quarta-feira, 30 de abril de 2014

30 de Abril

Dom Juan sem fala

Invejam Lev Dilbar – é [talvez] o mais invejado da história amhitariana. [Somente a enorme credibilidade (alguns dizem ingenuidade) do historiador Java Kharlilah impede que Lev (e o dia em que seduziu sua milésima-primeira fêmea, tradicionalmente comemorado hoje) se desmoralize como lenda estúpida.]

O já um tanto senil Java [em folheto de 1899] divulgou a história deste homem que teria vivido entre 1225 e 1244 da Hégira [1811 e 1830 dos hereges] e que não possuiria grandes dotes intelectuais mas longuíssimos outros dotes – e cuja firmeza em suas opiniões era suplantada por uma firmeza diversa, a qual se sustentava por [dizem] 24 horas por dia, ou melhor ainda, obedecia a ordens.

Tais características [afirma o sóbrio historiador] atraíram não poucos especialistas dispostos a confirmar ou disputar sua veracidade [tendo tais especialistas em comum apenas o sexo feminino, gozando entre si de enorme diversidade – eram viúvas jovens, casadas de décadas, moças que viviam em casas só com outras moças e recebiam visitantes] e todas [diz a lenda] confirmavam os rumores e apreciavam também a pouca prolixidade do indivíduo [Lev Dilbar era rápido, discreto e mudo].

A única contestação ao estudo de Java diz respeito à documentação consultada: a grande fonte [dizem] teriam sido duas tias-avós do historiador, que [com Lev há décadas virado pó] reviravam olhos de lembranças e diziam que não se fazia mais presente como o passado fazia.

terça-feira, 29 de abril de 2014

29 de Abril

O começo do mundo

Até hoje [nas datas de exaltação patriótica] se vê em um ou outro muro o bombástico

Ud-Ahmitarianvan-al-Zhiirbekehruz!!

Ou: O homem primordial veio de Amhitar! [Lema (por não poucos céticos) considerado mais emocionante que real]. Surgiu tal ideia da confluência da escavação de um talude arenítico para a Ferrovia Grande Amhitar em 1856 [a qual depois da invasão russa teve seu nome modificado para Trans-Turquestão] e da interpretação [por muitos considerada fantasiosa] do Banquete de Platão, especialmente do discurso de Aristófanes.

O grego afirmou que o homem primordial tinha 4 braços, 4 pernas, 2 cabeças olhando em sentidos diferentes, forma arredondada [e portanto podia rolar]. As escavações da ferrovia [consideradas como se tendo iniciado nesta data] revelaram ossos que mal se podiam considerar humanos pois correspondiam [quase que] exatamente ao seres descritos por Platão [exceto que possuíam cinco narizes, o que foi atribuído a uma compreensível falha do filósofo, que não era adivinho].

As universidades ocidentais não perderam tempo em rotular tal descoberta como falsificação e deletaram o Homem de Amhitar de seu horizonte de estudos. Para o país, a causa do pouco prestígio dos primitivos amhitarianos veio de que, por um enorme azar, sua descoberta aconteceu ao mesmo tempo da dos esqueletos em Neanderthal, na Alemanha, os quais, embora menos relevantes, contaram com poderosa máquina de propaganda a seu favor.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

28 de Abril

Doze balas sob a pele de Siobhan Behruz...

... estreou hoje em 1923 no Cine-Teatro Revolução de Outubro [antigo Ópera Czar Nicolau II] e a multidão que o lotava [embora inicialmente tentasse obedecer ao cartaz que informava ser o filme um drama histórico] acabou por rir.

Siobhan Behruz traiu seu país passando-se para os invasores Turkhmans. Expulso o inimigo, o povo o julgou e condenou ao fuzilamento [diz a lenda]. O filme retratava rigorosamente tal história [e o público seguia com sobriedade (e bocejos)] até que surgiu em cena o próprio Siobhan: a cara de fuinha [além dos discursos que choviam perdigotos], a pince-nez e barbicha e o cabelo para trás empapado de goma puxaram um vagalhão de gargalhadas: o anti-herói conseguia ser uma mistura de Lênin, Trotski e Stalin, os três ao mesmo tempo.

Para expor a vulgar banalidade do vende-pátria, o filme o colocava dizendo só banalidades. O problema é que quando Siobhan dizia Preciso de um copo de vodca, pois um traidor do povo sempre cede à tentação da ebriedade! ou Vou agora satisfazer a minhas necessidades fisiológicas do tipo sólido [ou do tipo líquido] o público, em vez de enojar-se do malfeitor, ria dele.

O filme [embora fracasso ideológico] arrastou o público. O Comitê Central [provisório] do Turquestão acrescentou um texto inicial que o filme não apresentava nenhuma semelhança com nenhum prócer da Revolução Proletária. Como tal aviso teve efeito contrário, o Comitê o retirou.

domingo, 27 de abril de 2014

27 de Abril

A mentira das areias

Utnapishtim veio de longe [seu nome (nada amhitariano) significa Aquele-que-está-distante]. Mora [nos últimos dois mil anos] na Boca-dos-Rios [lugar cuja (duvidosa) adaptação ao contexto da Ásia Central talvez signifique as embocaduras do Syr-Daria e do Amur-Daria]. Este é o começo da história.

E a história veio de 55 páginas de um códice [falsamente] atribuído ao quase lendário cronista Abdul Al-Wazahari. O final da História [tingido de certa banalidade] mostra Utnapishtim vivendo tranquilo com sua esposa e filhos entre os juncos dos tais rios – e vivendo uma vida imortal.

Homem bom, os [caprichosos e inconstantes] deuses ordenam-lhe construir um grande barco, abrigar sua família e também uns animais, e aguardar a tempestade.

Seria um óbvio plágio de certo conto do Oriente Médio se a tempestade não fosse de areia. O mundo se encharcou de pó e mesmo parte da família de Utnapishtim foi eliminada, assim como parte dos animais.

