segunda-feira, 31 de março de 2014

31 de Março

Menino sem idade

Em tempos ásperos viveu Shahnoza Birame e aos vinte e sete anos não se classificava precisamente como menino. [Naquele 31 de março de 1865 (dia 4 do mês Rabi) Shamarkaent coalhava de boatos. Um país (a Rússia) regurgitava de escritores (Dostoievski e Tolstoi produziam amores e crimes a toda) e de regimentos prontos a invadir].

Nesse [péssimo] momento o [cabelos arrepiados e cara de gente-feliz] Shahnoza tomou algo parecido com uma viola e no Mercado do Centro [com 45 ou 200 crianças em volta, os testemunhos variam] começou a cantar “Bom dia, bom dia, como vai?/ Bom dia, bom dia, como vai?/ Feliz de estar aqui/ Feliz de estar aqui/ com meus pequenos amigos!”

Crianças significavam então arados para os hectares engolidores de braços. Shahnoza cantava como se essa idade fosse uma época especial, em que a brincadeira precede até mesmo a colheita. [Muito posteriormente] foi considerado o Precursor da Literatura Infantil em Amhitar, pomposo título para o qual talvez vomitasse.

A Milícia considerou que aquelas canções não podiam ser só aquilo – devia haver alguma mensagem secreta, espionagem para Moscou. Quanto aos pró-russos [eles existiam, em semi-segredo] acharam que aquelas bobices distraíam o povo das graves transformações que adviriam com a chegada dos civilizadores. Shahnoza foi proibido e terminou seus dias muito depois cantando cançõezinhas para seus três cachorros e cinco gatos – dizem que os bichos dançavam no ritmo, mas talvez seja lenda.

domingo, 30 de março de 2014

30 de Março

Médias Idades

[Quase] todos os historiadores, poetas [e mais recentemente os biógrafos Pop] coincidem em que a Idade Média em Amhitar arrastou-se [a expressão é do materialista Iusya Marzhaffar] desde 1233 [quando ascendeu ao poder (enforcando os seus nove tios) o segundo dos Sete SubCalifas (tendo o primeiro sido considerado cruel  e defenestrado da História)] até o ano 1715 [quando a princesa Ruthinna teve a sétima cópula com o ex-revoltoso Sherzod Mlavaz, habilitando-o a ascender ao trono]. [Tais testes de habilidade masculina (então requeridos) são objeto de vergonha e orgulho para os amhitarianos, conforme sejam tradicionais ou hiperavançados].

Como todas, a Idade Média de Amhitar multiplicou os pedaços de terra de senhoretes, impostos para camponeses e sua ausência para suseranos, guerras entre feudos, duelos à espada, clérigos ociosos a ameaçar com o Inferno e violações de donzelas [tendo uma delas tomado a armadura e a lança e espetado para o Reino de Alá não poucas centenas (dizem) de inimigos kazaks, numa emulação de uma certa Joana D´Arc (acusação negada pelos patriotas, que afirmam que a imitadora é a francesa)].

A existência de uma tribo de guerreiras [depois relatada por Sayyd Maruf Umarkhan, relembrado a 2 de janeiro] distingue essa época em Amhitar. Os homens se submetiam, bovinos e temerosos, a elas, o que [é claro] não ocorria nas Europas. Por ser contrária ao orgulho macho, essa particularidade do país não é muito celebrada.

sábado, 29 de março de 2014

29 de Março

O Incorruptível

Munisa Gulshoda não deixou livros ou palestras [Tudo o que sabemos dele veio de três depoimentos no mensário O Novo Turquestão, publicados hoje em 1949]. Das suas palavras claudicantes [os tiros e a bebida deixaram sua assinatura] emerge a Samahkhant pós-Primeira Guerra – que deixara seu [pretenso] charme oriental [ninguém esperava mais ver Aladim ou tapetes voadores] para se transformar em cidade moderna: trabalhadores e bondes de dia e de noite o bairro podre, cigarros e contrabando, cafetões e prostitutas.

