segunda-feira, 30 de junho de 2014

30 de junho

Do nada vem a revolta do nada

O mundo hoje em 1864 semelhava perfeito ou ao menos com sua imperfeição costumeira [os galos a cantar por volta das cinco, o merceeiro a roubar no peso, o telégrafo trazendo notícias de bocejos] quando [sem nenhuma razão aparente ou desaparente] setenta jovens degolaram sete soldados e a promessa de vingança do Emir apenas atiçou que sete mil, depois [dizem não sem algum exagero] sete milhões invadissem o bazar, os becos e os haréns dispostos a consertar o mundo  e as calçadas sem alinhamento.

Em um dos momentos mais patéticos da história de Amhitar [e também nos últimos momentos da vida do Emir] os jovens revoltosos [derrubadas as portas de bronze do palácio, tendo enviado novecentos guardas para repousar no reino de Alá] berraram que os comerciantes roubavam, os fiscais propinavam, os soldados violentavam e a eles [o resto] sobrava o trabalho e o encolhimento. O Emir [miado de gatinho] gaguejou: não sempre foi assim? Porque essa raiva agora?...

Quatro dias depois o mundo voltou a semelhar perfeito ou ao menos com a imperfeição de costume.

Esta Revolta não foi por ninguém adotada – os marxistas depois a consideraram burguesa, os conservadores disseram ser apenas obra de quebra-quebras, e o filho do Emir, com ânimo de perdão [e com medo de nova revolta caso vingasse o pai] resolveu passar uma borracha. Tão inesperada foi que ganhou o anódino nome de Revolução do Meio do Ano, à falta de melhor rótulo.

domingo, 29 de junho de 2014

29 de junho

O mais completo dos filmes

O Lixo é o nosso melhor Amigo não se constitui [como seria de esperar] em filme humorístico ou de propaganda ecológica. O diretor Nasiba Tori quis valorizar o inverso, disse em uma de suas muito repetidas e pouco inteligíveis frases. A película [estreada hoje em 1924] principiava com um [impressionante mas nem por isso (segundo alguns) menos antiestético] close nos olhos de um peixe podre.  E bidês quebrados, relógios velhos, pedaços de madeirame de navio, papel usado em finalidades pouco nobres, restos de vômito, bifes podres [além das inevitáveis ratazanas e urubus] encheram os olhos [não necessariamente embevecidos] do público por três horas e meia [pois o diretor dizia que os longos temas requerem compridos filmes].

Nada disso teria consagrado o filme como vanguardista se o diretor [um eterno insatisfeito com as limitações da linguagem artística] não tivesse trazido duzentos quilos de lixo para a sala de exibição [com a companhia de algumas dúzias de roedores e uns poucos milhões de moscas] – acrescentado assim a dimensão olfativa à sua obra-prima

A compreensível falta de sucesso não o impediu de seis décadas depois converter-se em cult - jovens cineastas conseguiram que a data fosse declarada o Dia Nacional da Ousadia de Vanguarda - homenagem arrancada não sem alguma compreensível resistência daqueles que alegaram (sem sucesso) que a obra vanguardística nem por isso precisa agredir narizes.

sábado, 28 de junho de 2014

28 de junho

Destinos

Quis o destino [mas o destino provavelmente foi destruído junto com a tabuinha no qual se achava] que fossem as escavações para as latrinas da cidade que possibilitassem o encontro hoje em 1937 das longas varetinhas quadradas de finíssimo barro [não sem os tratores pulverizarem a maior parte]. Esses artefatos com inscrições em dialeto protokhazyr contavam vidas – com tanto detalhe que seria possível alguém viver apenas seguindo um desses roteiros.

Estudos da Academia de Ciências de Moscou conceberam tais varetas como coleções de fatos, que podiam ser semelhantes uns aos outros, mas que, combinados de certa forma, criariam um ser único, tabuinha ou pessoa [em notável antecipação da moderna teoria do DNA].

O espalhamento dessa notícia ocasionou uma corrida às escavações, o que [lamentavelmente] destruiu o que havia sobrado dos tratoristas. Pessoas se atiraram às tabuinhas pois fofocou-se que o destino de cada um estava ali, em alguma vareta. Desesperadas, queriam [e temiam] saber quando iriam morrer ou seriam príncipes.

A passagem de uma vareta de barro para uma vida demanda algum trabalho. O Comitê de Cientistas quis explicar isso, mas o temor da decepção [e da revolta] fez com que se calasse, e o destino [e a ansiedade popular] destruíram os destinos impressos, para o bem [talvez] de todos. Sobraram sete fragmentos guardados no Museu da cidade traidora de Tashkent, tão quebrados que deles nada se entende, muito menos a vida de alguém.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

27 de junho

A bicefalia do homem

Os gêmeos Java e Kobe Shernazar [inadvertidamente] iniciaram uma discussão que tem sido reputada [não sem algum exagero] de dividir famílias, provocar duelos e tentativas de empurrões em abismos.

De Java, pouco a dizer. Nascido hoje em 1349 [749 da Hégira] tornou-se sapateiro, como o pai. Consertou sapatos. Consertou sapatos. Casou-se. Consertou sapatos. Teve filhos. Consertou sapatos. Consertou sapatos. Teve netos. Consertou sapatos. E morreu, 89 anos e só Alá sabe quantos sapatos depois.

Kobe seguiu um líder que falava de revolta, da opressão dos estrangeiros, de um reino de leite e mel. E que nada disso viria sem sangue. Aprendeu a manejar espadas. Matou seu primeiro soldado. Levou duas flechadas. Fugiu para Sinkiang. Apaixonou-se por uma princesa local. O pai dela mandou jogá-lo em masmorra. Fugiu. Tornou-se marinheiro. Descobriu a redondeza do mundo. Voltou. Morreu aos 22 anos de lança no peito em guerra libertadora contra um principote opressor.