Não só a comprovação da falsidade desmoralizou tal história, e nem mesmo só a tola substituição de água por areia. Os falsários [nunca descobertos] plagiaram uma velha história iraquiana sem mesmo se dar ao trabalho de trocar os nomes. [Utnapishtim é nome sumério]. Triplamente desmoralizada, a história é mantida para educação moral das educações futuras, sobre como é feio mentir.

sábado, 26 de abril de 2014

26 de Abril

O Hamlet de Amhitar

No dia de hoje um arquivista [em 1828 ou 1829] descobriu 444 páginas e meia de um códice em pergaminho que contava uma história de um dos principados à borda do lago Sarygamysh. Um prestigioso rei havia morrido, seu irmão tomara o poder, sua cunhada com sete dias casara-se com ele, e seu sobrinho, filho do falecido rei, com a ajuda de alguns amigos fingia-se de louco para [dizem] provar que o seu tio rei era um assassino, vingar seu pai e apoderar-se do trono.

Em pouco estouraram as versões: moderados diziam ser a história de Hamlet na verdade amhitariana, chegada à Dinamarca por contações de caravaneiros; os radicais acusaram Shakespeare de plágio [tornado mais misterioso por que o tal manuscrito não tinha assinatura]. Uma terceira escola dizia que o pretenso inglês não o era, e sim amhitariano [o que não é tão inverossímil se considerarmos os poucos dados sobre a vida do bardo quinhentista].

Em 1948 tudo mudou. Nos arquivos nacionais [traidores] de Tashkent descobriram-se as restantes 14 páginas e meia que faltavam no pergaminho. Revelaram que o tal príncipe não mata o tio e sim faz um acordo pelo qual concorda em abrir mão da vingança em troca da promessa de sucedê-lo no trono, e mais  7 concubinas morenas, 7 louras, 77 palácios-castelos e 7 milhões de dinares de peso-ouro. 

Desmascarado o pouco idealismo do tal príncipe, desde então a data não tem sido celebrada e só a sonolência burocrática explica sua permanência nestas efemérides.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 de Abril

Guerrilha teclada

As Brigadas Libertadoras Lembranças Afetuosas ao Grande Donyhor al-Temurbek começaram seu meritório [e imarcescivelmente difícil] trabalho de libertação do país  [no ambiente não-real] exatamente nesta data em 2006 [do calendário herético].

O movimento abriu uma conta em certo sítio de 140 caracteres [e o fato de ser o sétimo associado do portal não deixou de ser percebido como cabalístico]. Iniciaram temerosos de uma ação da Polícia Política do Ditador Karimov e lançaram a tag #LongLive Freedom [que não foi reprimida talvez porque pouco significasse]. Resolveram ser mais explícitos e colocaram frases pela independência seguidas de #VivaAmhitar, mas para evitar censura puseram tudo em uma língua de um certo país grande da América do Sul. [Como ninguém entendia tal língua, o resultado foi nulo.].

Finalmente lançaram a tag [com pouca originalidade] #AvanteAsBrigadasLibertadoras LembrançasAfetuosasaoGrandeDonyhoal-Temurbek com grande e sigiloso aparato, simpatizantes teclando em 99 Lan Houses espalhadas pelo mundo [e tal sinalizaria o princípio da revolução nacional, talvez mundial]. Infelizmente na mesma noite certo Justin fazia show no Madison Square e a grandiloquente mensagem amhitariana quedou apenas 33 segundos no sétimo lugar, submergida logo por #JustinIlove e #UnitedBeliebers.

O setor informático das Brigadas não desistiu e assegura que os tuítes ainda sacudirão o mundo [tal opinião, claro, não é unânime].

quinta-feira, 24 de abril de 2014

24 de Abril

Amhitar, a tolice

Otajon Ilyos publicou seu livro em 24 de abril de 1824 quando completou 24 anos e todas essas coincidências não explicam [dizem seus inimigos] porque esta efeméride é anti-celebrada hoje. [É das poucas, talvez a única comemoração verdadeiramente odiada pelos patriotas mais radicais de Amhitar.]

História comum de vida – família nem bem nem mal de dinheiro, só irmãs, [sem namoradinhas], o adolescente Otajon passava as noites trancado no quarto lendo clássicos da política e da sociologia, dizem seus [poucos] aliados [ou dedicando-se a festas solitárias imaginando garotas, gritam os detratores].

Caiu-lhe nas mãos a Investigação sobre a Natureza e a Causa da Riqueza das Nações de Adam Smith e obcecou-se por aplicar a teoria do filósofo escocês ao que via em volta. O resultado foram as 999 páginas de O País – Uma Introdução, que começa com a frase

Amhitar não é uma piada – é uma tolice.

Que foi suficiente para lhe comprar o ódio nacional eterno. Seguiu demolindo cada um dos orgulhos nacionais – o trigo era de má qualidade, os tapetes eram imitações estúpidas dos Persas, nem o sabão prestava pois a água do Syr-Daria era salobra. Propunha uma reforma alto-a-baixo para que a economia nacional começasse a existir [outra frase odiosa]. [Desnecessário dizer que nada foi feito.] Quanto ao dia 24, bradam os inimigos que sua verdadeira razão foi que nele Otajon engoliu a timidez e tentou com uma garota de aluguel [e nem nisso teve sucesso – dizem].

quarta-feira, 23 de abril de 2014

23 de Abril

Parcas tentações

Apenas dezessete rolos de papiro em couro de cabra informam que existiu um homem chamado Gelasiminius [embora tal nome seja um óbvio pseudônimo], que viveu pelo século VII ou VIII, que escreveu todos [ou quase] os seus rolos em um Mosteiro na Ponta do Sinai e que a 23 de abril [na única data precisa em seus escritos]a tentação o tentou moer em suas garras de lodo [a expressão caracteristicamente é do próprio monge.] [O décimo-terceiro rolo produziu não poucas versões falsas (e lucro para quem as fez )].

Três demônios [diz o pio religioso no tal rolo] o acossaram quando meditava no deserto. Transformaram-se em dragão e tentaram me fazer perder o controle das funções fisiológicas, de medo. Vendo que não funcionava, mudaram de tática. O deserto sumiu, veio um palácio – os tapetes macios e os assados de porco [o monge jejuava já por 99 dias]. A cabeça tonteando, recusou.