Incorruptível, o [então] belo Munisa [o nome era um pseudônimo, homenagem a um detetive anterior] teve [não poucas] noites de amor com morenas estonteantes de cabelo curto e cigarro com piteira que se revelarem espiãs dos gangsters que se sentiam incomodados com sua interferência. [Munisa recuperava cargas roubadas, desfazia sequestros e devolvia às mães filhas amalucadas que achavam romântica a vida com bookmakers]. Isso deu a ele não poucos inimigos e não menos marcas de longas unhadas, tanto das garotas que resistiam ser levadas à força para casa como de paixão em momentos sexies [além, é claro, das temporadas em hospitais depois de tiros].

Um filme e dois livros pretensamente biográficos romantizaram a figura do detetive. Ao morrer deixou conselho: os tiras roubam e as mulheres mentem, não sejam detetives. Isso, é claro, apenas acresceu charme à sua legenda.

sexta-feira, 28 de março de 2014

28 de Março

A Água de Deus

O professor de história Dilafruz Michelet publicou em 1881 o opúsculo A mais bela das histórias de Amhitar. [Inexplicavelmente não é a data de sua publicação que se rememora hoje e sim a da obra contrária A mais patética das histórias, do também historiador (e rabugento) Iusya Marzhaffar].

Dilafruz reivindica a bebida de deuses e guerreiros, o vinho. Argumenta oceanograficamente: supondo-se que [em uma enchente que cobrisse todas as terras] as correntes oceânicas se comportariam de maneira mais ou menos igual, é impossível que a arca de Noé tivesse levado 40 dias apenas para cobrir a minúscula distância da Mesopotâmia ao monte Ararat. O estudo das correntes elimina qualquer outra direção que não Amhitar – na qual a famosa barca teria tocado terra.

Assim, o [vergonhoso] episódio em que os filhos de Noé o embebedam ocorreu em terras amhitarianas [Dilafruz arrisca três províncias candidatas ao acontecimento]. O vinho seria  invenção própria, depois injustamente tomada por outros, uma injustiça que o autor se dispõe a retificar.

Iusya rebate com três argumentos: não havia [em 1881] produção vinícola no país; escavações arqueológicas não detectavam a presença de uvas antes do ano 800 dos hereges [um argumento facilmente contrariável pois há vinhos que não de uvas]; e, principalmente, Deus não existe. Se não existe, não podia haver Dilúvio. Sem Dilúvio, sem Noé; sem Noé, sem vinho em Amhitar. Tal argumento obviamente não logrou convencer a muitos.

quinta-feira, 27 de março de 2014

27 de Março

Eu te amo boa noite

Iroshka Maruf [a poetisa] desapareceu hoje [uma noite tempestuosa] em um dos dois únicos penhascos à borda do lago Sarygamysh [o fato de existir outro penhasco não é irrelevante] com a idade de dezessete anos e dezessete dias [uma coincidência que não deixou de provocar misticismos numéricos] no ano 1900. Seus pais, avós, as três únicas amigas e mil e duzentos apaixonados por poesia que amavam seus livrinhos O Dicionário das Delicadezas, És meu deus e meu daimon e Gatinhos de doce porcelana a choraram como se morrera [e de fato a polícia política czarista ordenou que se a considerasse morta para evitar qualquer outra conotação ao evento].

Iroshka desde os onze anos postava cartas, das quais metade para si mesma e o restante para alguém que nunca se soube [apesar das hipóteses a respeito]. Seus sonetos falavam de amores tão belos que é melhor que nem existam, e de Almas gêmeas próximas e distantes como em labirinto.