Quem teve uma melhor vida – é a questão. Alguns dizem que foi Java. Foi produtivo, ensapatou o mundo, teve algum prazer, preservou a saúde, morreu porque não dá para fazer de outra forma. Outros alegam que sua vida foi monótona e preferem Kobe: o jovem guerreiro, idealista e barbas ao vento – embora estivesse debaixo da terra muito cedo.

Nenhuma das Academias da história de Amhitar teve coragem de tomar posição definida a esse respeito – por receio de uma divisão irreparável entre seus membros.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

26 de junho

Os nomes da capital

O herói Donyhor al-Temurbek [ou um de seus 999 avatares] [inevitavelmente] fundou a capital amhitariana de Shamerkhaent. [A própria cidade (de maneira previsível) também foi fundada 999 vezes ou 1.007, de acordo com certas correntes que atribuem este tanto de vidas ao grande homem].  Muito menos explicável [e neste caso o sempre-retornante Temurbek parece ter pouco a ver] é a existência de sete mil nomes para a cidade sagrada dos amhitarianos [já que a corrente que afirmava a existência de apenas 999 foi rejeitada como primando mais pela simetria patriótica que pelo amor à verdade].

Poucos são os amhitarianos que escrevem o nome de sua capital da mesma maneira – as grafias variam desde Szhhhmkhhtt [um improvável nome feito apenas de consoantes] a um quase polinésio Shmarkoa-Shmarkoa, além de um que principia por Shlivizkiliaaarrr... e se estende por 73 caracteres, além de um [pouco surpreendente] nome de sete mil letras, o qual [grande demais para ser usado na vida diária] é frequente em cerimônias iniciáticas de sub-seitas que se dizem sucessoras da antiga religião Khazyr.

As razões dessa diversidade [ou confusão, segundo alguns] se prendem a uma riqueza da cidade e da língua, com a última refletindo os múltiplos aspectos da primeira. Outra corrente afirma que é preguiça mesmo – o tempo passou, ninguém regulou o nome oficial e o que era desleixo tornou-se tradição. Compreensivelmente os adeptos desta tendência preferem o anonimato.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

25 de junho

Cego dinheiro

Sobre a moeda de Amhitar [o Amhit] pairam discussões que primam por sua radical inutilidade [a (previsível) opinião é do geógrafo Serguei Kovinev, que valorizava (dizia) a objetividade até quando bebia água]. Uma escavação hoje em 1897 para a troca de dormentes na Ferrovia Trans-Turquestão ocasionou a descoberta dos únicos treze exemplares conhecidos de tal raridade numismática [existindo 337 outros, porém com fortes suspeitas de falsificação].

Datações de Carbono 14 [confirmadas na Universidade de Delhi em 1968] colocam tais moedas entre 350 e 499 d.C., o que faria delas as únicas da época a não terem efígie, nem de rei, nem príncipe. A maior e mais tola discussão [de novo é Kovinev quem o afirma] se refere à questão se o [hoje esquecido] potentado que ordenou sua cunhagem era tão feio que não queria ser representado, ou se usava um véu por alguma razão religiosa para não ser contemplado por seus súditos. [O Amhit é moeda tão valiosa quanto monótona – não passa de um disco mal feito com toscos enfeites na borda].

Impaciente com tais especulações, a Academia Soviético-Proletária da Ásia Central [em um momento de (raro) bom humor] publicou número especial em outubro de 1939 afirmando que o Xamã da época era cego e decretou que, se ele não podia ver a beleza de sua moeda, ninguém também poderia. [Curiosamente uma metade de pergaminho (datada do ano 599) descoberta pouco depois em um pagode budista em Jacarta parece confirmar tal hipótese].

terça-feira, 24 de junho de 2014

24 de junho

Territórios talvez imaginados

A [ainda hoje não muito avantajada] credibilidade da Teoria dos 99 Octaedros seria ainda menor se um rato-de-biblioteca não tivesse comprado [em um sebo de ruela em Paris hoje em 1897] um maço de pergaminhos em processo de esbagaçamento, o qual dois laboratórios [com pouca dúvida] atribuíram a Abdul Al-Wahazari. Em tal documento, o lendário cronista estabelece a teoria. [Posteriormente, uma nova interpretação de uma passagem obscura das Opacas Confissões de seu tio Nilufar al-Wazahari trouxe ainda mais argumentos a seu favor].

Segundo Abdul [e ao contrário da crença popular] 99 não são os octaedros e sim os desertos que se atravessam para a eles se chegar. A romântica [e totalmente inverossímil] crença de que existem 1.999.999 octaedros é firmemente rechaçada por Abdul, que afirma [apoiado no testemunho dos viajantes Sayyd Maruf Umarkhan e Dasha Ulugbek] que eles não passam do banal número de cinquenta. Quanto à sua natureza, trata-se da mera divisão de território [estabelecida por ordem de algum xamã] em uma civilização que não conhecia os mapas. A fronteira norte se dividiu em pedaços oitavados, os quais depois de abandonados [devido aos bárbaros e às pestes] foram preenchidos pela imaginação popular com manadas de cavalos de três cabeças, rios de suco de groselha, além de uma inevitável tribo de mulheres guerreiras.

O cauteloso cronista não atira água fria de todo e afirma que ao menos a tal tribo possa ser provavelmente real. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

23 de junho

O Dia Nacional das Heresias e dos Heréticos

As três milhões de heresias religiosas de Amhitar [número inacreditavelmente reproduzido na reacionária Enciclopédia do Turquestão e mais injustificadamente ainda na revolucionária Enciclopédia das Massas Trabalhadoras] não eram, obviamente, três milhões. Uma explicação para tal engano pode ser encontrada na quarta edição da Encyclopaedia of Heresies and Heretics, de Chas S. Clifton [cujo verbete relativo a Amhitar (depois inexplicavelmente retirado) se baseia em artigo do historiador Dilafruz Michelet] – também consta uma breve menção [ainda mais esclarecedora] no O Sagrado e o Profano de Mircea Eliade.

