A rachadura no vidro ramifica-se em três. A luz no abajur torna-se verde, rosa, e finalmente enegrece a cena. Alguém grita [impossível distinguir se homem ou mulher]. As luzes se acendem. Fim.

Da Inexistência de um Final estreou em super-8 semiartesanal  hoje em Shmaarkhaant em 1971. Tratava-se de remake de outra película - esta anônima - filmada em celuloide 35 milímetros e iniciada [em coincidência que deve mais ao acaso que à homenagem] na mesma data em 1918.

A crítica não conseguiu entender essa obra [que alguns (embora não muitos) denominam prima)]. Dizem que se trata do tédio da vida, outros do prenúncio da queda do regime soviético, outros ainda de um drama de assassinato em família à la Hitchcock. [Especulam se a mulher pretende matar o marido estrangulado ou se este é que espera (ansioso) os pistoleiros que contratou para darem a ela um fim]. Outros dizem que não são marido e mulher, e outros ainda que eles nem se veem.

Beiram o infinito as especulações de uma refilmagem, embora as expectativas de que Tom Hanks e Angelina Jolie venham a estrelar uma superversão hollywoodiana pareçam ser mais um excesso de otimismo patriótico da crítica local.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

07 de agosto

Mergulho

Nunca terá [talvez] fim a discussão se Zuref Rodras era um homem ou um deus [sendo inexplicavelmente minoritária a (esperável) terceira corrente de que seria um semideus]. Sua deidade (ou não) teve dia e hora certos: às 15 horas e 15 minutos no dia de hoje no ano de 1555 dos hereges [19 de Hamadan de 962 da Hégira] o jovem se jogou entre as colinas Dilsh e Sard no lado oriente das montanhas Karotegin.

Tais colinas não se destacavam por sua altura [não mais de duas dezenas de metros as separavam do chão] e nem pela majestosidade. Quase abraçadas por um lago, juntavam-se tanto que uma fenda entre elas permanecia eternamente escura. Naqib-il-Khamudan [o buraco escuro] era como a conhecia a miserável tribo dos Sumlaks ao lado.

Uma moeda jogada atingia água [o barulho permitia dizê-lo] mas o eco impossibilitava dizer se a água era do mesmo nível do lago, se mais fundo, se a moeda ricocheteara antes. Guerreiros não desprovidos de força já tinham bravateado vencer o medo – apenas para perder o controle de suas funções na hora, meio ao riso geral.

Zuref colocou-se em poucas roupas e [surpreendentemente mal humorado] jogou-se de bico. 1998 orelhas escutaram atentamente – e nada [exceto um barulho multiplicado pelo eco, que parecia mais roída de rato].

Três dias depois [o número é significativo] reapareceu: sorriu. Disse que tinha fome. Comeu. Recusou-se a dizer o que havia depois do mergulho no escuro. Foi embora. E até hoje discutem se era homem ou Deus.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

06 de agosto

Arquiteto

Imhotep escreveu #Fail na base de sua pirâmide e este fato [miraculosamente só revelado em 1987] longe de ocasionar best-sellers e teorias da conspiração apenas gerou raiva contra o protagonista, apelidado traidor da pátria com quarenta e cinco séculos de atraso. [Claro, escreveu-o em jargão que nove gerações linguísticas depois se transformaria no protodialeto Bakhmar e que só pôde ser compreendido com uma chave de tradução deixada pelo linguista Abdullaeva Behruz. O #, sua parte mais misteriosa, é inexplicavelmente a de versão menos discutível].

Por boa parte desses séculos o Mundo incensou Imhotep [um dos poucos amhitarianos a ter apenas um nome] – era ele o primeiro construtor de Amhitar, o herói de civilização. Não foi pequena a cólera quando aconteceu a explosão da egiptologia no século XIX e os hieróglifos revelaram outro Imhotep na beira do Nilo – também arquiteto, também gênio, também construtor de civilidades. A evidência se impôs: não era outro, era o mesmo.

Restava a esperança de que Imhotep fosse um amhitariano sequestrado pelos malvados egípcios – e que lhes ensinou boas maneiras. A breve inscrição [junto com treze versos de desilusão e abandono] sugerem que o grande homem [se é que o era] sumiu de Amhitar por que queria – e porque tinha raiva.