No dia em que desapareceu Iroshka acariciou duas vezes seu cachorrinho, soprou um beijo para sua avó paterna [minha fada de óculos] e deixou sobre a mesa uma frase Eu te amo eu te amo boa noite. Três pescadores afirmaram tê-la visto sobre o penhasco contra a luz dos relâmpagos, estendendo os braços. Sobre o outro penhasco, outra figura, um belo jovem, olhando-a como em alegria melancólica de tão grande. Isso não deixou de adicionar adoração à memória da jovem poetisa.

quarta-feira, 26 de março de 2014

26 de Março

História da falta de sentido

O Monge Gelasiminius [em passagem mórbida dos seus Comentários à Cosmografia Cristiana (Cristã)] descreve com detalhes desnecessariamente deprimentes como hoje no ano 334 D.C. seis mil seiscentos e sessenta e seis mercadores da chamada Rota da Seda escolheram o caminho errôneo para o Além [ou seja, cometeram suicídio].

No mesmo dia em 1970 o hippie [um dos três únicos de Amhitar] e sociólogo de pseudônimo Utkirbek Lennon [formado na Academia de Ciências de Moscou] publicou em papel mimeo cheirando a álcool e outras drogas que todas as explicações estavam erradas – a tragédia nada teve a ver com revoltas feudais nem com a invasão de Átila. Historiadores [disse ele] artificialmente criam um quadro geral, sempre com sentido. A Rota da Seda era segmentada. Ninguém a percorria inteira. Mercadores faziam pedaços dela – compravam aqui e vendiam mais adiante. Não sabiam quem era o produtor, nem o comprador final. Sequer sabiam quem precisava de tanto pano. Envelheciam, decaíam, enterravam os pais e eles mesmos eram enterrados por filhos que faziam as mesmas rotinas. Algum enlouquecia, outro se matava. Resta explicar por que tantos o fizeram no mesmo dia, mas isso é de somenos importância ante a o que os levou a isso.

Os meios oficiais bocejaram ante essa explicação que não envolvia a luta de classes. Depois,  militantes pós-estruturalistas afrancesados revalorizaram essa versão, mas então Utkirbek Lennon já tinha se tornado contador e bancário.

terça-feira, 25 de março de 2014

25 de março

As tentações

Por sete vezes o diabo tentou hoje a Jasur Ziyba [sendo apócrifa a versão de que tentou 40 vezes, a maioria dos críticos considerando-a mera tentativa de assemelhar Jasur a um profeta concorrente no Oriente Médio]. Não o tentou no deserto - as pedras e cactos considerados banais para a pirotecnia do príncipe das trevas – e sim no meio da cidade [as paredes apertadas de argila da cidade de Dashoguz, por alguns considerada inexistente (embora outros atribuam a ela umas ruínas no lago Sarygamysh compostas de nove pedaços de muralha, nove inscrições e nove pares de brincos, um deles incompleto)].

Ao contrário do que diz a tradição do tal outro profeta, o diabo de Amhitar não tem chifres. Veio em forma de menina [os cabelos alourados em caracóis] e não ofereceu nada mas sim pediu algo banal [as versões variam desde um copo d´água a bonequinho de pano]. Jasur concluiu que o mal, ao contrário do que se pensa, está nas coisas pequenas e com essa mensagem perturbou os comerciantes das ruas de Dashoguz e, como todo profeta, exceto por meia dúzia [às vezes uma dúzia], foi considerado um chato. Quanto à sua mensagem, teólogos liberais a tiveram como um sinal de que as verdadeiras tentações são pequenas – uma fatia de bolo a mais, uma piscada de olho a mais, e são essas sementes que geram as grandes desgraças. O pensamento ortodoxo rejeita essa versão, acusando-a de ser por demais rasteira e de tirar certo charme inerente às histórias divinas.

segunda-feira, 24 de março de 2014

24 de Março

O metal vazio

As minas de cobre do trigésimo-terceiro platô de Aqtöbe não eram [em verdade] minas de cobre. Um levantamento datado de 1931 contou 10.937 estrofes de poemas épicos e de panegíricos sobre tais celebradas minas [a maior parte, conforme o reconhecimento dos recenseadores, de qualidade muito ruim.]