Segundo tais obras, o que caracterizava dois dos três grandes troncos da religião amhitariana [os dialetos sagrados Khazyr e Bakhmar] era o inverso das religiões não-amhitarianas: enquanto os profetas de Jeová, Deus-Pai e Alá tonitruam certezas e abundam em frase do tipo Eu mando, os não-profetas [só havia esses] dessas duas seitas tossem, pedem licença e desculpas antecipadas apara o caso de estar errados. A dúvida fundamenta as religiões amhitarianas. Por isso [dizem as duas notas] popularizou-se um fantasioso número de heresias. Não o são, e sim o número de soluções para o problema da verdade, que praticamente coincide com o número de fiéis, pois cada um tem sua certeza. Ao contrário das religiões não-amhitarianas, nas quais isso causa fogueiras e guerras santas, em Amhitar a dúvida é aceita, e até celebrada.

domingo, 22 de junho de 2014

22 de junho

O Dia Nacional contra o Roubo

A publicação do Tratado Geral de Afanos e Descuidismos ao Próximo, e da Arte de por Causa Deles Não ser Pego compreensivelmente não faz parte dos eventos mais honrados em Amhitar, e nem mesmo o [esperável] entusiasmo da Academia [Pós-moderna] do Passado Inexistente faz com que seja o patriotismo amhitariano se sinta menos ultrajado por tal compêndio.

Em uma história tão pontuada por grossas neblinas da incerteza e manuscritos rasgados pela metade, a existência desta [por muitos considerada pouco] honrosa obra se trata de evento quase que incontestável [nada menos que sete edições, com nunca menos que nove exemplares sobreviventes em cada uma, quase todos em ótimo estado, garantem que tal trabalho se encontra longe de ser lenda].

Para o patriotismo, o pior é que tal peça [de data e autor incertos] caiu no domínio do público. O 22 de junho é o dia das pequenas tapeações, dos trotes telefônicos e dos vírus de computador [um jornalista chegou a publicar neste dia uma nota falsa O Grande Stalin afirma não gostar de sorvete de baunilha, algo que em 1951 exigia não menos que inenarrável coragem].

O Politburo tentou a domesticação da efeméride e decretou tal dia a Jornada Nacional contra a Feiura das Pequenas Safadezas, na qual todos meditariam contra a impropriedade de tal tais atos. Vítimas de uma onda de trotes telefônicos, as preclaras autoridades desistiram de promover celebrações a respeito, mas a data [oficial ou não] permaneceu.

sábado, 21 de junho de 2014

21 de Junho

O apóstolo do Nada

O homem que chegou hoje em 1869 na estação [provisória] de Shameerkhaat se chamava Alexander Kovinev. Ganhou a [inevitável] desconfiança dos locais. Os russos tinham invadido havia pouco. Eles eram maus e o médico Kovinev [um deles] recebeu frieza como boas-vindas.

Fundou o Sodalício Literário Deus Não Existe. [Sua popularidade supreendentemente aumentou com isso, pois ao contrário dos sanguinolentos (e ortodoxos) oficiais do exército czarista, as pessoas viam em Kovinev um russo diferente, e portanto melhor]. Em cada doença via uma manifestação da não-presença divina. Em cada cura que executava, um sinal de sua desnecessidade. Cada padre bêbado consistia em um sinal da incompetência celestial, e cada padre cioso uma prova de sua inenarrável beatice.

Alexander Kovinev não chegou sozinho. Viúvo, puxava pelo braço a Mikhail. Este deu ao pai o desgosto de com quinze anos fazer voto de castidade, com dezessete querer entrar em um convento, com vinte e um abjurar todos os descrentes. Pai e filho passavam na rua sem se cumprimentar.

Um curioso artigo anônimo neste mesmo dia em 1923 na Gazeta de Amhitar atribui tal inimizade a um conflito entre o avanço [ateu] e a reação [religiosa]. Os freudianos compreensivelmente fazem a festa e uma contagem em 1980 computou 44 artigos sobre o conflito entre gerações. Uma explicação de que o maligno poupara o filho e enfeitiçara o pai tem sido descartada por excessivamente mística.

o mesmo sobrenome do homem que exatos trinta anos depois o chamaria de Abominável Profeta da Inexistência – significativamente no mesmo lugar da chegada do primeiro, então já transformado em estação com quatro gares e três bulbos fake orientais no telhado. 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

20 de Junho

O santo homem

Diz a história [que compreensivelmente conta com poucas fontes escritas] que um dia um nobre cavaleiro quis descobrir O Sentido Da Vida, O Que Era A Verdade, E Como Encontrar A Paz. Reconhecendo-se ignorante para tão transcendentais questionamentos, concluiu [não sem alguma razão] que só um sábio homem poderia lhe dar as respostas pelas quais ansiava.

Ora, em Amhitar naquela longínqua época havia um homem sábio. Naziba Surayyo como geralmente acontece com os sábios homens vivia em uma caverna detrás de 77 montanhas e 99 lagos. O cavaleiro [decidido a resolver as dúvidas que o acutilavam] empreendeu a jornada.

Encontrou o sábio em meditação em um tapete, com a longa barba branca. Perguntou:

- Ó grande mestre, o que é O Sentido Da Vida, O Que É A Verdade, E Como Encontrar A Paz?

O mestre voltou-se, esbugalhou os olhos e apontou:

- Olhe ali atrás de você!

O cavaleiro olhou para trás e o mestre pegou um pau e deu-lhe uma paulada, prostrando o cavaleiro ao solo.

Exegetas e místicos [compreensivelmente] buscaram sentidos ocultos para essa história durante meia dúzia de séculos. Até que em uma sóbria sessão da Academia de Ciências de Amhitar hoje em 1927, depois de discutido por horas o assunto, alguém tossiu:

- Acho que o Sábio já estava de saco cheio dessas perguntas abstratas e sem sentido.