Finalmente transformaram-se em mulher – uma garota cuja beleza semelhava à tranquilidade extrema. Em um par de segundos o monge viu a paz, os filhos, a rotina-do-cuidar, a morte entre os netos. Consciente de que esta era a maior das tentações, rezei mil e onze  vezes para São Cirilo e Atanásio antes de voltar à esperança do Céu.

Embora belíssima, editores consideraram que essa história podia ter aumentado seu potencial de vendas e transformaram a garota em sete, diminuíram em muito a roupa que usavam e deram a ela o título de Memórias Secretas da Luxúria, unanimemente tido como péssimo.

terça-feira, 22 de abril de 2014

22 de Abril

O embaraço dos santos

As escavações que o SemiSultão Dhoxrux ordenou na santa cidadela de Moynaq deram em fracasso – Como tudo no reino do SemiSultão  [Dilafruz Michelet pronunciou tal frase não carente de veneno.]

Não um fracasso no sentido clássico. O trabalho arqueológico escavocou sete séculos de poeira e debaixo dela tijolos e arcos de pedra se materializaram. Os responsáveis convidaram o potentado [seu harém e suas liteiras] para a [quase re] inauguração.

Já se pusera a caminho quando os responsáveis gelaram: nem luxuosos palácios nem pios mosteiros, suas escavações revelavam um conjunto de esgotos [ligados por encanamentos de chumbo a sete latrinas, estas admiravelmente preservadas].

Dez séculos de admiração popular construíram Moynaq como uma cidade de santos, cujo abandono não se deveu a guerra ou avanço do deserto mas a que todos os seus imortais componentes subiram ao Céu. A descoberta ameaçava se não a veracidade ao menos a nobreza de tais crenças.

Os escavadores temeram a prisão ou o cutelo, e mais de um fugiu espavorido no deserto.

O SemiSultão porém no dia marcado [de hoje em 1863] preferiu refrescar-se em sua tenda listrada com treze de suas concubinas, e pouca atenção prestou à arqueologia. Restou o debate teológico, se santos imortais também fazem dejetos, e se continuam a fazê-los no Céu. Este ainda não chegou a termo.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

21 de Abril

Herói múltiplo

Donyhor al-Temurbek [dizem] morreu 999 vezes e nasceu 1.007. [Esta superávit de vidas não deixou de ocasionar seus bate-bocas teológicos]. O maior dos heróis da história de Amhitar nada tem a ver com reecarnacionismos, nem suas múltiplas e assim chamadas vidas podem ser [che-guevariamente] consideradas manifestações de avatares do proletariado, os quais, sempre vencidos, são substituídos por outros até a final vitória.

Documentos [desde pedaços de argila até modernas certidões de nascimento] atestam a vinda ao mundo de um garoto com esse nome [sendo que treze indícios (perseguidíssimos pelos governos amhitarianos de todas das tendências) afirmam ser ele na verdade uma mulher]. Lendas [e inscrições em portais de cidades perdidas] contam em gloriosas tintas suas lutas contra o invasor Átila [ou Genghis Khan; ou Napoleão; ou os Xeques Turkhmans; ou mesmo Alexandre o Grande] e sempre culminam com sua vitória [ou seu sacrifício em palavras tão grandiloquentes, que vale como vitória futura].

Todas essas evidências são, em certo sentido, incontestáveis. Tão meigas e ao mesmo tão cheias de firmeza as palavras de Temurbek, e tão corajosas e bem-intencionadas as suas ações, que se tornam verossímeis, ou quase um crime ou falta de compaixão crer em sua não-existência em um certo lugar ou tempo. Há Temurbeks em 1253 e 79 A.C., em 1911 e hoje. E todos são verdadeiros, e a nossa vida seria menos interessante se eles não o fossem.

domingo, 20 de abril de 2014

20 de Abril

A Falsa Literatura

Durante muito tempo [para maior exatidão, desde que a Universidade de Delhi publicou nesta data em 1962 (contra as expressas reclamações do Partido) o pequeno (e perseguidíssimo) ensaio Do Tempo e seus Versos da poetisa e crítica literária Florida Shuhrat] que a sabedoria convencional afirma que, de 652 a 654 D.C. floresceu uma escola literária no baixo curso do Amur-Daria e que tal escola seria um alerta.

Alerta de desastre: a escola Amuriana [como ficou conhecida] plenifica-se de aventuras de cavalheiros e de damas e de poemas em meio a árvores de troncos mais grossos que muralhas, planícies encharcadas de riachos e de colinas cobertas de arbustos mais altos que casas. Como hoje a região não produz grama suficiente para alimentar uma vaca, a conclusão é óbvia: houve um desastre ecológico – um severo aviso para a Humanidade.

O deslizamento de um aterro na velha Ferrovia Trans-Turquestão em 1989 expôs um cilindro contendo sete papiros numa versão do terceiro dialeto Bhakhmar que revelou ser a literatura amuriana uma farsa: três mullahs e dois diáconos Khazyr a teriam produzido bem mais tarde [em 1721] para matar o tédio [e evitar as perigosas disputas teológicas]. Não só as tramas mas principalmente o ambiente luxuriante seria falso.

Tal nova versão [nem um pouco unânime], foi contestada em duas dissertações na Universidade [traidora] de Tashkent, segundo as quais a literatura amuriana é real – falso e [pretensamente] cômico é o tal cilindro.

sábado, 19 de abril de 2014

19 de Abril

Auto-expulsos do Paraíso

Foi curiosamente o multiautor Ronald Wright no seu [não pouco apocalíptico] Uma Breve História do Progresso [Toronto, 2004] que restaurou uma ideia de Abdul Al-Wazahari, a de que Amhitar [ou ao menos sua parte ocidental] era [na verdade] o Paraíso.

Não todo o Paraíso, de fato. O cronista medieval afirmou [em três papiros hoje no Museu Histórico de Alma-Ata] que Shuhrrat e Gamnaal [uma alusão a Adão e Eva] expulsos caminharam 49 mil dias e 49 mil e uma noites [um óbvio exagero, mesmo descontada a distância] para as margens do Aral. [A partir de então a história do casal primeiro de Amhitar se torna tão semelhante à da dupla bíblica a ponto de ser considerada plágio.]

