sábado, 31 de maio de 2014

31 de Maio

Os Terríveis Nós

Maus e Solitários sacudiu a lagoa parada que era o Rádio amhitariano hoje em 1927. Dildora Motley [inevitavelmente] autorou essa primeira radionovela, avó da sua neta sete mais destrutiva, a telenovela, e se sagrou o pioneiro mundial [não reconhecido] de tal gênero vagabundo [o adjetivo (segundo quem o conheceu) não o teria desagradado].

O Menino Terrível da literatura amhitariana não tinha publicado nenhum livro [e nem o faria nunca, pois considerava que a indústria editorial transformava os escritos em banalidade] – como [acrescentava o autor] toda indústria fazia.

Maus e Solitários começava com gente normal [famílias normais, mães, namorados e cachorros normais] e continuava como tal. Já no terceiro capítulo a inveja disfarçada, a alegria da desgraça alheia, a coragem diante dos fracos e a pusilanimidade diante dos poderosos cobriam a trama dos costumeiros assassinatos e casamentos [a essência de toda novela] com uma leve pátina como sujeira velha. Maus e solitários não eram os membros das duas poderosas famílias de Shamaerkhant que disputavam o controle da cidade – éramos nós, os terríveis nós – berrava Dildora.

Demitido após o 33º capítulo, o autor conheceu breve glória depois da consolidação do Partido Soviético do Uzbequistão, que acreditava que sua crítica se destinava à família pequeno-burguesa. Sua segunda novela afirmou no entanto que a má-solitude não conhecia fronteiras ideológicas, e perdeu o emprego uma segunda vez.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

30 de Maio

Santa Indiferença

Os jesuítas alemães Christopher Wasserhahn, Friedrich Waschbecken e Gerhardt Küchenspüle pagaram dois dinares ao garoto que manejava o barco que atravessava o Syr-Daria e penetraram em território amhitariano ao meio-dia e sete minutos do dia 30 de maio de 1611. [Mediram rigorosamente o horário do histórico momento].

Previam a pregação em mercados lotados – alguns aceitariam e começariam a falar latim – soldados de cara amarela os cercariam – um potentado pagão os julgaria – desmoralizariam os deuses locais em um debate teológico – o potentado mandaria queimá-los – o Papa saberia – seriam santos.

Não havia mercados na outra margem. Nem cidade. Andaram dias na poeira. Quando acharam uma, ficaram felizes com a atenção da plateia – até que viram que o mesmo interesse era dado também a um mercador que alardeava suas panelas. Exigiram ver um chefe local. Ameaçaram-no com o Inferno. Ele lhes deu horríveis pães de casaca de cevada e passou a escutar um menestrel de canções obscenas. Ninguém discutia, ameaçava, defendia sua fé pagã. Apenas sorriam e viviam como sempre.

Desanimados recruzaram o Syr-Daria uns sete meses depois [não tiveram ânimo de anotar o momento preciso]. Um deles tentou consolar dizendo que os amhitarianos ao menos são indiferentes à palavra e não a cumprem. Melhor que os povos de Deus na Europa, que se entusiasmam com ela e não a cumprem mas nem isso teve grande efeito animador.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

29 de Maio

Danças

O geógrafo ateu materialista soviético Serguei Kovinev [previsivelmente] explicou o início da dança em Amhitar como um roteiro no qual não faltaram o Representante da Classe Exploradora [o Xamã], aqueles que se faziam de Proletariado da época [os plantadores que foram pegos colhendo lenha escondido na propriedade do Xamã] e a Boçalidade e o Arbítrio dos Dominantes [exemplificado pelas brasas].

Seis décadas depois Gulshanoy Sabina [a mistura de um nome masculino e feminino (como tudo em Gulshanoy) era uma provocação] surpreendentemente considerou correto o roteiro, apenas tomando-a pelo sinal trocado. A história canônica afirma que em tempos imemoriais [que Gulshanoy sem citar fontes fixa em 29 de maio de 1.437 A.C.] certo chefete local [o Xamã] puniu os camponeses jogando brasas aos pés deles enquanto um pífaro tocava uma ridícula música de encantamento de serpentes.

Gulshanoy [pós-moderno em tempos pós] nada considerou estranho no episódio – o tal Xamã gostava de brasas [e andava ele mesmo sobre elas]. Além disso a história representaria uma metáfora da vida amhitariana e porque não da vida toda. E também explicaria porque em Amhitar [segundo o pensador] todos praticavam ridiculamente a dança – aliás a mais ridícula das artes.

Uma visão um pouco alternativa [partida mais dos seus críticos] afirma que Gulshanoy cedeu à vingança e à fantasia – vaiava os dançarinos porque, no fundo, não sabia dançar. 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

28 de Maio

Os três, em um

Jorge rasgou hoje as fronteiras de Amhitar, Guilherme também viajou para lá e Frederico seguiu os dois [muito dialeticamente a aparição se deu em trio]. Essas três viagens [de três possíveis pessoas] na verdade se resumem a uma – a travessia dele ao impossível [e dialeticamente real] Reino de Amhitar.

Negada por três vezes [tal número lhe crava os dentes], as últimas páginas da fracassada edição das Conferências sobre Estética logo depois do seu último curso na Universidade de Berlim em 1828 revelam que o temor do serviço militar prussiano e de que uma bala napoleônica lhe arrancasse os miolos encheram as suas [poucas] malas e o levaram à fuga [em incerta data – o período menos controverso é 1802].

Chegado à beira do Amur-Daria, longe do Valhala e de Goethe, da cerveja preta e das Gretchens de dentes podres descobriu que o mundo tem um Espírito [pasmem]; que este [ao contrário do Espírito Santo cristão] se desenvolve; que [fanático por tríades] tem três fases, três inicios e três finais além de trindades outras. Também que, se escrevesse complicado todos o admirariam por sua profundidade. [O fato de tais descobertas não serem exatamente lisonjeiras explicam o pequeno entusiasmo em Amhitar sobre a data].