E essa explicação [que não deixa de ter algum efeito cômico] ainda hoje é a mais aceita.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

19 de Junho

Os três céus

Donyhor al-Temurbek [ou um de seus 999 ou 1.007 avatares, conforme a contagem] subiu aos céus no dia de hoje em 1888 [um dia comum, igual aos outros, exceto que nele o povo de Amhitar (tão em massa que parecia o povo de todo o mundo) se reuniu em protesto contra o Czar, contra os russos e contra tudo]. Apesar da massa calculada [com inverossímil precisão] em 97.931 pessoas, não passam de cinco as testemunhas [com mínima confiabilidade] que viram o herói colocar-se à frente, entre a linha dos cossacos que de sabres desembainhados avançava.

[Os cavalos em volta a transformar o tudo sem sangue e poeira] e os gritos semelhavam partir pedras e no meio [em pé, os cavalos que pareciam não vê-lo] Temurbek [dizem] voltou os olhos [secos e em forma de amêndoa] para o sol – e aquela sua [pequena porém significativa] proeza parou os cossacos e neste ponto os testemunhos se dividem. Para dois deles, uma gigantesca mão dourada baixou de sete nuvens [de bordas douradas] e arrancou o herói para a terceira das nove camadas do Empíreo.

Duas testemunhas contrabalançam o excessivo misticismo da primeira e afirmam que após varado por treze balas czaristas o herói reviveu, mas na alma combatente do povo [compreensivelmente a explicação adotada pelos radicais]. Uma quinta e última, porém, diz que Temurbek nunca esteve lá – o povo precisava de líderes, e não os tendo, criou um. Por seu caráter anticlimático tal versão ostenta poucos adeptos.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

18 de Junho

Malvada quase-presença

Não na sua Vida de César mas no Vidas de César e de Alexandre Comparadas [não incluídas na tradução do seu Vidas de Nobres Gregos e Romanos publicada na Coleção Great Books of the Western World da Enciclopaedia Britannica] que Plutarco se refere ao Reino de Amhitar. A menção é na melhor das hipóteses indireta. O nobre [e adulador] biógrafo romano afirma que, no seu período como embaixador na Bitínia, o então [quase] jovem Caio Júlio César sumiu por sete meses e sete dias. Reapareceu com perfumes e joias de um reino antes visitado por seu inspirador Alexandre o Grande.

Corroboram essa passagem 9 histórias da tradição popular [inevitavelmente coletadas por Java Kharlilah, o homem dos heróis, e sua Academia de Ciências de Amhitar] que afirma a presença do tribuno romano em terras amhitarianas. Algumas dessas narrativas mencionam diretamente seu nome; outras se referem por circunlóquios um longínquo dignitário coberto de ouro.

Cronistas patriotas [compreensivelmente] reputam tal passagem indiscutível. Contestam-nos uma minoria que afirma que a citação de Plutarco se deve a um desejo de amarrar paralelos entre César e Alexandre, pois o último esteve no Oriente. [Quanto às lendas populares, eles as reputam falsas por inteiro]. A principal resposta deles, no entanto, é que César [como Alexandre e outros] não passava de um cruel ambicioso cuja presença não honra país nenhum. Os nacionalistas os apodam por isso de traidores e vende-pátrias.

terça-feira, 17 de junho de 2014

17 de Junho

A Pioneira

A primeira jovem Escort de Amhitar [o eufemismo hoje se alastrou universal] driblou a censura militar do exército de ocupação do Czar Nicolau II e conseguiu emplacar um anúncio na Gazeta de Shmaekant hoje em 1911. Provavelmente foi sua habilidade com palavras que conseguiu furar o bloqueio: a nota de sete linhas [com um elegante uso dos adjetivos do subdialeto Khazyr] pode ser traduzida [não sem certa liberdade] como

Você, cavalheiro cortês e próspero, não precisa se entregar inteiro a uma esposa que não reconhece suas muitas qualidades. Eu saberei lhe dar sonhos de infância e adulto, risos, luzes e dança, tudo, tudo a dois. Posso ser sua, Amina.

As descrições dos cavalheiros-clientes [talvez não isentas de certo êxtase causado pelo palavreado e por algum uso de álcool] são unânimes em descrever a jovem como os olhos de rouxinol e o corpo de gazela [as testemunhas oculares sendo fundamentais, já que Amina não permitiu a invenção da fotografia imortalizá-la].

Correntes de pensamento debatem o significado da Pioneira. Os materialistas [previsivelmente] consideram-na a vítima de um sistema explorador. Os pós-modernos [inclusive a Academia do Passado Inexistente] a louvam como mulher emancipada. Um ou dois ensaístas [traindo talvez um excesso de psicologismo] afirmam que Amina não passava de uma fantasia da carência masculina, e que a Pioneira real possuía fortes carências estéticas. Sua opinião contabiliza pouco sucesso.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

16 de Junho

Apotegmas dos dois Burton

Richard Burton [dezessete dos seus biógrafos são acordes a respeito] cruzou o rio Amur-Daria hoje em 1854. Os escritores patrióticos de Amhitar [com tanta soberba quanto subserviência] não deixam de se orgulhar da visita do [futuro] célebre viajante e linguista ao território nacional. As críticas que se fazem [e que compreensivelmente se refletem na baixa divulgação desta data] se prendem a que, em vez de traduzir velhas sagas escritas em línguas incompreensíveis para o inglês [como fez na Arábia com As Mil e Uma Noites], ele só citou Amhitar [e nem mesmo com seu nome correto] nos manuscritos nos quais se orgulha de ter seduzido mil mulheres em todo o mundo. O capítulo amhitariano [cuja utilidade é discutível] refere-se ao momentoso assunto A firmeza dos seios das moças da beira do lago Balkash.