Veio a decepção com três engenheiros de minas do exército russo, que em expedição começada hoje em 1869 [à qual o vício da ganância não era estranho] intentaram estabelecer a exploração em escala. As pedras eram esverdeadas, certo, e pareciam ter a densidade correta. Mas certo brilho [o brilho dos olhos de um homem triste – escreveu um dos engenheiros em trecho não muito científico do seu relatório] chamou a atenção de um barbudo em São Petersburgo. A partir daí a história se baseia na conversa do povo.

O barbudo [um tal Dmitri Ivanovich Mendeleiev] durante 97 dias tentou estabelecer pesos atômicos, números de prótons e outras banalidades físicas. Considerando que tal trabalho [embora apaixonante] atrasava sua famosa tabela periódica, decidiu conceder-lhe um quadrado de sua tabela [as ser melhor pesquisado] e lhe deu o nome de Amhitario. Por razões políticas [não convinha essa homenagem a uma província recém-subjugada] o governo czarista o forçou a retirar esse nome. Depois o lugar foi ocupado por uma banal homenagem ao próprio Mendeleiev, que morreu pronunciando o nome do seu querido Ahmitario [isso, é claro, pode ser mais patriótico que real].

domingo, 23 de março de 2014

23 de março

A segunda inexistência

A tese da inexistência de Amhitar foi levantada três vezes em sua história, sendo a terceira quando Lev Trotski barbicha e pince-nez declarou que tal país nunca existira, e em suas pretensas fronteiras dever-se-ia criar uma república proletária com o nome [infame] de Uzbequistão.

A segunda [e mais interessante] delas, no entanto [e que tragicamente não deixou de fornecer argumentos para a terceira] só veio a público após o falecimento [no dia de hoje no ano 1299 dos hereges (707 da Hégira)] de Alimova Rashid, filho do filho natural do cronista Abdul al-Wazahari, uma [quase] unanimidade como o patriarca dos historiadores de Amhitar.

Alimova só encontrou uma vez o avô famoso. [Não era um intelectual – apenas moldador de potes]. Lembra-se que o idoso Abdul cofiou o fio da barba e disse: Amhitar não existe. Ele é a criação de um grupo de califas e generais, que por sua vez foram imaginados por um grupo de inexistentes geógrafos e historiadores, que por sua vez são o fruto da cabeça de um só,  um rapaz solitário em país do futuro nos trópicos. E quem disse que este que nos imagina também não é a criação de sete outros? E quem lerá o que ele imaginará, Alá por acaso garantiu sua existência?

Pelo resto de sua vida Alimova teve medo - não o banal de morrer mas o de nunca ter existido. Cantou, brincou, dançou. Seu breve relato desafortunadamente foi usado para sórdidos fins políticos. 

sábado, 22 de março de 2014

22 de março

Indústria Pioneira

Spiro Inabat morreu duas vezes e a segunda [dizem com facécia e não sem crueldade] ocorreu no dia de hoje em 1960 ao enfrentar uma sessão da Academia Soviético-Proletária da Ásia Central sobre a História da Indústria Têxtil em Amhitar.

Tal tema deveria ser um chamariz de bocejos [e o foi] até que o [ainda jovem] engenheiro de operações depois de fungar duas vezes disse

Os tapetes voadores existem, ou existiram.

E atropelou olhos arregalados com tabelas de dados do século IX, escavações e restauros de gravuras mostrando gente se transportando em pedaços de pano tão naturais como em camelos. Tratava-se [disse] de uma erva que produzia linhas finíssimas, que tecidas com uma técnica especial por artesãs populares, sem o fim de lucro, tornavam o tecido tão leve que certos ventos mais fortes permitiam levar um homem, desde que não muito pesado. Tal planta e tal técnica [concluiu] por não serem lucrativas, foram esquecidas pelo reacionarismo feudal.