O canadense afirma quer o Paraíso existia, localizava-se em Çatal Hüyük na Anatólia, e os homens foram de lá expulsos não por um anjo mas por sua própria burrice – que os fez desmatar tudo e as chuvas arrastaram o solo fértil. Desceram para a Mesopotâmia e inventaram a grande [e fracassada] civilização Suméria. Todos exceto seis casais [diz o canadense – e não um só]. Instalados na foz do Syr-Daria, no Aral, criaram um modo de vida tão simples que não merece ser aqui estudado.

Não deixa de ser um tapa na cara – Wright se interessa por grandes civilizações que fracassaram. Afirma portanto que Amhitar nunca foi grande. Essa indiferença [mais odiosa que a raiva] faz com que seu livro seja desprezado tanto pela Ditadura de Karimov como pelos guerrilheiros amhitarianos.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

18 de Abril

O Filósofo

Os historiadores e patriotas em geral têm rejeitado o epíteto de Yursinoy Bakhram como O Platão de Amhitar. Filósofos da École Normale Supérieure parisiense concederam-lhe este apelido [ingenuamente] nos anos 1950 como um elogio. [A informação de que a dupla inconformista Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir estivesse à frente do movimento é no entanto apócrifa].

A originalidade [e possível superioridade] do filósofo amhitariano sobre seu contraparte grego [segundo seus fãs] deve-se não apenas à sua antiguidade [embora haja poucas evidências de que Yursinoy seja mais antigo que Platão – de fato, há poucas provas de sua existência real] mas de que enquanto os gregos falavam metafísicas que ninguém vivia, o amhitariano filosofava no mundo agora-e-aqui.

O Discurso da Galinha consiste no maior exemplo dessa alegada simplicidade. Yursinoy definia a galinha como um ser com duas faces: interior e exterior. Há uma galinha-para-o-mundo e uma galinha-para-a-galinha [seu rosto interior, que não se confunde com sua pele virada ao avesso]. De tais noções vinha a relação da galinha com tudo o que é não-galinha, extrapolada [depois de meia dúzia de silogismos] para a relação eu-e-o-mundo.

A grande semelhança ocorre não com Platão mas com seu mentor Sócrates – o Estado da época condenou Yursinoy a tomar uma malvada beberagem. Há uma versão de que ele, ao tomá-la, subiu aos céus. Outra, de que se tornou uma galinha [esta odiada pelos patriotas mais exaltados].

quinta-feira, 17 de abril de 2014

17 de Abril

A Cidade dos filhos do Deserto


Os profetas não são filhos do deserto. Eles são filhos da cidade – as cidades de beira de deserto – coleções a céu aberto de gente e vielas com esgoto pelo meio. Um inglês baixinho, poliglota e que [dizem] gostava mais de moços que de moças pronunciou esta frase [talvez mais impressionante que real].

Visitava a escavação da cidade sagrada de Dashoguz – sagrada apesar das paredes de lama – em agosto de 1914, meses depois da descoberta no dia de hoje dos pedaços de suas nove muralhas. Apertada entre setenta e sete desertos e um lago [hoje seco mas na época pouco mais que um poço de lama preta], Dashoguz [dizem] gerou quarenta mil profetas.

O método se assemelhava: alguém [tangido pela pobreza ou pelo par de chifres que alguma namorada lhe impunha] fugia desgostoso para o deserto. Lá uma figura [o arcanjo Gabriel, dois djins ou 70.437 xamãs (tal número aparece em duas das histórias)] aparece a ele, transmite-lhe a mensagem de paz e as ameaças de sempre. O profeta volta, convence a uma pequena turba [com o inevitável círculo mais chegado - geralmente doze]. E os poderosos da cidade resolvem dar-lhe um fim – a pedradas, lanças ou cruzes.

A semelhança dos profetas de Dashoguz com certo da romana Palestina não escapou ao tal inglês. Três dias depois a Primeira Guerra Mundial começou e o Imperialismo dos Britânicos o chamou para engendrar um levante. Em Amhitar, ele - Thomas Edward - é conhecido como Lawrence de Amhitar - não da Arábia.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

16 de Abril

Dentes do deus

A pobre Teologia de Amhitar teve sua origem no dia 14 de Shawwal [16 de abril dos hereges] do ano 5.771 ou 5.769 A.C. [as duas versões possuem ardentes partidários] quando o monstro Bhakhimaar mordeu a metade boa do mundo e a levou para si [a má ele deixou, o que explicaria as guerras, a gripe e as traças na roupa].

Pobre porque, em vez de se concentrar nos dilemas da existência que atormentam todas as religiões, os teólogos amhitarianos preferiram discutir quantos dentes possuía Bhakhimaar. [A questão óbvia da possibilidade de um ser vivo do tamanho do planeta, monstro ou não, curiosamente foi esquecida]. Não se trata de um problema de época – essa discussão nasceu e renasceu em noventa e sete tempos diferentes [a estimativa consta de uma pesquisa da Universidade (traidora) de Tashkent feita em 1981].

Nessa secular [e não exatamente útil] discussão pululam os números mágicos, três, sete, nove. Uma corrente [compreensivelmente conhecida por Os Radicais Noveistas] sustenta que se trata de uma dízima periódica e indefinida [mas não fracionária] de números nove. Assim, Bhakhimaar rasgou o mundo com seus 9999999... dentes. Criticados por um missionário jesuíta, os Noveístas [diz a lenda] responderam que tão tolo quanto contar dentes de um monstro é provar que Deus uno é na verdade três sem ser três deuses, e silenciaram o jesuíta. Essa história, embora espirituosa,  não é corroborada por fontes independentes.

terça-feira, 15 de abril de 2014

15 de Abril

Rugidos Primeiros

Ferdinand de Saussure teve três pesadelos com Amhitar [o primeiro deles a 15 de abril de 1908, entre o primeiro e o segundo dos seus célebres cursos]. O gramático da Universidade de Genebra sonhou com um monstro – não conseguia vê-lo mas ouvi-lo. Seus rugidos não o eram – lembravam cordas de violino ou navios em colisão. Ferdinand tentava - não fugir - mas entender [a vida e a morte lhe pareciam sem sentido enquanto não compreendesse aquele som único de formas múltiplas]. Quando os ouvidos pareciam lhe saltar da cabeça no esforço, acordava [banho de suor].