Voltando ao frio e às salsichas gordurosas o rapaz se tornou Jorge Guilherme Frederico Hegel. Os interessados em acentuar sua germanidade apagaram-lhe da biografia qualquer lição amhitariana.

terça-feira, 27 de maio de 2014

27 de Maio

Caminhos

Sherzod Gulnora [inadvertidamente] pronunciou uma das duas banalidades que começaram a literatura de autoajuda em Amhitar no dia 27 de maio de 1699 dos hereges [27 de Dhu'l-Qa'dah da Hégira] quando chegou a Murgab-Satlyk. A cidade [em si] apresentava pouco interesse [dois testemunhos independentes a descreviam como a mais feia das cidades de Amhitar (talvez do mundo) nos dias de hoje (talvez em todos os tempos)].

Não o destino mas a viagem, ou não ela e sim suas dificuldades. As fofocas [sempre elas] diziam que o primeiro caminho é coalhado de assassinos turkhmans; furacões destruidores acossam o segundo; no terceiro os degoladores de punhais de prata fazem seu paraíso, etc. etc. [até mesmo um improvável fantasma de Genghis Khan guardaria uma das rotas.] Tendo deixado o medo para trás [ou seguido em frente apesar de levá-lo a tiracolo] o jovem Sherzod pronunciou uma de suas tolas frases:

o importante não é o destino e sim o caminho

e não são poucos os autores que têm faturado atribuindo a essas palavras algo mais que um comentário concreto sobre como chegar a uma cidade hoje debaixo de 6 metros de pó.

A segunda das frases ocorreu quando [já velho e feliz] Sherzod soube que a cidade a que chegara não era Murgab-Satlyk mas outra. Sem esvanecer o sorriso falou

É possível perder uma oportunidade e ainda assim tudo terminar bem

e tal foi o título de um best-seller amhitariano por 27 meses seguidos.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

26 de Maio

Geometrias

A Ciência [ou o Delírio] da Teologia engoliu lamentavelmente a Arte da Geometria em Amhitar. [Tanto o “delírio” como o advérbio se devem (de maneira inevitável) ao historiador materialista Iusya Marzhaffar]. Nem tanto assim, escreveu seu contemporâneo Java Kharlilah [que, como todo conservador era teísta, embora sua fé estivesse sempre a mudar de deus].

Segundo este último [em explicação se tornou canônica] a diferença entre essas atividades [ou delírios] deve-se menos à divindade que à moral. As terras começaram a ser divididas. Começaram os problemas de como medir as terras. Estacas foram cravadas, cordas foram estendidas e abstrações como ângulos e volumes principiaram a ser estabelecidas.

Tudo concorria para que Amhitar roubasse à rival Grécia [que só o faria um par de séculos depois] a primazia na arte que [de maneira injusta] seria conhecida como de Euclides. Até que um profeta veio [eles sempre vêm]. Disse que a ganância estava a guiar os homens. A divisão de terras era sinal dessa ganância. E a melhor forma de combatê-la era destruindo os diabólicos meios pela qual se dava. E os primeiros compassos, transferidores e réguas do planeta se tornaram cinzas.

As reações ante esta [multilamentável] perda se resumem a duas: uns praguejam contra o obscurantismo anticientífico, outros dizem que a justiça de Deus [embora às vezes desajeitosa] é sempre bem-intencionada. O debate prossegue sem fim, como duas retas que só se cruzam no infinito.

domingo, 25 de maio de 2014

25 de Maio

O Monte

O improvável Utkirbek Fashoda espetou no dia 25 de maio de 1851 sua flâmula no Pico Al-Dhordhori [a discussão sobre qual o desenho ostentado na flâmula varia desde um signo pornográfico até as Armas Nacionais. Por razões óbvias esta última tem sido mais difundida]. O governo do Semisultão, a ocupação militar russa, o regime dos Cem Dias, a Primavera das Flores de Barro, a breve ditadura do General Chavkat, o domínio pessoal Trotskista, o governo do Partido Comunista da Repúblicas [traidora] do Uzbequistão, todos os sistemas se igualam na bajulação ao herói da mais alta das montanhas amhitarianas.

Improvável porque baixinho, gordote, com dois dentes entaramelados e que puxava da perna esquerda – Utkirbek seria – dos candidatos à imortalidade - o último, se tanto. Tanto improvável quanto ele apenas a montanha. Em uma época em que os teodolitos já existiam ninguém soube precisar a altura do monte [tendo as medições uma inacreditável variação de 379 % entre si ]. A localização é também sujeira a críticas, uma parte dos geógrafos do país nunca tendo aceito a versão oficial de que o monte se localizaria no paralelo 47, pois lá só haveria pântanos e morcegos.

Uma nota na edição de junho de 1962 da Revista do Proletário Amhitariano quebrou o jejum de perspectivas não-triunfalistas. O baixinho Utkirbek teria subido um monte também baixinho e redondo, e só uma sucessão de equívocos explicaria sua glória. Tal verão compreensivelmente caiu no oblívio.

sábado, 24 de maio de 2014

24 de Maio

A séria nudez

No dia 24 de maio de 1923 Juju Shilmora [mostrando ousadia da qual um par de segundos antes não se sentiria capaz] desfez o laço da falsa cintura. O négligée cinza se amontoou aos seus pés e a partir de então só o flash da filmagem cobriu sua nudez de vinte e um anos cabelos na cintura e olhos negros – entrou para a história como uma das únicas sete garotas que posaram nuas em Amhitar até 1990. A estatística [de confiabilidade sofrível] se deve ao atual Círculo Pudico-Moralista de Amhitar.

Certo relatório da Seccional do Turquestão afirmou então que as moças do país se marcavam pela timidez quanto a certos assuntos – e o país pela baixa natalidade. As trêmulas mãos de Lênin garrancharam ordem para um filme de propaganda nas escolas femininas.

O filme consistia só em uma voz em off exaltando o potencial da mulher para a revolução, o trabalho e também para certos rituais a dois que não deixam de trazer satisfação desde que subordinados aos propósitos do proletariado - enquanto a câmera rodeava por onze vezes o corpo [perfeito, segundo extáticas testemunhas] da jovem. Olhando firme a câmera [com quase orgulho] Juju encerrou levantando o braço [e balançando leves os seios morenos] e gritando Viva a Revolução!