A firmeza conquistou alguns membros do Politburo, que de espantados passaram a defender o fato como orgulho nacional, já que Amhitar por algum tempo teve a indústria têxtil mais avançada do mundo. O fato chegou a ser celebrado em caráter oficial e só um estrilo do Comitê de Propaganda em Moscou acabou com a festa.

A Spiro ordenaram-lhe aproveitar seu talento escrevendo uma biografia de Lênin, a qual o matou de tédio, sendo esta [dizem com facécia e não sem crueldade] sua primeira [e mais cruel] morte.

sexta-feira, 21 de março de 2014

21 de março

A língua mais sincera

Por exemplo a frase  Xrohruzheyr-ol-Zhuythmyyn foi sucessivamente traduzida como:

·         Somente Deus Governa Todo o Mundo
·         O cavalo do meu avô está com lumbago
·         Vou meter na tua mulher hoje
·         O tesoureiro roubou-me três dinares
·         Sete vezes oito são cinquenta e seis.

O dialeto proto-Khazyr resistiu por sete séculos [dizem] às tentativas de entendê-lo. O professor Zamira Mavlon no dia de hoje 1891 [em palestra não isenta de críticas] afirmou ter cortado o nó:

Todas as traduções são corretas. As línguas se baseiam na cola de uma massa de sons [uma palavra] a um estado fora do homem [uma pedra, um palácio, até um sentimento – enquanto é falado, é visto como externo]. Na língua proto-Khazyr, a palavra [ou frase] significa um estado interior. O homem feliz vê um disco dourado no céu e pensa uma palavra; o homem traído pela esposa vê o mesmo e pensa outra. Assim, as palavras Ouro e Podre significam o mesmo objeto, o qual chamamos de Sol.

Isso não é incomum. Quem somos nós, a não ser projetadores no mundo de nossos estados internos? Proclamo portanto, esta língua não a melhor, mas a mais sincera!

A administração russa viu nisso um discurso protonacionalista, e os evolucionistas [então em moda] rejeitaram essa teoria que fazia algo do passado melhor que o presente. Transferido para uma escola na fronteira sudoeste, o pobre professor de gramática se dedicou a falar somente a língua proto-Khazyr. Não ficaram registros de se era entendido pelos vizinhos.

quinta-feira, 20 de março de 2014

20 de março

As mentiras do Livro

Crianças descobriram o Livro dos Milhões [dizem] quando brincavam no Amur-Daria. O tradutor russo não sem dificuldade atravessou o dialeto Bakhmar e concluiu que se tratava da viagem do Almirante Shernazar [cuja única narração conhecida era uma (quase) ridícula menção a uma ilha cheia de espelhos atribuída [não por todos] ao escrivão da frota Fahrod Feruz Shavkat [e celebrada nestas Efemérides a 8 de janeiro].

O invasor czarista General von Kaufmann agarrou a oportunidade de agradar os vencidos – em 1871 ainda caíam ruínas da invasão. Narravam viagem maravilhosa e traziam a saudade do Litoral [que Amhitar há muito perdera] Mas que recuperará, dentro da União Pan-Russa e sob nosso amado Czar – disse o General na comemoração dos dois anos da tomada da cidade, ou do Triunfo da verdadeira Fé Ortodoxa.

Um par de dias depois [na data de hoje] um panfleto anônimo [dizendo-se não político mas linguístico] afirmou que Hannirum-zu-Maalik, o título do livro, não significava aquilo. Hannirum não vinha de Hanhnir [mil vezes mil, ou ovos podres], mas de Hraanur [Falsidade, Exagero, ou Homem careca]. O relato era portanto o Livro das Mentiras. Von Kaufmann, convencido [ao que se saiba injustamente] de que o autor do panfleto fora o seu próprio tradutor, transferiu-o para as margens do rio Lena – numa punição afinal não efetivada pois o tradutor tenente Raievski tinha amizades com a aia da Czarina e conseguiu um bom posto burocrático em São Petersburgo.

quarta-feira, 19 de março de 2014

19 de março

As Planuras da Alma

Os 99 desertos de Amhitar não seriam na verdade 99. [O geógrafo soviético materialista Serguei Mikhailovitch Kovinev considerou que este número era uma insuportável analogia com os 99 nomes de Deus na tradição do Islã e propôs – baseado em tolas curvas barométricas – que seriam apenas quatro. Tal proposta – em parte por sua assustadora banalidade – não deixou de cair no esquecimento.]