Noventa e nove palmos de um rolo de papiro cobertos com uma só palavra [de uma língua ininteligível] repetida exatas 7.777 vezes lhe causaram isso. Um antiquário vendeu-o ao sábio informando ser de autoria do semilendário linguista amhitariano Abdullaeva Behruz [uma informação de confiabilidade baixa como toda informação de vendedor].

Três noites de pesadelo e 99 delas no estudo sem sono convenceram o gramático que aquele era o registro da Língua Primordial, o elo perdido entre os grunhidos dos pitecantropos e as línguas modernas. Convencido de ter descoberto o elo perdido das Linguagens, escreveu pequeno ensaio incluído depois da sua morte no capítulo II [A Língua mais antiga] da Quinta Parte do seu Curso de Linguística Geral. [Editores depois eliminaram discretamente o ensaio, pois este retirava do Indo-Europeu [e consequentemente dos europeus] a honra de ser a origem das línguas.]

segunda-feira, 14 de abril de 2014

14 de Abril

O Crime do Filme

Um homem sentado em poltrona – uma sala – uma janela e uma porta – um jarro de gerânios e um manual de Cabala sobre uma mesinha: este é o cenário.

Pela janela se esgueira uma voz [a expressão quase não é metafórica]:

Isto é um crime

E após dois exatos segundos de pausa

Vou cometer o crime agora

O homem [sua expressão muda de acordo com a cena] abre a porta e corre por corredores que se dobram em ângulos retos, cada vez mais rápido: esta é a ação.

O filme História dos Inolvidáveis Silêncios consiste nessa cena apenas, repetida 14 vezes. Mudam detalhes: os cabelos do ator, a emoção no seu rosto, a largura dos corredores labirínticos [às vezes largos como um pátio, enquanto em certas cenas parece esmagado pelas laterais que se fecham], o número de flores no jarro, inicialmente nove, cai para três afinal.

Estreou na data de hoje em 1931 o primeiro filme sonoro de Amhitar. O subcomitê de censura incrivelmente [e demonstrando uma pouco abundante cultura cinematográfica] não percebeu que o nome do diretor registrado G. Méliès era um óbvio pseudônimo inspirado em um cineasta francês até que o filme estivesse nas salas do país.

De qualquer forma o caráter [aparentemente] pouco político do filme permitiu que continuasse a ser exibido. A partir de 1995 uma corrente revisionista tem procurado afirmar que o filme era monótono como crítica à monotonia da vida soviética, ou da vida mesmo. O sucesso de tal interpretação não tem sido grande.

domingo, 13 de abril de 2014

13 de Abril

As Águas existentes talvez

As três fontes de água subterrânea [melhor dizendo, três poços] do septuagésimo-sétimo platô desértico de Qyzylorda secaram no dia 13 e abril de 888 d.C. às dezenove horas e cinquenta e nove minutos e tal exatidão por todos os padrões excessiva pouco tem feito para dar credibilidade a esta versão. [Seu autor é surpreendentemente o prático pensador Iusya Marzhaffar, apoiado meio século depois pelo ateu militante Serguei Kovinev.]

Ambos objetivavam se contrapor a uma versão [por eles apodada de fantasiosa] com origem em meia página de papiro deixada pelo Monge Gelasiminius e que afirmava que As águas vindas do centro da Terra seriam sete, como são sete os santíssimos sacramentos, e que tais águas teriam secado, por obra de Belzebu e dos seus Quinze Anjos Mais Caídos, e assim permanecerão até a volta do Bem-Aventurado.

A Escola Romântica abraçou a história do bom Monge, apenas corrigindo um [para eles] excessivo pietismo, e atribuiu o fim das fontes a sete guerras causadas por amores frustrados de sete príncipes dos sete feudos do Norte.

Uma escavação para o terceiro ramal da Ferrovia Trans-Turquestão em 1939 descobriu que os poços seriam apenas dois [um número absolutamente sem mística], e pesquisas em  laboratório disseram que nem nos tempos antigos a água seria isenta de um excesso de ferro que a tornaria salobra. Como todos os objetivismos que acabam com os velhos sonhos, esse também foi desprezado e a data continua a ser celebrada hoje.

sábado, 12 de abril de 2014

12 de Abril

As Imaginações da Geologia

O Tratado da Geologia Imaginária de Amhitar [de 1906] não o era [ao menos segundo surpreendente achado de petróleo realizado nos anos 1990 por um consórcio liderado pela Elf Aquitaine e composto pela malfadada British Petroleum e a Braspetro de um longínquo país. Esse consórcio desencadeou a costumeira onda de denúncias de propinas e contas nas Bahamas, etc.].

Assinava-o certo Joseph John New-York e esse nome [melhor, esse pseudônimo] ridículo, junto com menções a lugares como Shagri-lá e Eldorado atingiu o objetivo que o oculto autor queria ou queriam: que os oficiais da censura czarista gargalhassem e não percebessem que o tal Atlas indicava riquezas bem sólidas.

Em torno do paralelo 42, por exemplo, o atlas enxergava [a uma profundidade de trezentos metros] um lago de Néctar do amor das deusas, o que esse título de duplo sentido quisesse dizer. Logo debaixo, porém, indicava uma jazida de petróleo e gás estendendo-se ao sul até o paralelo seguinte. E essa informação [o Consórcio descobriu] era correta. Os afloramentos de Pedras de Apolo ou de Rubis já enfiados em Colares entremeavam-se com jazidas de berilo e cobalto.

Assim como ninguém sabe o nome dos maiores espiões [pois eles nunca foram pegos], desse maior geólogo de Amhitar não se sabe o nome. Uma teoria que o vinculava a uma história de amor e vingança, culminando com uma perseguição e fuga para o Céu revelou-se [como era óbvio] por demais romântica para ser real.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

11 de Abril

O mais tedioso dos homens

A pá mecânica de uma motoniveladora feita na fábrica Alvorecer das Nações [na Rutênia Subcarpática] hoje em 1952 estabeleceu esta que compete pelo [duvidoso] título de mais obtusa destas Efemérides. [A rua que o Subcomitê de Transportes queria pavimentar se chamava inevitavelmente Avenida do Guia Genial dos Povos o Grande I. V. Stalin].