Em janeiro do ano seguinte o resultado foi mostrado a Lênin. A versão de que foi isso que causou o derrame que o matou, embora apócrifa, não deixa de acariciar o ego amhitariano.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

23 de Maio

Dia dos paravampiros

Um [quase impossível] decreto [de apenas três linhas]do Politburo do Partido em um canto de Página do diário semioficial A Voz do Operariado Vermelho no dia de hoje em 1956 sacramentou Amhitar como o único país do mundo a reconhecer de forma [quase] oficial a existência de vampiros em seu território. [Tal excentricidade se explica porque semanas antes um Congresso Centro-Asiático de Sugadorismo tinha sido noticiado no mesmo jornal em manchete e seis páginas internas como forma de não publicar nada sobre o confuso Congresso Secreto que no mesmo momento denunciava os crimes do falecido Stalin].

O tal congresso fora frequentado só por nove interessados [ou malucos, segundo a opinião majoritária]. Os vampiros amhitarianos pouco ou nada teriam em comum com seus concorrentes: detestavam castelos, comiam picadinho de vaca, o sol lhes era indiferente. [Na sua pretenciosa Declaração Final sobre os nossos Dráculas os autoditos especialistas diziam ser irrelevante a questão de se os vampiros são vivos os ou mortos.] O que dá certo erotismo [e alguma tolice] aos vampiros de produção interna é que [sem nem pensar em sangue] vivem de leite de mulher. Mas não de qualquer: jovens, bonitas e não se importam se não tiveram filhos – eles conhecem o seus caminhos [diz a pretensa Declaração, sem deixar claro que caminhos são esses]. A pouca verossimilhança [além de certa tolice] de tais [quase] vampiros explica a sua nenhuma penetração em coletâneas ocidentais.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

22 de Maio

A segunda morte de Iqbol Chavkat

Somente o tédio me domina” – disse [baixinho] o General Chavkat três milionésimos de segundo antes de a bala se alojar no seu globo ocular esquerdo [sendo inexplicável como o relato de suas últimas (e pós-últimas) palavras foi tão pouco questionado desde que foi encontrado em uma pilha de folhas secas e ferro retorcido no dia de hoje em 1920, 113 dias depois].

Iqbol Chavkat conseguira a glória do poder. Em um dia percebeu que todos os sorrisos, filés com champignon e macias coxas femininas eram dele – a um estalo de dedos. Esse dia de êxtase se estendeu por mais outro. E outro mais. E foi seguido por um quarto dia. Até o décimo-nono. No vigésimo os mesmos soldados que o tinham posto no cargo o amarraram a um poste e se alinharam esperando uma ordem de fogo.

Somente o tédio me domina” – pensou o ex-Presidente de Amhitar e além da dor de cabeça, nada aconteceu. Os tolos gritos de soldados para desfazer o pelotão, os recrutas a limpar o solo. Ele se viu livre, ninguém lhe dava importância. Não sabia se vivia. Pouco importava [podia mover-se]. Saiu por três dias. E ninguém lhe dirigiu a palavra. Alguém o fez no fim do dia, um improvável emissário do diabo – um limpador de ruas. Este lhe confirmou as más notícias.

Chavkat contestou:

- Não estou morto. Estou só.

O pouco dramático mensageiro disse:

- É o mesmo – e ao contrário do que acontece nos contos fantásticos, não desapareceu.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

21 de Maio

Onde estou eu

 No segundo depois da festa inicial da Ferrovia Trans-Turquestão um homem desceu à novíssima estação de Shmaerkant no dia 9 de maio de 1881 dos julianos [21 de maio dos gregorianos]. Não um homem mas o homem: sua cara de infinito peso trazia [além da viagem de cinquenta e três horas desde Petersburgo] uma angústia [e também uma esperança básica]. Deu o improvável nome de Rashkolnikov.

Entrou na primeira taberna. Misturou a vodca com o shamuzz cachacístico amhitariano, entrou na segunda taberna, pediu mais e entrou na terceira e nas demais, sempre mais longe, mais fundo e mais baixo naquele mundo de punguistas e mulheres de aluguel.

E encontrou a felicidade: naquela imunda baixeza encontrei a espiritualidade mais viva – disse nas pouquíssimas palavras que jamais diria sobre sua experiência amhitariana. As prostitutas tiveram pena dele, os ladrões lhe deram relógios roubados para vender – aquele homem aparentemente de classe descendo ao baixo-mundo os seduzia. Cantou com eles, dançou, gargalhou.

Seus novos amigos o empurraram de volta ao trem. Disseram adeus.

Cinco meses depois em Moscou rompeu o silêncio: esperava escrever um livro sobre a abjeção completa e para isso fui ao lugar mais abjeto de Amhitar, o mais abjeto dos países. Mas encontrei Deus em meio à abjeção. Ou melhor, encontrei a mim.

No dia seguinte bem poucos jornais anunciaram a morte de Dostoievski.

terça-feira, 20 de maio de 2014

20 de Maio

O feliz desgraçado Agostinho

A mais política das canções amhitarianas [até recentemente uma simples canção de ninar] se chama Khasorthieend-al-Zhamapiad, que uma tradição tanto antiga quanto incompetente em linguística convencionou traduzir como Meu Querido Agostinho.

Como todas as canções que todos cantam ninguém pensa muito na letra, e uma sóbria dissertação na Universidade de Alma-Ata em 1968 [em um dos poucos estudos amhitarianos realizados na terra dos inimigos kazaks] realizou a proeza de prestar atenção no que se berrava Ah meu querido Agostinho, Agostinho, Agostinho/ O dinheiro se foi/ a mulher te deixou / os títulos foram tomados / os parentes se esfumaçaram / você está coberto de sujeira / o mundo se foi / meu querido Agostinho, Agostinho, Agostinho!

E descobriram que tal canção encobria uma tétrica história de um tocador de cornetas que a guarda do Xeque durante uma peste em Shamaeerkhant confundiu com um cadáver e o jogou em uma pilha de corpos [da qual só se salvou tocando seu instrumento]. O Politburo do Partido Comunista a considerou derrotista [e um tanto escatológica] e a proibiu, com o efeito de torná-la um [não sem sua dose de ridículo] hino das Brigadas Guerrilheiras Amhitarianas. O Congresso Pan-ahmitariano de tradições culturais [em 1991] rejeitou a tese de que a canção se trata de uma imitação de uma Lied germânica e considerou tal ideia Imperialismo Cultural, antes desta expressão cair em desuso.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

19 de Maio

Real Teatro

Heródoto o historiador grego no segundo ou terceiro capítulo de sua História [a localização exata muda de acordo com a versão] publicou uma versão tanto reveladora quanto apavorante das origens da arte teatral. Não seria grego [diz ele] mas sim amhitariano, e objetivava uma imitação [mímesis] a mais perfeita possível da realidade.