A ideia de que a inscrição #Fail pressagia certo popular serviço de microblog é demasiado inverossímil para ser desprezada.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

05 de agosto

Palácio no Deserto

O andarilho Dasha Ulugbek [cuja existência é objeto de não pequena disputa] rachou as crônicas de viagem ao meio com o célebre quarto rolo de seus pergaminhos no qual teria descrito suas aventuras no mundo do século XII.

Dasha [em seu estúpido porém veraz conselho de que para viajar é só colocar um pé adiante do outro e repetir a operação] descreveu como quase bate o nariz em uma parede, que se revelou uma muralha, que se revelou um palácio [inevitavelmente situado sobre uma montanha]. Nada de extraordinário: os príncipes e os delírios gostam de casas no meio do Nada. O distintivo era o odor. O Palácio possuía vários aromas [não menos de 77, segundo o viajante] capazes de levar às estrelas, e além.

Esse pequeno trecho ocasionou as reações esperáveis, desde as acusações de falsidade até as de discreta apologia a substâncias entorpecentes – além das [inevitáveis] corridas dos caça-tesouros.

A Utkirbek Lennon no meio dos anos 60 [esperavelmente um dos hippies do país] coube andarilhar e descobrir o mistério. Tratava-se de uma mansão de barro [já então abandonada]. Desvelou o segredo, tão surpreendente quanto banal: certo xeque ordenara mergulhar o barro dos tijolos de cada cômodo não em água mas em perfume: um de rosas, outro de hortênsias, outro de madressilvas. O cômodo que Utkirbek mais apreciava não o era, mas a porta que dava para o deserto.

Aquele é o melhor cheiro, sempre repetia ele, o cheiro do deserto. É limpo.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

04 de agosto

Vagos soberanos

A Academia de Ciências de Amhitar [de maneira só explicável pelo puro capricho] decretou o dia de hoje como aquele da Lembrança das Dinastias Arcaicas - e a sua rival e sucessora Academia Soviético-Proletária da Ásia Central [de maneira quadruplamente inexplicável] concordou.

Nem as duas Academias nem os xamãs nem os comissários jamais conseguiram definir com precisão tais dinastias [e menos ainda a razão de sua presença no imaginário popular]. Situam-nas vagamente [e o advérbio aqui é mais do que justificado, diz o mau humor do cronista Iusya Marzhaffar] antes do tempo do profeta dos hereges [um certo Cristo], em uma data envolvida pela névoa entre três séculos e trinta milênios antes dele [defendem a última data aqueles que creem (não sem orgulho patriótico) que o Homem Amhitariano é o Homem primordial].

As especulações sobre os reis de tais dinastias [como seria de esperar] oscilam desde um conjunto de bondosos soberanos e suas pias famílias [com direito até a um príncipe que casou com uma camponesa - numa curiosíssima antecipação da Cinderela] até um grupo de selvagens representações do atraso do Despotismo Oriental.

Mesmo o geógrafo Serguei Kovinev [que não era neutro – seu lado (segundo ele mesmo) era o dos proletários] afirma que a vaporosidade dos vestígios arqueológicos faz com se veja em tais Dinastias aquilo que cada um quer ver. Por isso [talvez] 9.999 lendas [o número é discutível] as percebam como utopia ou como terror, conforme o gosto.

domingo, 3 de agosto de 2014

03 de agosto

Sábias

Os Sete Grandes Sábios do Deserto não eram sete [escavações demonstram que seriam pelo menos onze]; não eram grandes [testemunhos asseveram sua estatura algo pequenina]; não eram do deserto [seus maiores sinais se encontram em cidades].

Breanna Oygul 29 anos e cabelos negros [e seriedade de monge] disparou a principal contrarrevelação sobre estas figuras não isentas de vetustez frente a um auditório lotado hoje em 1922 [e tal fato não deixou de suscitar lembranças (inevitavelmente exageradas) de sua palestra-orgia sobre libertação feminina celebrada a 27 de fevereiro]: os Sábios não o seriam, e sim Sábias.