Na presença do Subsecretário regional do Partido a máquina retirou estrato rotundo de poeira solidificada e descobriu que a via já fora pavimentada antes. Pesquisas em arquivos encarquilhados de mofo revelaram que a pavimentação fora inaugurada em 1856, comemorando o 7º aniversário da ascensão do SemiSultão Dhoxrux [tal ridículo título fora uma concessão para apaziguar o titular deste cargo, então residente em Bagdá].

A avenida fora construída – depois fora esquecida. Assim foi o reino do mais tedioso de todos os homens - a expressão é do insuspeito [porque geralmente deslumbrado] historiador Java Kharlilah. Dhoxrux chegou ao poder e deixou o poder - e pouco parece ter acontecido entre tais duas datas. [Exceto os banquetes em Palácio nos quais todos os pratos (e até mesmo os copos d´água, segundo testemunhos talvez eivados de exagero) regurgitavam de manteiga de leite de elefanta].

Claro, enquanto nada acontecia, algo acontecia. A ferrugem ganhava os rifles, os buracos perfuravam as muralhas e a poeira cobria as ruas. No mesmo ano, o poeta Dilbar Otajan publicou Nuvens de Mármore Cinza, título algo profético.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

10 de Abril

A Frase múltipla

A segunda frase mais famosa traduzida por Gulhayo Mansur [hoje em 1830] não deixou de ter sua parcela de humor. [Um improvável monstro teria pronunciado a mais famosa, celebrada a 12 de março]. O folgazão [dizem] tradutor não forneceu o original mas só a versão em francês [afirmava saber trinta mil e doze línguas – o que provocava risadas até que algum descrente ia testá-lo falando em samoiedo ou chadiano-suailí – e saía convencido de que era verdade]:

Je défendrai donc avec confiance la cause de lʼhumanité devant les sages, ou
Defenderei portanto com confiança a causa da humanidade perante os sábios

- e atribuiu tal frase a um herói– que não informou qual era –perante os reis. Afirmou que fora escrita no quinto proto-dialeto da seita dos subdiáconos da feitiçaria Zhamyar.

Tal expressão [heroica e exaltante] não deixou de ser encampada por todos os dominadores de Amhitar – desde o Czar de Todas as Rússias até a barbicha de Leon Trotski – pois representava o respeito devido ao Estado.

O humor só se revelou quando da redescoberta do dicionário bilíngue dos sete protodialetos Zhamyares – deixado inédito pelo linguista e segundo o qual em tal língua a palavra sábio significa também monstro repugnante – Gulhayo em mensagem cifrada sua [já suspeitada] aversão por qualquer poder. Compreensivelmente a frase deixou de ser comemorada e só a inércia burocrática explica sua manutenção nestas efemérides.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

09 de Abril

A Beleza tornada Horror

O filósofo genebrês Jean-Jacques Rousseau [cujo nome era na verdade Houssnida Abdumalik segundo versões mencionadas nestas efemérides a 5 de janeiro] realizou a mais famosa [embora quase incompreensível] menção à maior das esculturas de Amhitar.

Nas primeiras páginas de seu Discurso sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens ele menciona certa Estátua de Glauco, tão desfigurada pelo mar que ninguém mais a reconheceria [faz uma analogia com a natureza humana, com a qual a sociedade faria o mesmo]. Gente como Robespierre e Marx leu sem atentar que ninguém sabia exatamente onde quedava tal obra de arte.

Glauco na verdade não o era: chamava-se Akmal [segundo folheto publicado em 1917 por Houdetot de Saint-Lambert em obra não totalmente livre de aberturas à filosofia reencarnacionista] e dele se sabe apenas que viveu no tempo em que Amhitar agarrava as bordas do Golfo Pérsico e dele fizeram uma estátua. As tempestades [e os tiros de canhão do inimigo Farsi] a transformaram em unicórnio; em uma versão da deusa Akssumi [de três narizes e mil braços]; em um tipo estilizado de carroça puxada por iaques; ou em uma embarcação à vela, de acordo com a visão dos espectadores, que vislumbravam na estátua os seus interesses ou paixões. O filósofo suíço [ou Houssnida Abdumalik] considerou melhor para sua analogia transformar a estátua em monstro, algo que os testemunhos decididamente não autorizam.

terça-feira, 8 de abril de 2014

08 de Abril

Primordial nudez

Zamira Jamshid entrou nua na cidade de Takhiatash [dezenove anos, cabelos a caracolar até a cintura] em um dia que as edições popularescas [mais que as teses acadêmicas] definiram como 8 de abril de 1223. [Trata-se de exagero: o testemunho (espera-se que) insuspeito do diácono khazyr Al-Otabek, que assistiu a tudo, afirma que a princesa (olhos negros no horizonte) vestia uma guerreira saia de escamas de bronze]. Montava um cavalo de crinas negras e sete outras tão jovens e tão despidas quanto ela a acompanhavam, seguidas pelo exército que adentrava a cidade conquistada [os seios de nenhuma no entanto rivalizavam com a firmeza dos da bela Zamira, que ignoravam o movimento do animal – diz Otabek com entusiasmo pouco condizente a um prelado].

Não se tratava de momento erótico, nem mesmo de júbilo. Uma seta negra atravessara na véspera o pescoço de seu marido o príncipe Jamshid o Inolvidável, no comando do cerco de 33 dias à cidade tomada pelos invasores Turkhmans. Derrotados os inimigos, a viúva comandou desta forma a entrada triunfal – sendo tanto infinita quanto inútil a discussão se tal ato fora uma prova de desprezo pelo inimigo ou forma de dizer que, sem seu amado, nada mais lhe importava. Esse debate interessa menos ainda aos ghost-writers que entupiram as livrarias de versões não muito castas de sua vida e que produziram até mesmo um filme, Zamira, A Princesa da Devassidão, de duvidoso compromisso com a verdade histórica.

08 de Maio

Cabelos soltos ao vento

A vida que Dilafruz Shahmat criou para si teve seu segundo começo hoje [sendo o primeiro o banal dia de seu nascimento]. Dezoito anos [cabelos ao vento] bigode encerado de gomalina [buquê de gerânios] ajoelhou-se ao pé da amada [os mais estonteantes negros olhos do universo].  O pai dela o expulsou – a moça, obrigada, casou com um rico a quem odiava.