Nada tão neutro quanto possa parecer, tal princípio levado às últimas consequências obrigava a que cada lágrima fosse sentida, cada riso fosse real, cada êxtase de prazer fosse autêntico e cada facada vertesse sangue: apunhalava-se de verdade nas cenas de assassinato e envenenava-se de suicídio.

Os costumes mais suaves dos novos tempos [e o medo] fizeram isso parecer bárbaro e as facas de lâmina aguçada em cena foram substituídas por madeira mas não sem uma concessão à velha escola realista – o público não distinguia entre o assim chamado representado e o assim chamado real – e os assassinos em cena eram cuspidos e estrangulados nas ruas, as prostitutas eram assediadas por desejosos clientes e as mocinhas recebiam propostas de casamento, sendo elas já casadas ou moças alegres na vida conhecida como real. Ignora-se quando isso acabou.

Episódio pouco documentado da história, sabe-se apenas que a Academia de Ciências de Amhitar tomou o dia de hoje para rememorá-lo – e para protestar que as edições modernas de Heródoto retiraram a referência amhitariana, substituindo-a pela Pérsia, e mesmo assim suavizando os costumes teatrais.

domingo, 18 de maio de 2014

18 de Maio

Inacreditáveis signos

A origem do Zodíaco de Amhitar não se perde na noite dos tempos e o fato de não poder ser atribuído a uma sabedoria antiga diminui sua ascendência espiritual [assim como seu apelo de marketing] para não pequeno desespero dos astrólogos que tentam [pobremente] fazer a vida traçando mapas astrais na cidade traidora de Tashkent.

Sequer pode ser atribuído a um velho sábio [melhor ainda se fosse um cientista consagrado doublé de místico nas horas vagas, um Isaac Newton centro-asiático]. Documentos [quase que infelizmente] concordantes atribuem a sua fundação a três amigos tomados pelo tédio e pelo shamuzz [uma pinga amhitariana] que em pergaminho [em 1298 dos hereges] na data de hoje dividiram o céu em 900 quadrantes [depois aumentados para 999 sem outra aparente que não a estética].

Por arbitrário que seja o número [e por trabalhoso que seja lidar com 999 signos] o Zodiacal amhitariano parece funcionar melhor que seu concorrente ocidental [segundo três estudos acadêmicos, dois deles da Universidade de Delhi na Índia]. O terceiro estudo [e único amhitariano] afirma que a força de qualquer sistema zodiacal [seja de Amhitar ou qualquer outro] reside em que as pessoas não os levam a sério e assim divertem-se ao lê-lo, apenas vivem suas vidas e lhes dão algum crédito quando geram alguma coincidência, glória esta que dura um segundo, se tanto. Por sua sesquipedal falta de charme tal raciocínio tem aceitação próxima do nada.

sábado, 17 de maio de 2014

17 de Maio

Os dois diabos, e o terceiro

Gulnora Utkirbek nada fez de extraordinário [as guerras e livros não integrando seu cardápio] exceto [talvez] seja ele a única pessoa de Amhitar [do mundo?] da qual se diz [com certeza (quase) absoluta] que viu o diabo.

Não um – o diabo de Gulnora consistia em 2, na verdade 3 [sendo o número de 9 quase que certamente apócrifo e a versão de 666 muito fantasiosa para ser levada a sério, além de obviamente ser plágio de certo livro pretensamente sagrado da Palestina].

A imagem do homem seguido por um diabinho e um anjinho que lhe dizem contraditoriedades é por demais gasta mas era o que ele sentia, desde a idade por demais significativa de 7 anos, 7 meses e 7 dias. No entanto [e esta constitui sua originalidade] Gulnora sempre percebeu falso esse embate – como se os conselhos para se entregar a e se poupar dos vícios fossem um embate fictício entre dois vigaristas que no fundo querem vender uma máquina de lavar quebrada.

Quando completou 49 anos e 49 dias [no dia de hoje em 1601] Gulnora caiu em si – não só os dois serzinhos eram falsos – ele mesmo o era. Não era bom nem mau – era alguém que não se encontrava, e que diabos [e anjos] só serviam para retardar o encontro com um terceiro diabinho - ele.

A partir daí as versões se dividem: os dois diabinhos sumiram dissolvidos no enxofre, ou nada aconteceu e Gulnora morreu como todos cinco décadas depois, apenas sabendo quem era. A primeira versão [por mais espetacular] é geralmente a favorita.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

16 de Maio

Línguas

Abdullaeva Behruz [dizem] falava 7.777 línguas [a estimativa patina dos 11.112 do eufórico amador-de-heróis historiador Java Kharlilah aos sóbrios 444 do seu contemporâneo (e rival) o materialista Iusya Marzhaffar]. Menos interessante é a primeira fase de seu aprendizado, a qual [segundo as histórias de esquina] tomou meio século e 88 dias e o fez aprender desde os costumeiros grego-dórico, latim-etrusco e sânscrito [na variedade cuneiforme] a línguas realmente estranhas como o Samovedanta, a qual [dizem] possuía apenas uma palavra [com 59.997 conotações diferentes] até o Morrábico [que não possuiria nenhuma, ou ao menos nenhuma isolada].

A segunda [e plenamente misteriosa] fase de sua vida teria sido uma consequência [perfeitamente lógica e totalmente inesperada] da primeira: tendo aprendido as línguas dos homens [e por nada ter a fazer tendo pensado seriamente em dar cabo de sua vida] o linguista na margem do lago Sarygamysh ouviu uma conversa a qual entendia [compreensivelmente falavam de alpiste]. Abdullaeva descobriu então que compreendia a linguagem dos pássaros. E das cobras e dos ratos, e até das folhas secas.