Richard Burton [vinte e sete dos seus biógrafos são acordes a respeito] desceu pelo aeroporto de Shamekhaant hoje em 1971. Os dezenove uísques que tomou a bordo do voo da Aeroflot Centro-Asiática o convenceram de que ele era Marco Antônio e ele bradou (movendo uma túnica romana inexistente) onde estava Cleópatra [ou sua ex e futura esposa Elizabeth Taylor]. Não deixou de contribuir para o aumento do nível do rio Syr-Daria deixando lá uma parte do álcool ingerido. A Comissão de Cinema decepcionou-se ao esperar uma declaração simpática ao final e ouvir apenas um Vou me casar de novo com Elizabeth Taylor, dito com um bafo pouco suportável.

domingo, 15 de junho de 2014

15 de Junho

Os avatares das gentes que não existem

Por três vezes Deniza Lusenok tentou vir ao mundo [Abdul Al-Wazahari afirma que foram 555 vezes, mas esse óbvio exagero tem minado a credibilidade de sua versão]. Por outras três não conseguiu. [O Bahardieesh-el-Munizhinoor, que pode ser traduzido como Livro das Sacratíssimas Dissidências, inexplicavelmente não registra detalhes de uma quarta e quinta tentativas]. Na sexta conseguiu, embora [dizem] com o atributo [não muito vantajoso] da invisibilidade para homens e animais [podendo ser visto apenas pelos gatos e pelos morcegos, sendo que nem mesmo a Torrente de 699 Sábios (que analisou não sem obsessão os escritos) tenha explicado a razão de tais exceções].

Deniza Lusenok emplacou-se como sétimo [sendo obscuro o destino dos seis primeiros] dos Gulmahayos [que um  filme classe B de Hollywood de 1960 traduziu como sobre-zumbis]. [Esta classe de pessoas [ou seres] nada tem a ver com doutrinas de reencarnação (trazidas a Amhitar por Zulfikar MaKahardec e celebradas nestas Efemérides a 10 de janeiro).] Os Gulmahayos [um ponto principal da mitologia (e da vida) Bakhmar] consistem em pessoas pela metade, meio terra meio céu, meio erro meio acerto, entre o nascer e o não ser. Vivem entre nós, são nós mesmos, e é impossível saber quando somos um deles e quando somos nós mesmos, se esta diferença existe. Por tal excessivo misticismo, só são lembrados no dia de hoje [e esquecidos no resto do ano].

sábado, 14 de junho de 2014

14 de Junho

O [vergonhoso] Dia Nacional da Indústria

A Verdade [uma vez descoberta] esmigalhou as comemorações deste que foi um dos festejos mais pujantes de Amhitar. [A Verdade desta vez (ao contrário do que teria dito certo /pretenso/ profeta do Oriente Médio) não ocasionou efeitos libertadores].

O dia da inauguração da primeira fábrica em Amhitar motivava comemorações e tapas. Os ateus e os marxistas [Iusya Marzhaffar e Serguei Kovinev à frente] perscrutaram bacias produtoras de carvão e concluíram que a primeira fábrica se dedicava aos arados de ferro, essenciais à acumulação de capital. Os românticos [e seu líder Dilafruz Michelet] atribuíram ao primeiro empreendimento a elaboração de delicados perfumes. [Uma corrente radical destes (a Academia do Delírio) patroneada pelo poeta-sedutor Byron Jasur afirmava (previsivelmente) que esse primeiro estabelecimento fabricava Sonhos].

Escavações do subsolo de Urgut em janeiro de 1956 destruíram tudo sob a evidência de que a primeira fábrica fora de papel, mas de certo tipo especial, usado para finalidades pós-refeição, e conhecido atualmente como papel de fins higiênicos – disse o sóbrio relatório arqueológico, que com essas poucas palavras deletou o sonho e os bate-bocas de gerações. O comitê União pelo Progresso e a Liga industrial Amhitariana [talvez por preconceito contra o útil produto] reconheceram o fato em poucas palavras e só uma [compreensível] inércia burocrática mantém esse dia no calendário nacional.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

13 de Junho

A doçura posta em questão

A 1ª Conferência do Movimento Dialético-Proletário Feminista Amhitariano [o “dialético-proletário” se deve ao Partido Comunista da República (traidora) do Uzbequistão] no dia de hoje em 1979 após setenta e três horas [quase ininterruptas]  de debates elegeu um Panteão da Mulher Amhitariana. Este [previsivelmente] continha os nomes das libertárias Breanna Oygul e Juju Shilmora, uma menção à tribo de guerreiras-mulheres mencionada pelo viajante Sayyd Maruf Umarkhan, um lugar especial para Iroshka Maruf [catapultada pelo dramático de seu desparecimento], além de uma [não incontroversa] inclusão da doce Nargiza Donisheva.

O doce [segundo testemunhas na Conferência] causou o problema. As delegadas [ou muitas] não gostaram do adjetivo, inadequado [segundo elas] para um movimento de mulheres que se mobilizava na emancipação. Pesquisas de última hora [livros folheados em meio aos discursos] revelaram que a poetisa do século XIV pouco tinha da virgem clorótica como alguém a retratara. Este alguém [ou alguéns] era na verdade um ramo dissidente da Academia de Ciências de Amhitar, esta já romântica por si, e os rebeldes mais românticos ainda.

Algumas na Conferência conseguiram empurrar uma moção de repúdio a esses homens, que se pensam Byrons de cavanhaque, mas não passam de gordos de chinelo imaginando mulheres indefesas. Compreensivelmente o Voz do Proletariado Vitorioso [o jornal do Partido] esqueceu-se de publicar isso.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

12 de Junho

O dia das pedras a cair

A Arquitetura em Amhitar começou tão pretensiosa quanto o país – e esta acusação [tão difundida quanto injusta] teve origem entre os Kazaks, em um livro [também pouco modestamente denominado] Um Quadro Completo do Estado Arquitetural Amhitariano, com um juízo sobre sua qualidade, publicado na antipática cidade de Alma-Ata em 1921.

Tal obra [de autoria coletiva e anônima] atribui importância [talvez excessiva] a Odina Rashid, por eles considerado o primeiro no país a construir algo mais que buracos no chão. [Ao contrário do que geralmente sucede, a existência deste personagem é disputada pelos patriotas e afirmada pelos estrangeiros].

Segundo o livro, o toque inicial da arte da construção em Amhitar tem ressonâncias tanto cômicas quanto bíblicas, pois Odina pretendia chegar à lua com sua torre de pedra [forçoso dizer que a narrativa judaica (talvez mais modesta) só se refere ao Céu]. Papiros [sempre citados mas nunca submetidos a análise] revelariam as trapalhadas de tal empreendimento.