Esta pode ser considerada a segunda mais acirrada discordância numérica na historiografia de Amhitar [sendo a primeira o número de concubinas do Sultão Mahmoud Al-Halim]. Já mencionado em sete relatos anteriores, o número de 99 estabeleceu-se com o texto atribuído [segundo alguns falsamente] ao andarilho Dasha Ulugbek no século XII [calendário herético], o qual a tradição diz que foi publicado hoje.

No terceiro rolo Dasha afirma que depois de 499 dias de caminhada e de subir 333 platôs o explorador deparava com

...uma planura que esmaga a alma, mais ainda, que a rouba – mais que uma planura, são 99 delas – sem pássaros nem paz nem pão.

Tal descrição, mais poética que geográfica, não deixou de ocasionar uma nota [anônima] no Almanaque da Nossa Pátria, edição de 1900, segundo a qual Dasha se referia à solidão do Homem que não resolveu seus conflitos. Tal explicação, assim como a de Kovinev, também foi logo esquecida, possivelmente também por sua banalidade, embora diversa. A Sociedade Psicanalítica do Uzbequistão procura recuperá-la, com sucesso limitado.

terça-feira, 18 de março de 2014

18 de março

A Família-Lobo

Lev Muzaffar [por vinte e três anos] agarrou dentes e unhas o sonho de enfiar seringas e rasgar pessoas com bisturis. A falência do pai então rico no dia de hoje em 1851 [estranho dia para uma efeméride, que costuma ser celebratória de coisas boas] o expulsou da Faculdade de Medicina de Dacca. Magoado com o mundo, enfiou um diploma mais barato [o de professor primário] debaixo do braço, puxou a mulher e as três filhas para Loyish, a Miserável [a menor e mais longínqua das cidades] e entre as aulas para a escola local se meteu a ouvir pessoas mais miseráveis que ele.

A Mitologia dos Leões de Oito Caudas, o Análise do Dragão de Dentes de Prata [uma variação de uma história análoga contada pelos alegres irmãos Shahlo] e dezessete outros opúsculos sobre o folclore dos pobres inundaram a pauta de duas pequenas gráficas em Delhi.

O problema avalanchou-se quando o folclorista [na cabeça do povo] de analista passou a cobrir-se de pelos [seus hábitos de reclusão ajudando muito nessa metamorfose das fofocas] a passear com uivos pela noite, e voava com asas de dragão amarelo. Suas filhas [que, devotadas ao pai, não eram muito propensas às propostas de namoro] transformaram-se em três perdizes encantadas que devoravam caçadores, depois [é claro] de sua mãe os cozinhar em panelas de sete camadas de ferro. [Uma única concessão à realidade era a de que, quando dava aulas, o professor se disfarçava de pessoa comum. O mesmo com as filhas, quando iam às compras].

segunda-feira, 17 de março de 2014

17 de março

A Jornada Cinza

Bonito dia – disse Konstantin Petrovich von Kaufmann, General, bigodes e uniforme bordado, entregando as luvas ao ajudante de ordens capitão Andrei Ilianovitch Kaissarov, recebendo uma taça de chá do pressuroso Coronel de hussardos Piotr Feodorovitch Obolenski, enquanto o delicado Tenente Nicolau Platonovitch Raievski lhe afastava a cadeira para que o chefe pudesse se sentar.