As pessoas o cercavam. Perguntavam do que falavam os bichos. Abdullaeva terminava por se irritar e berrava que Os animais são tão vulgares quanto vocês, o que em nada ajudava sua popularidade. Quanto ao seu talento, nunca o passou para ninguém. É inútil entender essas conversas tolas – dizia ele, e sua popularidade afundava mais um ponto.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

15 de Maio

O Excessivo

Husan Shahzoda enfiou o quepe tridentado [símbolo do SubCalifa] na própria cabeça careca na data de hoje em 624 da Hégira [1227 dos hereges] e iniciou o fim da Era do Vácuo  na história amhitariana. [O historiador Iusya Marzhaffar inventou tal nome (ao qual não falta dose de absurdo) para o período que antecedeu a Idade Média de Amhitar].

Husan passou para a História como Ekhslin-al-Charokstan [aquele que foi excessivamente cruel] e a injustiça tolda esse apelido, segundo Iusya. Pois Husan não foi excessivamente cruel: foi excessivo em tudo. Quando jovem decidiu ser o jejum o meio para a divindade e ficou 77 dias e 7 horas sem encostar em um grão de cevada. Depois considerou que a vida consistia em passar bem e se divertir e [diz a lenda, que curiosamente não é contestada] encontrou-se com um rebanho de 33 carneiros e ovelhas, o qual encontrou nele o seu triste [e churrascoso] fim.

Casto, passava onze meses sem pensar em mulher. Promíscuo, fazia orgias com exatas 95 concubinas [sem que ninguém conseguisse precisar a razão de tal número]. Revoltado com as injustiças do mundo, cortava a cabeça de quem quer que possuísse mais de 50 moedas. Generoso, doava palácios ao primeiro mendigo.

Com tais excessos, seu assassinato com um carneiro envenenado [não isento de certo mistério] causou tanto um carnaval quanto sete suicídios rituais, de pessoas que queriam acompanhar seu herói [ou malfeitor] no céu ou inferno, tanto fazia.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

14 de Maio

O Primeiro Turista

E René Caillié conseguiu afinal, e triplamente: foi o sétimo ocidental [dizem] a conhecer o Reino de Amhitar e ganhou o nome de uma canhoneira fluvial na Troisième République [utilizada para guerras coloniais]. [Sua terceira proeza, a de primeiro visitante do Mali e do Níger, tem sido não pouco contestada pois, ao contrário de Amhitar (lugar sólido) há  dúvidas quanto à existência de tais supostos acidentes geográficos].

Um quarto feito obteve menos divulgação embora [talvez] maior importância: os sérios [e um tanto chatos] viajantes da época [os Saint-Hilaire, Martius e Humboldt da vida e da morte] moviam-se carregados de malas, carregadores, pincéis, diários de viagem, livros de velhos geógrafos árabes que ninguém mais lia, diplomas de História Natural nas [raríssimas] universidades da época e uma erudição irritante.

 O jovem francês [ao contrário] saberia explicar menos que qualquer um por que saiu de sua terra e foi se meter no mundo alheio. Ao contrário dos sóbrios sábios que o precederam não queria salvar o mundo [nem mesmo se interessava muito por ele]. Glutão inveterado [não necessariamente de alimento] o rapaz queria comer: sensações, sabores, odores, paisagens, e mais que tudo queria a sensação de Ei, vejam só, eu estou aqui! - e ir embora.

Por sua doce [alguns diriam estúpida] irresponsabilidade, não deixou de ter seu galardão: o dia de hoje  [dia em que em 1821 cruzou as fronteiras amhitarianas] foi declarado Dia do Turista.  

terça-feira, 13 de maio de 2014

13 de Maio

Os 13 avatares da mulher de branco

A nuvem de branco [dizem] apareceu 13 vezes e subiu de volta ao Céu por sete vezes [sendo tal matemática por muitos considerada discutível. Dizem eles ser pouco verossímil (além de desnecessário) que um ser celeste resolvesse ficar seis vezes neste mundo].

A pouca precisão desta aparição divina [ou quase], a qual varia desde o ano 209 antes a 422 após a Hégira [ou de 413 a 1031 dos hereges] aumentou [surpreendentemente] o seu prestígio [em todas as eras]. Os missionários salesianos que gozaram de [efêmero] prestígio no país lá pelo ano 1850 afirmaram ser ela a Mãe de Deus, pois Deus, o Pai de Todos, tem mãe [sendo o pai inclusive da própria, e esta contradição explicaria (segundo não poucos) o pequeno sucesso da religião de Roma em Amhitar]. Os budistas [havia um mosteiro (não muito bem-sucedido) deles na beira ocidental do lago Balkash] afirmaram ser ela uma manifestação dos avatares do Buda. Os adeptos do profeta [inevitavelmente] disseram ser a aparição um sinal da fúria deste [não de Alá, pois o Misericordioso não se manifesta].

O grupo agnóstico Razão Total Humana [apesar de censurado pelo poder proletário sob a acusação de reformista] conseguiu emplacar o dia de hoje como Jornada do Ateísmo Libertador  em 1939. De maneira não muito inesperada, a população a inverteu para dia da lembrança das aparições, o que [segundo não poucos] é mais uma prova [desta vez por quase voto popular] da existência da divindade.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

12 de Maio

Formas de escolher governantes

Ruthinna olhos negros e cabelos idem na cintura [princesa filha do falecido Sherif amhitariano em princípios de 1715] veio a público no dia de hoje para defender o método de defesa do novo governante. Começou por analisar os existentes. Escolher um chefe por habilidades na guerra era estúpido disse ela, pois a força era apenas um acidente que decorre da fraqueza dos outros. A sucessão por hereditariedade não tinha sentido, pois tanto os tolos como os sábios têm filhos e a sabedoria não se transmite pela carne. Pedir indicação aos sacerdotes seria ainda pior, pois a dura experiência ensina que os homens de deus são muitas vezes os piores.

Restava  o método tradicional: sem tremer um lábio [e sua seriedade a sufocar risos] fez cair o casaco e [vestindo apenas um perfume de cânfora] sentou-se ao trono [que era o corpo do  candidato]. O teste era simples e eficaz e se baseava no número sagrado 7: o candidato que primeiro erguesse eficazmente sua coragem masculina 7 vezes seria o novo Sherif. Quanto aos candidatos falhantes, o cutelo do carrasco e o Reino de Alá os esperavam [inevitavelmente os candidatos eram poucos].