A jovem militante tocou [talvez o sabendo] no ponto delicadíssimo de O que aconteceu com Amhitar entre a derrota das treze falanges elefânticas do rei Motleruz no ano 329 a.C. e a revelação (talvez) divina ao Subprofeta Royinod Abisan (o fundador da protocivilização Khazyr) em 241 d.C. [no calendário dos hereges]. As evidências mais firmes [contestadas não sem paixão por todas as academias amhitarianas, neste ponto unanimemente masculinas] estabelecem que um domínio feminino se estabeleceu no período: na política, na maquiagem, nas artes e até na sabedoria [daí as Onze Sábias].

Breanna demonstrou seu ponto com citações em aramaico, grego e no dialeto Bakhmar. Sua seriedade não a impediu de provocar [de maneira inadvertida] uma enchente de rapazes jovens no auditório, que pouco prestaram atenção ao discurso e depois [dizem] dedicaram-lhe sonhos noturnos.

sábado, 2 de agosto de 2014

02 de agosto

Octaedros

O matemático Bahodir Charos [idade avançada mas cara lisa de menino] estabeleceu a terceira [e definitiva] contestação: os Octaedros não o seriam, mas Hexágonos [a óbvia constatação de que superfícies oitavadas não cobrem por si sós uma superfície plana foi inexplicavelmente desprezada por não poucos séculos].

Os deuses dinamitaram Amhitar inteira e depois a soldaram em pedacinhos oitavados – é a história dessas [estranhíssimas] divisões territoriais. [Na qual não acredita nem mesmo quem a conta].

A inverossimilhança vem de três fontes. Primeiro, não foram deuses – e sim um balofo Xamã que ordenou a tal partição. Segundo [e geograficamente mais significativo], os Octaedros não cobrem o país– só os platôs do Norte. Principiam depois dos 99 desertos além do rio Syr Darya, entre os planaltos de Qyzylorda e as margens do Lago Balkash. [Essas suas fronteiras tradicionais não deixam de ser cada uma delas sujeita a debates, especialmente políticos – os Octaedros formariam o lixão do mundo - gigantes, pigmeus, dragões e bárbaros lá habitariam]. [Desnecessário dizer que Vou te levar para os Octaedros é a maior ameaça de babás a crianças levadas].

Por esta heresia o SemiSultão Dhoxrux fez Bahodir caminhar para o exílio na data de hoje em 1850. No deserto o matemático desenhava teoremas na areia. Dizem que demonstrou que a verdade sempre prevalece – mas essa história pode ser demasiado romântica para ser real.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

01 de agosto

Vaidades

Os protestos detonados pela segunda edição do A História da Vaidade no Turquestão Ocidental na data de hoje em 1993 contrastam com o [furioso] silêncio que cercou seu primeiro lançamento 110 anos antes. Saiu então apenas um comentário de 17 linhas na Gazeta do Mar de Aral afirmando que tal obra contém revelações sobre nossa história que se situam muito longe da irrelevância.

A autora não divulgou seu nome. [O tolo pseudônimo Uma amante da nossa beleza encima a edição original]. A obra até quase o final pouco tem para gerar polêmicas. Descreve em tom neutro [e não sem certa monotonia] a arte de pintar o rosto em Amhitar. [Os poucos críticos (na verdade críticas) que veem o livro com imparcialidade afirmam que ele deveria se chamar Uma História da Maquiagem]. Ervas e tinturas e sementes esmagadas e pastas e cores carmim e turquesa desfilam nas [surpreendentemente vívidas] ilustrações da obra.

Começa um breve capítulo Visão social da arte maquiadora. A autora afirma que na Amhitar antiga os homens se maquiavam, e só eles. Gravuras com rostos masculinos parecendo bonecas desfilam pelas páginas – o que talvez explique os tijolos jogados contra livrarias e o fato de nenhuma editora ter se atrevido a uma terceira edição, sendo raridades os exemplares existentes.

A Pós-Moderna Academia do Passado Inexistente [de maneira compreensível, dado seu amor ao contestatório] a considera uma obra de gênio, e afirma que A Vaidade é o Pináculo da Inteligência.