Podem começar o trabalho - disse ele enfiando o guardanapo na gola, a sua tenda na colina Akbuyra atulhada de puxa-sacos. O trabalho era convencer as pessoas daquela cidade de que deveriam se submeter ao Czar ou ir ao Céu hoje mesmo. O 3º batalhão de Novossibirski teve a honra de matar as primeiras vítimas com um tiro de canhão certeiro na torre do extremo Leste.

O ataque do exército russo teve precisão milimétrica na cidade enfraquecida e após sete vagas de infantaria e três da cavalaria cossaca, além do bombardeio com morteiros, o último sub-xeque decretou a rendição. O General von Kaufmann entrou a cavalo [dizem que olhando as unhas, embora essa versão possa ser considerada demasiado raivosa].

O dia da conquista de Shamaekhant foi ensinado às crianças como sendo O raio de Luz Civilizadora [durante o domínio czarista], A Jornada Cinza [pelo movimento nacionalista], e um exemplo da maldade do Imperialismo Russo [durante os primeiros dias do bolchevismo, embora os novos donos de poder logo se tenham lembrado que eles também eram russos, e retiraram a versão].

domingo, 16 de março de 2014

16 de março

Os Sete Subidos

Jantaremos com o Eterno... Ou ele nos almoçará!  - disse um dos monges Rosghzzifdim (ou Os Diminuítas) antes dos sete deles enfrentarem a morte sob as patas do 3º Regimento de Cavalaria Cossaca nas portas de Shmaarkaant no dia de hoje em 1869. Esse rasgo de bom humor geralmente é considerado responsável pela veneração que a pequenina seita até hoje comanda, a qual se manteve mesmo quando foi desestimulada durante o período soviético.

Na verdade não só por isso. Bertrand Russell, em adendo de 1927 ao seu Por que não sou Cristão afirma que, “Se eu tivesse religião, seria um Diminuíta de Amhitar”. A virtude deles [dizem] não foi a de começarem trabalhadores e sem dinheiro [com efeito, todas as religiões começam assim]. Sua virtude foi a de se manterem os mesmos. Trabalhavam, não esmolavam, não tinham casa, nem chefe. Quando começavam a ser venerados jogavam imundícies em cima das pessoas para ganhar sua antipatia, o que sempre conseguiam. Compreensivelmente -  apesar dos nove séculos de existência da seita - nunca foram muitos e não passavam de sete quando chegaram os russos.

Votaram: o que era maior sofrimento – enfrentar as balas ou sofrer a ocupação junto com o povo? Decidiram que o último era pior, mas levantaria suspeitas de covardia. Sorriram, deram-se as mãos e saíram dos muros.

A versão de que foram ceifados pela mesma carga de fuzilaria compete com a de que, antes que o chumbo os atingisse, o Céu os levou. O povo simples elegeu esta última.

sábado, 15 de março de 2014

15 de março

Início da [quase] idade de Ouro

Os Farathomyr [ou Fharathomyr], uma bela raça de cavaleiros, homens valentes na guerra, trabalhadores na paz, ajudados por suas mulheres sedutoras na juventude, prudentes na madureza, estabeleceram-se vindos do Nor-Noroeste e fundaram um Império cujo domínio se fundamentava na justiça, e levaram as nossas fronteiras desde o Ponto Euxino às praias do Golfo Pérsico. Foi a Idade de Ouro de Amhitar!

Durante mais de século as crianças tiveram de decorar essa frase que inicia a obra de Dilafruz Michelet previsivelmente intitulada A Idade de Ouro da Nossa Pátria. O revisionismo histórico [sempre existente] foi menos condescendente com essa fase da história amhitariana. Certo, os Farathomyr dominaram vagamente o território que seria Amhitar desde o ano 243 D.C. [uma das poucas datas precisas em época tão recuada, sendo no entanto o dia de hoje para aquele em que cruzaram o rio Syr-Daria baseado mais em tradição que em pesquisas] até o começo da domínio da estranha seita dos Khazyr, uns três séculos depois.