Shahmat [a lua cheia como testemunha] jurou voltar famoso, e a jovem [fraca e inconstante] arrepender-se-ia de seu ato. Foi embora [navegou] foi sequestrado por piratas [tornou-se chefe deles] lutou em guerras [foi condecorado como herói] fez-se alpinista [subiu os sete montes de Atlântis] conheceu Napoleão [tornou-se seu lugar-tenente].

Voltou rico e famoso e encontrou um túmulo: sua amada, arrependida de não tê-lo seguido, morrera de desgosto [e ainda regurgitante de pureza]. De que adiantam as riquezas e a fama, sem o verdadeiro amor? - pensou a chorar na tumba. Olhou do lado: surgira um exemplar da Histoire da la Révolution Française, de Jules Michelet.

Sem o amor nada mais valia a não ser o recolhimento e o estudo. Doou seu dinheiro aos pobres, mergulhou em manuscritos velhos e escreveu 77 livros sobre a história de Amhitar. Em homenagem ao mestre ele não era mais Shahmat, mas Dilafruz Michelet, o mais romântico dos historiadores.

Essa é a história que o escritor Dilafruz criou para si. Outros dizem que ele foi um tímido adolescente ledor, e que nunca teve namorada [mas a inveja existe].

segunda-feira, 7 de abril de 2014

07 de Abril

O Falso Dia do Libertador

A tag #VivaTemurbek [em verdade #LongLiveTemurbek] surgiu em certo popular serviço de microblog às sete horas do dia sete de abril de 2008 [quando tal serviço não era ainda tão popular], permanecendo setenta e sete minutos entre os sete maiores trending topics e tal coincidência numérica acentuou a sensação de pânico na República traidora do Uzbequistão, que imaginou [não sem certo exagero] um poderoso grupo por trás disso. A Polícia Política conseguiu bloquear as tentativas de recolocar a tag na mesma data nos anos seguintes [com a inexplicável exceção de 2011, na qual #ForeverAmhitar foi o segundo tt mundial por quatro minutos].

Não se sabe se Temurbek gostaria disso [as gravuras que representam o maior herói de Amhitar sempre o mostrando com cara de caranguejo, o que segundo três dos testemunhos minimamente confiáveis não corresponde à verdade]. A data de hoje na verdade se refere ao único episódio da vida do Herói que tem uma descrição indiscutível, o dia em que [ainda adolescente] deu o primeiro beijo em sua segunda namorada. A exatidão da data superou a [possível] irrelevância do episódio e, na falta de um dia segura do nascimento, o beijo era comemorado. O fraco governo do Xeque considerou tal episódio pouco masculino e dessacralizou a data em controverso decreto de 1859. Não é de espantar que um recente renascimento do lado afetivo [até mesmo dos duros heróis] leve tal dia a se colocar mais forte ainda como efeméride. 

domingo, 6 de abril de 2014

06 de Abril

A Fundação da Academia

Serguei depois confessaria em suas Memórias que, ao subir à Tribuna [discurso à mão naquele 6 de abril de 1933] duvidou da existência do futuro. Não se tratava ­­­ - diz na página 99 – de medo de desaparecimento individual ou de cataclismo que engolfasse o último homem. Mas de que algo além daquele momento viesse a existir ou tivesse existido.

O Partido fundava a Academia Soviético-Proletária da Ásia Central no rastro do fechamento da Academia de Ciências de Amhitar a 25 de fevereiro, esta criada seis décadas antes pelo lendário [e romântico] historiador Dilafruz Michelet e acusada [como seu fundador] de romantismo [além de decadência intimista e burguesa].

O Soviete Supremo chamou o geógrafo Serguei Mikhailovitch Kovinev [espichado, cara chupada e barbicha] para presidir a nova agremiação. Neto do médico Alexander Kovinev, Serguei herdou do avô uma intensa fé no ateísmo [ao ponto de ter sido flagrado duas vezes de joelhos e mãos postas orando para o deus inexistente – embora o testemunho não seja incontroverso].

Igualmente conhecida era sua fé no futuro. Curiosamente, na frente do Comitê Central e do Comando Regional do Exército Vermelho e da Confederação dos Sindicatos tal convicção fraquejou. Dúvidas como essa fizeram com que suas Confissões por motivos políticos fossem restritas a uma tiragem de 777 exemplares, o mais barato deles hoje valendo dez mil rublos nos sebos de Moscou.

sábado, 5 de abril de 2014

05 de Abril

A farsa

Charles Robert Darwin teria compulsado um exemplar [ainda inédito] da História dos Coelhos em Amhitar, na sua fazendola em Downe, Kent, de 5 a 9 abril de 1854. Fascinado, acrescentou um capítulo ao seu ainda incompleto Origem das Espécies denominado De como novas evidências advindas do Turquestão provam a inexistência de uma Divindade no esquema evolucionário, depois retirado do livro por insistência de sua puritana esposa. [Essa a história confirmada em dois bilhetes atribuídos a seu discípulo Thomas Huxley, cujo fanatismo agnóstico torna seu testemunho pouco confiável].

A Comissão amhitariana que anos depois examinou a História dos Coelhos quedou abismada com sua inverossimilhança: os desenhos eram fora de proporção, havia erros na localização dos sítios arqueológicos e a tese da existência de fósseis de coelhos carnívoros gigantes na margem do lago Balkash não passava pelo teste da gargalhada. Das hipóteses sobre tal livro-farsa, a primeira fala de uma operação do fraco governo do Xeque, que esperava com isso ganhar alguma visibilidade na Inglaterra, dona do mundo.