Ninguém fazia fé no jovem carreteiro Sherzod Mlavaz até que sua coragem se tornou líquida pela sétima vez. Ele e Ruthinna reinaram por 33 anos e [ao que se sabe] com justiça. Depois deles tal método foi considerado bárbaro e retornou-se ao costume de sucessão familiar, com o rotineiro envenenamento dos pretendentes pelos tios.

domingo, 11 de maio de 2014

11 de Maio

Olvidável Pioneiro do Ar

Amhitar [inevitavelmente] participa da corrida sobre qual país deu a luz àquele que conseguiu fazer uma engenhoca fumegante sustentar-se no ar antes de estatelar-se [de maneira mais ou menos voluntária] no chão. Certo longínquo [e voluntariamente pequeno país que se autodetesta] também candidata um certo Santos-alguma-coisa [parece que Dumont] [há também uns tais Irmãos Wright, dizem].

Se houvesse alguma ordem transcendental no mundo [sendo discutível que haja] Yuliya Sunnat [o candidato amhitariano] seria O Pioneiro da Aviação. Não por uma [sempre discutível] precedência temporal, mas por características muito comuns na raça humana que os outros candidatos [estranhamente] parecem não ter.

Seu aparelho ao qual deu o [estúpido] nome de Chinelo II decolou hoje em 1901 de um campo de areia nas margens do Syr-Daria, tentou atravessar o rio, não conseguiu, voltou, e pousou quase de faca [de ponta de asa] de onde partira.

Até aí nada de mais [o tal Santos e os Wright fizeram coisa parecida]. A originalidade de Yuliya está em que desceu em terra, arregalou os olhos, abriu o choro, saiu correndo para casa e gritando por mamãe [sendo não de todo improvável que manchou as calças e se meteu debaixo da cama, como dizem]. Nunca mais tirou os pés do bom e sólido chão.

Por três décadas se discutiu se Amhitar deveria reivindicar o Pioneiro Da Aviação ou O Mais Humano Dos Aviadores. Venceu a primeira hipótese, em decisão talvez não de todo feliz.

sábado, 10 de maio de 2014

10 de Maio

Clássicos aborrecimentos

O [relativamente pequeno] interesse pelos imortais da literatura em Amhitar tem sido atribuído [não sem certa injustiça] a um homem só. Akrom Sardor [velhinho, sorriso e pince-nez] publicou hoje em 1871 as suas Confissões de um Mestre-Escola, mais conhecidas pelo subtítulo Yuduurhmar-al-Aksuraathim, geralmente traduzido em línguas ocidentais como As memoráveis obras não são por demais interessantes. Uma tradução menos cavalheiresca porém mais real [dizem] é: Os Clássicos São Um Saco!

Não pede licença: Conhece o leitor aquela passagem na qual Ulisses chega numa ilha, mata todos os homens de lá e divide as mulheres e crianças como escravos entre seus soldados e é louvado por sua justiça?  Esse Homero era um sádico! E o Cícero, e esses advogados romanos chatos! Aprender latim para ler uma xaropada dessas? E aquele Agostinho, moralistão sádico defendendo os crimes de sua igreja? Pior só o tal Santo Tomás, outro cínico. E Aristóteles! Existe alguém que escreva de maneira mais aborrecida? E as tragédias gregas? Antígona abraçada ao cadáver fedentino do irmão, rárá! Que lindo! E o chato carola do Pascal! Um trapo! Este livro, caro leitor, visa a libertá-lo de ler esses sádicos aborrecidos, os clássicos!

Causador de duplos sentimentos, os intelectuais de Amhitar em geral trombeteiam que estava errado o professor [embora alguns doses de vinho os façam confessar que Cícero e os outros são veramente insuportáveis (ou um saco, como diz a tradução)].

sexta-feira, 9 de maio de 2014

09 de Maio

O dia da Imarcescível Vitória dos Povos Livres na Grande Guerra Patriótica

Quis o Destino [mas o Destino não quer nada] que o Herói de Amhitar fosse o baixinho, gordote, frouxo e puxador de uma perna Aleksiei Ilianovitch Bolkhonski [na verdade Alimova Fehruz (sendo assim que era conhecido fora dos comunicados da agência de notícias soviética Tass)].

Naquele 9 de maio de 1945 Stalin tinha dois problemas – o primeiro era como se manter no cargo [o problema de todos os tiranos e líderes democráticos] e o segundo era como parecer a todos os seus povos que a vitória pertencia a cada um deles [problema que, no fundo, recaía no primeiro]. Um censo apontara 160 nacionalidades, religiões e povos no país e todos tinham de estar presentes na queda do Reichstag em Berlim.

Um grande esforço da NKVD conseguira reunir 159 – faltava alguém de Amhitar. Stalin berrou para o Marechal Jukov que berrou para Timoshenko que berrou de volta e a batata quente caiu para os escalões inferiores, que descascando as mesmas na cozinha da 3a companhia do 435o batalhão da 769a divisão encontrou Alimova [as histórias de que se escondeu debaixo da cama acabaram por cair no descrédito, de tão contestadas pela imprensa patriótica].

No grupo [na verdade uma multidão] que sobraçando a bandeira vermelha invadiu a sede hitleriana consta [ao final] um baixinho. Tropeçou no casaco [essa parte inexplicavelmente não foi cortada da filmagem oficial e sempre causa alguns risos].

quinta-feira, 8 de maio de 2014

08 de Maio

Cabelos soltos ao vento

A vida que Dilafruz Shahmat criou para si teve seu segundo começo hoje [sendo o primeiro o banal dia de seu nascimento]. Dezoito anos [cabelos ao vento] bigode encerado de gomalina [buquê de gerânios] ajoelhou-se ao pé da amada [os mais estonteantes negros olhos do universo].  O pai dela o expulsou – a moça, obrigada, casou com um rico a quem odiava.

Shahmat [a lua cheia como testemunha] jurou voltar famoso, e a jovem [fraca e inconstante] arrepender-se-ia de seu ato. Foi embora [navegou] foi sequestrado por piratas [tornou-se chefe deles] lutou em guerras [foi condecorado como herói] fez-se alpinista [subiu os sete montes de Atlântis] conheceu Napoleão [tornou-se seu lugar-tenente].