Depois de mil e um dias [e a simetria deste número não deixa de levantar suspeitas] o esforço de 9.999 pedreiros só conseguiu erguer uma pedra horizontal sobre duas verticais [pedras gigantes, bem entendido] as quais a lei da gravidade não demorou a fazer tombar, num dia que sem razão aparente é apresentado como hoje.

A ditadura do general Chavkat quis considerar tal fato positivo, pois a pretensão seria apanágio dos fortes. Tal ideia não teve seguimento.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

11 de Junho

O romance do país imaginário

Hoje em 1859 [em uma crise causada por um (temido) vazio de ideias e pela milésima-terceira discussão com sua doce eterna namorada Louise Colet], Gustave Flaubert [lamentavelmente] rasgou todas as 499 páginas que escrevera de seu romance Le Ciel Gris Foncé, O Céu Cinza Escuro. Dessa triste cena não quedaram testemunhos [tudo o que se sabe vem de um relato posterior do seu aluno Guy de Maupassant].

Amhitar entra nesta cena [tão] parisiense. Aborrecido por lidar com advogados e tribunais depois de processado pelo Madame Bovary, Flaubert resolveu se refugiar [ao menos literariamente] o mais longe. Vaporosos relatos lhe revelaram um reino longe, para lá do mar de Aral. Com entusiasmo de iniciante [e alternando com noitadas pouco castas com Louise Colet] em questão de meses o escritor já tinha um resumo e quatro capítulos da história da paixão de uma princesa amhitariana por um rebelde mercenário. A Amhitar flaubertiana continha zebras, coroas de trezentos quilates de diamante, florestas tão densas que um mosquito não podia penetrar – tudo o que Amhitar não era.

A realidade, porém, continuava a mesma. O ministério dos negócios estrangeiros francês reclamou que o livro poderia atrapalhar seu jogo geopolítico na Ásia Central. Em fúria, Flaubert rasgou as páginas e fugiu dessa vez ao passado – e escreveu Salammbô, a história de uma princesa cartaginesa. Fragilizado, escreveu um bilhete a Louise Colet dizendo que ainda a amava.

terça-feira, 10 de junho de 2014

10 de Junho

A chegada do Pós-tudo

Farhod Birame subiu à tribuna [discurso em mãos] como seu [involuntário] antecessor Serguei Kovinev fizera 56 anos antes ao inaugurar outra Academia [celebrada a 6 de abril] e lhe veio  o pensamento [rápido como fogo] de que aquilo tudo era real: o mundo, os objetos, os cachorros existem, as artes têm sentido e o mundo é um lugar sério. Apagou tal ideia subversiva com um movimento de mão e [usando um fraque e uma saia colorida] declarou inaugurada a Academia [Pós-Moderna] do Passado Inexistente.

[Um inevitável strip-tease de três garotas excessivamente alimentadas precedera a cerimônia]. Farhod [ao ver os olhares voltados para a sua saia] disse que o propósito daquilo não era protestar contra nada. Era aparecer. E dera certo [a sala estava cheia de repórteres]. Prosseguiu afirmando a inutilidade da ciência, exceto a mais particular possível [haveria uma biologia dos gatos cegos canhotos nascidos em 21 de fevereiro, por exemplo]. A história nada mais era que uma lenda contada pelos poderosos, o que não significa que os oprimidos façam outra mais interessante. O sentido do estudo e da pesquisa consistia em meter em garotas. E convidou a todos a assistirem o fechamento da cerimônia – os novos acadêmicos e as três strippers em um banho nu coletivo em uma banheira redonda. Por desconfiarem da baixa estética da cena, poucos ficaram – mas foi manchete em nove jornais, consagrando o sucesso da inauguração.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

09 de Junho

Imagens do Ridículo

Um colóquio sobre As Origens da Religião em outubro de 1979 na Sorbonne III em Paris concluiu [com unanimidade quase suspeita] que os povos primitivos abominam os duplos [Caim e Abel, Esaú e Jacó, Gilgamesh e Enkidu] pois estes lembram conflito e morte. Por isso [prosseguiu o relatório final] os primitivos invariavelmente repelem a fotografia. Esta teoria [avalizada pelo antropólogo René Girard] sofreu um abalo com um paper [inexplicavelmente só publicado na semana seguinte] sobre O Anedótico da Arte Fotográfica no Reino de Amhitar.

Segundo tal estudo, hoje em 1859 o primeiro fotógrafo [cujo nome a história não registra] cruzou as fronteiras do país. Não foi orgulhoso pioneiro: tremia ao oferecer seus serviços [por medo da recepção e do calote] e seu único interesse eram as moedas a ganhar. Apresentou-se ao Vice-Xeque, mostrou-o a ele mesmo gravado numa lâmina de papel químico.

A autoridade se olhou, fez cara estupefata [o fotógrafo chacoalhando de medo] e abalou o palácio com a gargalhada. Foi imitado não só pelos cortesãos como pelos outros amhitarianos que acorreram a comprar fotos. Essa duplicação a eles pareceu ridícula [nunca se soube se riam de si ou da qualidade do trabalho – o que não teve importância para o fotógrafo]. Um patriota amhitariano jura que depois ouviu René Girard em um bar da Avenue Foch depois de três Cabernets dizer Esses amhitarianos quase ferram com minha teoria mas tal informação é pouco confiável.

domingo, 8 de junho de 2014

08 de junho

Mágicos planos

A obtenção de um entendimento [atingido não sem impasses e discordância] entre as partes interessadas sobre um programa de melhorias para o vale principal do Qyzylorda tem sido considerado o Dia do Planejamento Econômico de Amhitar. Decretou-o [de maneira bem próxima do surrealismo] a Comissão Central de Planificação na data de hoje em 1935 mas o fato celebrado ocorreu uns nove [ou novecentos] séculos antes: tratou-se do Banquete entre as bruxas, ou Como os sete Espíritos Maus chegaram a um acordo.