Uma segunda versão afirma que o autor de tal tolice teria sido o próprio Darwin, que a teria feito para arrancar gargalhadas de sua filhinha favorita, que em breve morreu. Desgostoso depois da tragédia, entregou seu livro-piada a Huxley, que inventou o resto e doou o manuscrito para a Biblioteca Pública de Bombaim. Não são tantos os que acreditam nela. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

04 de Abril

Viajantes Celestiais

A terceira aparição dos Saticons se deu hoje [parte das versões concorda] em ano menos certo [a data 1851 não é unânime]. A própria existência desse grupo de seres talvez extraterrestres vestidos com algo semelhante a capas e cartolas e sôfregos por um suposto amuleto tem sido compreensivelmente objeto de não poucos questionamentos. [Quase] miraculosamente a Academia Soviético-Proletária da Ásia Central (sessão plenária de 1957) considerou que não seria impossível um contato estranho, desde que os seres viessem de uma civilização mais avançada, marxista-leninista.

Ao contrário de filmes posteriores que retratariam alienígenas como monstrinhos simpáticos, os Saticons metiam medo. O relato da aldeia que eles invadiram os pintou como fanáticos pelo tal amuleto [na verdade um cinto] o qual daria a eles o poder sobre toda a Galáxia. Pareciam controlar o clima: por três dias variaram a temperatura desde 20 graus negativos a 45 acima, pressionando os habitantes a entregarem um senhor idoso que possuiria o objeto. [Tal idoso seria a reencarnação do sábio Bahodir (celebrado a 3 de janeiro) de acordo com a Sociedade Espírita de Delhi, em interpretação não isenta de opositores].

O sábio fugiu presumivelmente para outro planeta e os Saticons foram atrás dele. Esse jogo de gato-e-rato continua talvez até hoje, diz a Sociedade Ufológica de Amhitar, por muito tempo proscrita e, como toda sociedade ufológica, fortemente contestada.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

03 de Abril

A ceia do amor

O dia 7 do mês de Ramadan [dia 49 de Zyhrrak no calendário Khazyr, ou 3 de abril dos hereges] compete com dezenove outros para ser a data da entrada de Marco Polo no reino de Amhitar. [O levantamento do número de dias (além de perorações sobre a viagem) constam em artigo (não assinado) do caderno 2 da Gazeta de Tashkent, edição de 15 fevereiro de 1960.] O fato em si é menos incerto: em 3 das [no mínimo] 9 versões existentes das memórias do famoso viajante consta uma passagem na qual ao entrar no país é recebido com uma ceia de pão roxo com manteiga de elefanta, sendo este o prato nacional à época.

As versões divergem quanto às circunstâncias de tal refeição. Em duas delas [seguidamente acusadas de serem falsificações] o [jovem] Marco enche a barriga na casta companhia de seus dois tios. Na terceira [a qual infelizmente (o adjetivo consta no artigo) ostenta sinais de papel e tinta que sinalizam para sua antiguidade se não autenticidade] o rapaz tem seu banquete numa tenda só com uma jovem morena [de colar e joia negra na testa] cujo comportamento e palavras [além de esguia beleza] permitiriam qualificá-la como uma moça que concede mais importância ao ouro que à sua honra ou ao amor [na insuportavelmente pudica descrição do autor anônimo].

A fama do viajante e um decreto nunca revogado do breve governo do General Chavkat explicam a presença deste fato nas efemérides nacionais. Os detalhes do repasto são compreensivelmente omitidos nos discursos.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

02 de Abril

Mil e uma bocas

A primeira expedição a escanear o litoral em busca da foz do rio Amur-Daria resultou em rotundo fracasso. [O caráter lendário de tal viagem se patenteia não só pela época em que é situada (sempre “no tempo antes da nona grande tempestade”) como pelo nome excessivamente apropriado de seu chefe Yursiraat, que no dialeto alto-Khazyr significa Explorador]. Certa seita xamânica chegou a defender a tese da inexistência do rio [sendo as evidências do mesmo apenas uma aparição diabólica]. As necessidades práticas de utilização da água falaram mais alto e tal seita [com exceção de sete] foi forçada a abjurar sua crença.

Sucessivas cachoeiras [que ex-aventureiros desanimados exageravam para mais de 300] impediam que os ahmitarianos descessem o rio até a foz [sendo sua fonte também desconhecida]. O rio era então um pedaço: saía do nada [do deserto – na verdade de montanhas antes do dito] e sumia nos abismos. Pensadores [igualmente desanimados] comparavam o rio com a vida, mas pouca repercussão tiveram.

O rio [na verdade] se divide em bocas [algumas não mais largas que dois ou três centímetros] antes de mergulhar na água salgada. Vergonhosamente para os geógrafos, o mistério só foi descoberto no começo do século XIX por mercadores de esterco. Geógrafos tentaram redimir-se buscando o número de bocas, e um relatório assinado por agrimensores do Exército em 1854 estabeleceu-o em exatamente mil e uma, naquela que é provavelmente a estatística mais duvidosa de Amhitar.

terça-feira, 1 de abril de 2014

01 de Abril

As muralhas

O Politburo da República [traidora] do Turquestão Ocidental em surpresa monstruosa no dia de hoje em 1935 publicou nota no Diário das Massas [sóbria, mas uma nota] afirmando serem verdadeiras e também patrióticas as histórias populares que [com os séculos] atribuíram 400 muros à antiga cidadela de Zarafshan.

Tal número [simétrico e demasiado belo para ser real] fora não só aceito mas exagerado pelos poetas e historiadores românticos de Amhitar [posteriormente caídos em desgraça]. [Seriam na verdade 777 segundo o impetuoso cronista Java Kharlilah, que previsivelmente os atribui a certo Xeque que jurou seu amor 777 vezes a uma odalisca cor de tâmara e prometeu defendê-la o mesmo número de vezes]. A nota no Jornal [dizem] deveu-se ao sóbrio geógrafo Serguei Kovinev, o qual grunhira dias antes no verbete referente à cidade no 17º volume da Enciclopédia Soviético-Proletária que esses escritores vendidos à reação enchem as cidades antigas de palácios e labirintos, sempre construídos por ordem de senhores poderosos. Em Amhitar temos a único muralha-labirinto feita não só pelos braços mas também pela iniciativa das massas famélicas!

Para confirmar essa história o Departamento de Propaganda e Agitação das Massas enviou expedição arqueológica que depois de sete meses de escavações teve suas conclusões arquivadas e sua divulgação proibida. Dizem que concluíram que não havia muralhas, mas isso se tornou mais uma parte da lenda dos 400.