Voltou rico e famoso e encontrou um túmulo: sua amada, arrependida de não tê-lo seguido, morrera de desgosto [e ainda regurgitante de pureza]. De que adiantam as riquezas e a fama, sem o verdadeiro amor? - pensou a chorar na tumba. Olhou do lado: surgira um exemplar da Histoire da la Révolution Française, de Jules Michelet.

Sem o amor nada mais valia a não ser o recolhimento e o estudo. Doou seu dinheiro aos pobres, mergulhou em manuscritos velhos e escreveu 77 livros sobre a história de Amhitar. Em homenagem ao mestre ele não era mais Shahmat, mas Dilafruz Michelet, o mais romântico dos historiadores.

Essa é a história que o escritor Dilafruz criou para si. Outros dizem que ele foi um tímido adolescente ledor, e que nunca teve namorada [mas a inveja existe].

quarta-feira, 7 de maio de 2014

07 de Maio

A Dupla

Uma versão [provavelmente apócrifa] afirma que a furiosa ensaísta Shalina Kharinaat e a doce poetisa Iroshka Maruf [apesar de sua incompatibilidade em tudo o mais] seriam na verdade gêmeas, separadas [de forma talvez não acidental] na maternidade de Shamarkhaant. [O epíteto de Furiosa se deve mais a seus (não poucos) inimigos literários].

No mesmo ano [na verdade no mesmo dia] em que Iroshka publicava o seu Gatinhos de Doce Porcelana Shahlina [em uma taverna frequentada pelos sete únicos anarquistas de Amhitar da época] lançava no dia de hoje em 1898 [em uma brochura anarquisticamente sem capa] o seu Al-Ghurinahtt-el-Kabhutiir [geralmente traduzido como O Poder Invencível da Vagina Alarmante].

A menção da quinta palavra do título na sociedade amhitariana da época [ou em qualquer sociedade em qualquer época] seria suficiente para tempestades de escândalo, e mais ainda reforçada por capítulos como No Princípio era a Vagina [e a Vagina era Deus] ou Da Prova cabal da superioridade das vaginas sobre seu ridículo contraparte. A autora propunha uma sociedade na qual os homens seriam escravos, não só sexuais como econômicos.

Iroshka Maruf lhe enviou o bilhete Eu também sou você apesar e o significado desta linha varia desde que a boa moça na verdade invejava a rebelde, até a de que o bem e mal podem até simpatizar, sem deixar de ser opostos. Esta última versão, mais conveniente para as famílias de Amhitar, acabou sendo a mais difundida.

terça-feira, 6 de maio de 2014

06 de Maio

Quando Ele veio, ou não

Alexandre o Grande invadiu Amhitar no dia de hoje [nunca invadiu e esta celebração é estúpida ­– diz outra corrente. Um grupo minoritário afirma que não foi uma só invasão, mas sete, e nenhuma a 6 de maio]. Bebeu e elogiou a água do mar de Aral [ou fez três caretas e disse ser pior que os esgotos de Atenas – afirma um grupo] [segundo outros, até quis beber mas seu cavalo corcoveou assustado com o excesso de sal – e para não se desmoralizar o conquistador gritou ter mudado de ideia].

Realizou os ritos do amor em sua tenda listrada de amarelo e rosa com sete belíssimas morenas princesas que lhe foram entregues como tributo [não realizou nada porque nem era chegado a isso, diz uma minoria] [outros dizem que não eram princesas, nem belíssimas, e nem morenas, e sim mulheres de aluguel das mais feias como sinal de desprezo pelos vencidos, que nem bonitas fêmeas produziriam] [outros discutem ser a tenda não listrada mas escarlate].

Louvou a sabedoria dos anciãos de Amhitar [ou considerou-os um bando de imbecis] e declarou nunca ter visto santuários mais belos [ou afirmou não servirem nem para estábulo].

Deixou o país em glória militar pela estrada de Karakorum [ou saiu uma picada estreita afligido por uma disenteria que o fez deixar ridiculamente lembranças a cada cem metros – afirmam outros]. Ou nunca saiu [dizem] pois a água que lhe deram era envenenada, e seus generais a partir de então o substituíram por um impostor.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

05 de Maio

Delicados

Hoje em 1898 [em uma ruptura que só mais tarde seria reconhecida como tal] a poetisa Iroshka Maruf publicou em um bazar de gatos de porcelana o Dicionário de Delicadezas. [Tudo se fazia significativo nessa obra, desde o lugar de lançamento (de maneira alguma fortuito) até o número de exemplares (222 que, pela grande procura, a autora permitiu que fosse aumentado para 2222, pois o número 2 (claro água) era seu número favorito.]

 Mesmo o ateu Serguei Kovinev [que não pode ser considerado fã de uma poetisa intimista] tonitroa que assassinatos, julgamentos, inundações, guerras [e até sete Armagedons destruidores da Galáxia] porejavam a literatura amhitariana, a qual se orgulhava de ser Uma Literatura de Grandes Coisas. Esta jovem que laborava joias de palavras sobre um pingo de chuva nadando em um copo d´água [um de seus poemas mais declamados] ou cartas a um estranho que me ama sem eu nunca tê-lo conhecido trouxe a arte das palavras ao rés do chão, ao miolo da vida, ao pote de barro dos qual são feitas a coisas.

Detestada pelos anarquistas e pela polícia do Czar [que desconfiava dela algo que nem sabia definir] a escritora foi canonizada pela república soviética [traidora] do Uzbequistão [como símbolo de resistência pátria ao invasor inimigo] e pelos neoliberais dos anos 1990 [como mártir da liberdade do pensamento, irmã da liberdade de abrir shopping-centers]. Ignora-se até que ponto esses seus tardios fãs leram suas poesias sobre bolas de lã.

domingo, 4 de maio de 2014

04 de Maio

O tempo em que o barbicha foi feliz

Era meia-noite quando Leon, depois de condenar 17 contrarrevolucionários à morte e completar três laudas de Uma análise dialética do futuro da mais-valia espreguiçou-se, levantou de sua escrivaninha no trem blindado que servia de comando ao Exército Vermelho e saiu para tomar ar. [A guerra civil afinal caminhava bem – apenas nove mil e novecentos mortos nos últimos dias, uma bagatela].