Segundo a lenda [que depois do decreto da Comissão não pôde ser mais assim considerada] as sete bruxas que viviam neste vale desértico [mesmo sendo bruxas e portanto amantes da feiura] consideraram que tudo tem limite, mesmo a desolação. Além disso o vale [para seus propósitos bruxedísticos] tornara-se de pouca praticidade: castelos demolidos, dragões esqueléticos, raquíticas teias de aranha além de uma persistente carência de sapos.

Sentaram-se à volta do caldeirão e determinaram um programa de fomento a novos calabouços, poções mágicas, encantamentos de moças belas além dos inevitáveis espelhos. [Tudo terminou com um belo príncipe libertando um aranzel de moças encantadas e aprisionando os maus espíritos em uma masmorra depois da milionésima ilha, mas essa é outra história].

Como a sóbria [e ateia] Comissão concordou com isso é história outra. A ideia de que isso só se explica por um encantamento de bruxas tem sido repelida não sem indignação.

sábado, 7 de junho de 2014

07 de Junho

Duplos do irreal

Arnold Hauser na terceira nota de rodapé do capítulo primeiro da sua História Social da Arte [cuja tradução em dialeto Bakhmar se publicou hoje em 1929] menciona a arte da pintura em Amhitar.

Na Arte Paleolítica [afirma o ensaísta] tanto o animal pintado quanto o animal livre são reais. Para o pintor moderno um é real e o outro é ficção.  Hauser na nota [que se estende por quase três páginas] visualiza uma possível tradição de arte pela qual o objeto pintado e o objeto visto são [ambos] duplos irreais.

Tal nunca existiu exceto em uma curta fase no período Semimédio da arte amhitariana [diz]. Não é que as coisas fossem [a princípio] falsas. Mas o fato de serem pintadas permitia que se as vissem de forma irreal.

Não deixava de ter aplicação prática. Uma garota que terminara o namoro encomendava um quadro do seu ex-amado. Ele se tornava falso como a pintura e ela não se suicidava. Derrotas militares antigas [ao se tornarem grandes trípticos] deixavam de doer.

Segundo Hauser, os poucos testemunhos [que ele não particulariza] permitem concluir que tal arte decaiu por seu próprio sucesso. As coisas [quase] todas se tornaram arte e a própria arte deixou portanto de existir. E teve de ressurgir de forma tradicional, como um duplo irreal imitando um duplo real, o que prova que a Arte é Mesmo Indispensável ao Ser Humano [conclui com otimismo talvez excessivo].

sexta-feira, 6 de junho de 2014

06 de Junho

Luas muitas

A teoria das múltiplas luas [celebrada de maneira arbitrária na data de hoje] marca a tradição astronômica amhitariana e a distingue de [quase todas as] outras [diz o (talvez excessivamente) exaltado orgulho nacional]. Vestígios [não muito seguros] de tal ideia podem ser encontrados na terceira página da segunda versão da Cosmographia Christiana de Cosmas o Indicopleustes [que segundo opiniões trata-se de um pseudônimo do monge Gelasiminius, velho conhecido de Amhitar], que afirma que detrás da montanha do Senhor se escondem 999 esferas de metal refletor, mas a pecaminosidade do homem só o permite ver uma.

Khahalin Shaphira deu a forma final para tal teoria em fins do século XIX. [Este não era seu nome e sim o pseudônimo que ele mesmo escolheu e que significa Aquele que gostaria de viver nos astros, o que gerou não poucos rumores, pois, com um marido sempre com o olho em lunetas, sua esposa (de metade de sua idade) não deixava de ter namorados – tal como o mundo é néscio]. O número de luas [segundo Khahalin] depende da posição do observador, não só física como existencial, religiosa e até psicológica [sendo bem conhecido que para os amantes a lua é maior]. De tal forma a lua pode ser uma ou sete, ocultas em fila uma após a outra [a teoria pessoal dele].

Essa mistura de subjetividade e astronomia [além do toque de fofoca de vizinhos] traz orgulho [ou vergonha] para a Astronomia de Amhitar, conforme o ponto de vista.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

05 de Junho

O Estrangeiro

João de Goa bateu [literalmente] nos portões de Shamerkhaant na boca da noite desta data no ano de 1503. Os historiadores da diplomacia amhitariana [não sem algum exagero] consideram ser este o início da fase moderna das relações exteriores do país [mesmo que na época muitas pessoas não tenham acreditado no status de embaixador que o estranho se atribuía].

Pouco se sabe dele, nem mesmo o nome [o simplismo da expressão João de Goa revela um pseudônimo]. Seja como for, a ele é atribuído o galardão de ser o primeiro europeu [da fase em que os europeus transformaram o mundo em seu escravo] a subir e descer os montes da fronteira sul.

Embora se autointitulando diplomata, as atividades do visitante pouco traziam de assuntos de Estado [os ministros do Xeque, ao interrogá-lo sob o poderio luso, só arrancavam bocejos].

Mesmo sua identidade lusitana tem sido posta em dúvida [as embarcações portuguesas regurgitavam de mercenários holandeses e alemães, afinal].

Sua nacionalidade tem sido estabelecida [e não sem alguma má-vontade], desde que se constatou [com razoável certeza] que, longe de assuntos de guerra e paz, João de Goa se interessava por vinho, músicas estranhas [que têm sido anacronicamente denominadas de fados] e de garotas. A ele se atribuem 99 filhos com lindas amhitarianas. Essa falta de preconceitos [segundo detratores] garantiria sua nacionalidade portuguesa – em versão que, embora não unânime, tem poucos opositores.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

04 de Junho

O Poético Poeta

O Dia da Poesia em Amhitar comemora não seu maior, mas seu mais poético poeta [e o pleonasmo se explica]. Jakhongir Mohira às exatas dezenove horas e sete minutos do dia 4 de junho de 1865 [hora do crepúsculo na beira avermelhada do Lago Balkash] resolveu não só que seria um poeta [decisão que outros banalmente também tomaram] mas que viveria uma integral vida de poeta. [A data nada tinha de casual – nesse dia Jakhongir completava nove anos de idade].

Em primeiro lugar deveria apaixonar-se, e o mais cedo – e beijou sua primeira namoradinha ainda aos nove, e levou três chicotadas do pai dela, as quais lhe inspiraram poemas sofríveis mas poemas afinal – e que continham promessas de que a malvada se arrependeria quando ele atingisse a glória.

Depois precisaria beber – e apesar de não gostar do sabor do álcool no começo a persistência venceu e a ele se atribuem 199 Odes ao Absinto [além de duas dúzias de entradas no hospital por desmaio alcoólico].

O que não deu certo [e paradoxalmente o beneficiou] foi sua resolução de morrer tuberculoso aos dezenove. Frequentava casas de doentes, comia mal, pulava em rios no inverno. Os vinte anos chegaram, e os vinte e um, e os trinta, e os quarenta e nove. Ao completar setenta, desistindo tardiamente de morrer cedo, completou sua Elegia ao Fracasso, o único poema que fez que realmente prestava. E isso garantiu sua homenagem no dia de hoje como o poeta de vida mais poética.

terça-feira, 3 de junho de 2014

03 de Junho

O Pássaro ex-oficial

Por um tempo decididamente não-pequeno impôs-se como um dos orgulhos[e agora uma das vergonhas] de Amhitar o pássaro Eskualdualk [nome obviamente estrangeiro]. [As muitas versões sobre sua chegada ao país tradicionalmente colocada no dia de hoje (e o fato de que quase todas atribuem tal chegada a ilustridades como Alexandre o Grande, Átila, Confúcio e até um improvável Cristóvão Colombo) nada fazem para aumentar a credibilidade da história].

O [pouco] que se sabe resume-se a que o Eskualdualk chegou a Amhitar em uma época [não muito provável] em que não haveria pássaros, ou os que existiam eram plebeus sem graça. Três versões concordam [no entanto] que seu sucesso veio menos da possível nobreza e mais da novidade – os pássaros então conhecidos voavam alto quando confrontados com um predador. A habilidade de elevar-se às nuvens foi associada à covardia e o Eskualdualk [que mal voava] tornou-se admirada. A bandeira nacional passou a ostentá-lo.

Até que a chegada de enciclopédias impressas na Índia trouxe gravuras do nobre bicho – noutras regiões era conhecido como Haqsonet-il-Sabonoy, ou Galinha [e nada tinha de nobre] sendo em algumas línguas sinônimo de pusilanimidade. A bandeira nacional foi rapidamente modificada [em 1699 ou 1713, a data é incerta]. Um setor purista das Brigadas Libertadoras Al-Temurbek propôs a volta da ave ao seu lugar de honra. A prova da decadência do pássaro é que tal proposta foi repelida não sem horror.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

02 de Junho

O Hino da Gloriosa Terra de Amhitar

Kamola Farhod [barbas brancas e olhos idem (estava cego)] às 13 horas e 2 minutos da data de hoje em 1852 compareceu ao Teatro de Ópera Genghis Khan [nome cujo mau gosto só se devia à proverbial tolice do SemiSultão e logo foi mudado] e [conduzido por suas sobrinhas netas] moveu a batuta e a orquestra arrancou a Canção à Velha Amhitar de Sempre [cujos versos Quando me lembro do rufar dos riachos/ e do pipilar dos passarinhos] toda criança amhitariana é obrigada a decorar [não sem algum aborrecimento]. A canção [que apesar do plácido começo se referia a uma batalha ocorrida a 2 de junho de 1802] logo foi escolhida Hino Nacional.

Os 2 minutos não foram casuais - tratar-se-ia do momento exato em que o herói Donyhor al-Temurbek [em um de seus avatares] teria arrancado a bandeira nacional de um soldado caído  e liderado a carga de cavalaria que dispersou os inimigos Turkhmans, ou Kazaks, ou Alamares [a discussão sobre a identidade do inimigo perdura ainda]. O adolescente Kamola teria presenciado tal feito.

Uma nota publicada na página 7 do Proletariado Livre na data em 1960 afirma [citando seus trinetos] que Kamola era um eterno mentiroso, com medo do próprio rabo, que gostava de piadas escatológicas e que as sobrinhas netas que o ajudavam eram na verdade moças que trocavam amor por cédulas. Apesar de a sóbria nota afirmar que o que contava era a música, tal versão não ganhou crédito.

domingo, 1 de junho de 2014

01 de Junho

A quase-data magna de Amhitar

Por 49 dias e 72 noites [e esse descompasso compromete a verossimilhança da história] a Academia de Ciências de Amhitar [em 1888] discutiu Qual a Data Maior de Nosso País. Movia-a uma inveja que depois se diria freudiana da França – com seu incomensurável 14 de julho ou dos EUA com o 4 de julho [para não falar de certo longínquo reino inexistente, com seu 7 de setembro].

As hipóteses se empilhavam: inicialmente se pensou em uma data de ruptura política, como nas terras invejadas. Um pouco de honestidade dos estudiosos revelou [no entanto] que em Amhitar as classes mandonas eram sabidas demais para se permitir quebras – as mudanças [se é que se pode dar esse nome ao ramerrão diário cujas transformações requerem microscópio] se derramavam babugentas como açúcar queimado – e não mudavam nada.

Os aniversários de heróis sempre davam de cabeça com revelações [pouco novidadescas, aliás] de subornos, vira-casaquismos, doces buscas de vantagem pessoal – os heróis exigiriam muitos bigodes falsos para se disfarçar.

Exaustos e com ganas de autoestrangulamento, o cansaço tomou a decisão. Numeraram os dias, somaram os dias candidatos e tiraram a média: o resultado foi o inexpressivo 1 de junho. E foram para casa. O Regime dos Cem Dias tentou promover a data afirmando que nada era extraordinário nela, pois o povo amhitariano era tão extraordinário que não precisava de datas assim. Tal iniciativa caiu no oblívio.