Distraído pela emoção de estar construindo a redenção do mundo e pela neblina, perdeu-se e quase bateu a testa no Velho Cachorrão [o mais sujo dos bordéis de Amhitar e do mundo].

Três bêbados o convidaram a uma mesa. Leon frio e fome não tinha rublos. Eles pagaram o pão e a vodca. Mas exigiram:

- Cante.

O orgulho proletário bateu firme em Leon. O alcoolismo é uma desgraça do povo oprimido.

Não se deixaram convencer. Canta ou nada.

Leon Trotski engoliu o orgulho [a fome deva pontadas]. Grasnou:

- Figaro, Figaro, Figarooo...

Não gostaram. Fechou os olhos, pediu para Marx perdoá-lo:

- Anushka/ a minha puta/ tinha quatro tetas/ sete tetas/ nove tetas...

Trabalhadoras da noite e bêbados riram. Leon comeu, bebeu, gargalhou, moças sentaram nos seu colo. Os comissários da Artilharia Vermelha que o encontraram lhe sentiram o bafo de álcool.

Depois, numa noite em 1940, numa casa fortificada no México, Leon Trotski escreveria: somente um dia, naquele dia 4 de maio de 1920, posso dizer que fui realmente feliz.

Vinte e quatro horas depois morreu assassinado.

sábado, 3 de maio de 2014

03 de Maio

Inexistência primeira

A tese [não pouco contestada] da inexistência de Amhitar foi arguida 3 vezes [dizem]. A terceira [e mais perigosa] se deu quando a barbicha e o pince-nez de Leon Trotski intentaram a incorporação do país à sua Revolução Proletária Mundial Redentora.

Malgrado a sua insidiosidade, a tese do barbicha se trata [na verdade] de um requentamento das ideias contidas em dois de cinco rolos de pergaminho rigorosamente guardados em potes de barro e descobertos na demolição de um lupanar para a construção da Fábrica de Arados Proletários e Camponeses em União  na província de Jizzack em 3 de maio de 1929. Segundo tais pergaminhos [vertidos no protodialeto Bakhmar], Amhitar não se trata [como os outros] de um lugar físico, com fronteiras, rios e soldados, mas de um estado de espírito. Quando pressionado por essa mistura de monotonia e tensão que se chama [por algum motivo] de mundo real, cada homem [e todos eles] têm seu lugar-de-refúgio, seu Amhitar próprio [seja ele a bebida, as moças de aluguel ou Amhitar mesmo].

O fato de os outros três jarros conterem descrições de posições eróticas tem sido alegado desde sempre pelos adversários como argumento contra sóbrias teses. A atual Academia [Pós-Moderna] do Passado Inexistente [fundada em 1989] afirma [de maneira previsivel] que as sensualidades formam a melhor prova que tais pergaminhos são autênticos, pois [segundo eles] só a indecência nos salvará [ele mesmos se perguntam de quê].

sexta-feira, 2 de maio de 2014

02 de Maio

Comeres discordantes

A Culinária amhitariana nasceu [oficialmente e de maneira um tanto suspeita] de duas formas independentes que [presumivelmente por coincidência] aconteceram no mesmo ano e dia, 1907 a 2 de maio [em dois bazares lado-a-lado em Shkmarkhant] quando Miss Shahnoza Fehruz e a Célula Anarquista Abaixo os Deuses! lançaram cada um seus livros, ambos com o título Relato Verdadeiro da Mesa Amhitariana e as semelhanças param por aí. Shahnoza [estonteante de morenice aos vinte e dois] e [dizem] amante de um oficial russo [e que nada tinha da senhora de meia-idade típica dos livros de receita] derramou no compêndio gafanhotos assados, rãs vermelhas ao molho de iaque e caranguejos de cinco patas grelhados com lacraias torradas típicos [segundo ela] do de-comer dos antigos.

Exotismo para alienados! – diziam os anarquistas. Seu livro começava decepcionantemente com 17 páginas em branco [homenagem à fome do povo, que nada come - diziam eles (embora tais boas intenções tenham sido criticadas como falta de assunto)]. Seguiam-se receitas tão monótonas que pareciam uma acolhida ao suicídio em massa – dizia Shahnoza.

O debate refletia a política – aqueles que queriam a conciliação com o domínio russo elegeram a garota como sua favorita, enquanto os radicais favoreciam qualquer radicalismo, desde que contrário ao Czar. Folhetins tentaram atribuir a discordância ao amor frustrado de um anarquista pela morena mas as coisas não são sempre tão românticas.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

01 de Maio

Septienista

- Já que não consigo mudar a mim mesmo, vou mudar o mundo.

Foi o que disse Aynur Zafar quando saiu do Hospício de Shmaerkhaant no dia de hoje em 1827 com duas malas de papelão prensado e uma observação ZK no seu prontuário [abreviação de Zhirklin-in-Kharobouth, que no dialeto Bhakhmar padrão significa Não Curado].

O maior dos filósofos [ao menos para seus 7 adeptos] de Amhitar instalou-se então em um cubículo e se dispôs a contar a História de Tudo [sendo esse o título de sua obra principal, a qual livreiros temerosos da reação dos compradores mudaram para o pouco menos pretensioso Completo Compêndio de Filosofia Geral]. Tal obra [disseram os críticos de Delhi a Jacarta] impressionava por sua firmeza em anunciar absurdos. A ideia de que havia uma fonte de perfeição no mundo, que esta fonte não era o que se chamava de deus, que esse pretenso fluxo passava pela humanidade e especialmente pelos adeptos da filosofia aynariana [ou septienista, como ele a chamava] era por demais pueril para ser real.

O fato de que cada ensaio do mestre tinha 7 partes, cada parte 7 capítulos, cada capítulo 7 seções, cada seção 7 parágrafos, cada parágrafo 7 períodos e cada período 7 palavras pouco contribuiu para a reputação acerca de sua estado mental. Críticos dizem que é por isso que a filosofia do mestre nunca teve mais de 7 simpatizantes [mas isso não é verdade: em 7 vezes que foram contados, o número de adeptos chegou a 9].