Os desenhos nos livros que os apresentavam belos e altos não passariam de fantasia, assim como o exagerado poder atribuído ao seu Império. Não vieram do Nor-Noroeste, seus homens não eram valentes nem trabalhadores e até sobre suas mulheres pesam suspeitas [o Monge Gelasiminius declarou que eram todas umas megeras pouco fiéis, mas a opinião de um prelado ranzinza sobre tal assunto nem sempre deve ser tomada sem alguma suspeita]. 

sexta-feira, 14 de março de 2014

14 de março

O Dia dos Múltiplos Onomásticos

A capital dos amhitares tem mil nomes [a versão de que teria 999 tendo sido há muito descartada como fruto de um excessivo amor à simetria numerológica]. As duplicações de vogais e a colocação ou subtração de consoantes mudas geraram versões poéticas [ou não] como Shamaerkhant, Samaarkand, Shmarkaent sobre as quais as escolas de linguistas e historiadores traçaram disputas em que o desejo de atingir à verdade histórica não poucas vezes se mesclou à vaidade. [O Governo de Ocupação Czarista do Turquestão Ocidental em um gesto (pretensamente) conciliatório em 1875 declarou este o Dia em que se comemorariam todos os nomes sem desigualdades. Tal ação caiu no vazio.]

Um artigo de duas colunas e meia na [semiclandestina] Gazeta de Amhitar, edição da última semana de 1892, lançou célebre versão destinada a eliminar a controvérsia [e que na verdade apenas ajuntou gasolina à fogueira]: não haveria mil nomes – e sim mil cidades. Uma delas tolamente conhecida como Samarcanda – as demais, espalhadas por oásis e beiras de rios e fundos de lagos [pois nem todas seriam cidades vivas], pelos desejos e pelas imaginações das pessoas, o que não a faria menos reais.

A beleza fantástica da versão [e o fato de seu autor/a permanecer anônimo] a fizeram a favorita dos poetas. A Liga dos Arqueólogos no entanto considerou inviável escavar por mil cidades, parte delas talvez só existente em imaginações, e descartou a hipótese por Excesso de desvario imaginativo.

quinta-feira, 13 de março de 2014

13 de março

As gêmeas guerreiras

Dasha e Zumira [dizem] com sua Horda espalharam castrações, flechadas e cobranças de tributo dos homens das tribos dos Octaedros além dos 99 Desertos. Como a maior fonte sobre elas consiste nos relatos do [considerado] maluco Sayyd Maruf Umarkhan [que visitou seu reino em viagem não desprovida de tragédia] a história das garotas ganhou a [menos que justa] fama de fantasiosa até seu resgate pelos movimentos pró-adoção e pós-estruturalistas.

Uma ursa adotou as meninas na data [arbitrária] de hoje, uma águia fêmea as mostrou o mundo, uma tigresa as ensinou a lutar. Inevitavelmente as duas [cabelos negros e afiada lança na mão] desprezaram homens e juntaram uma tribo exclusivamente feminina. Sucessivas derrotas convenceram os machos das proximidades que a submissão era o melhor caminho.

A tribo das Zhumirian [a mais morena delas deu-lhe o nome] só tratava bem seus vassalos homens por dezessete dias no ano [e o fazia por que, sem tratamento delicado, eles não conseguiriam dar o que elas precisavam]. Nove meses depois elas devolviam os meninos. Quanto às meninas, ensinavam-lhes a flechar.

As gêmeas inevitavelmente brigaram e estabeleceram tribos paralelas, não sem rivalidade. Depois previsivelmente não morreram, viraram constelações celestes - segundo a Enciclopédia das Massas Trabalhadoras, que se apressa a acrescentar que mais que rivalidades de gênero, o que importa é a luta de classes e a derrubada da opressão capitalista.

quarta-feira, 12 de março de 2014

12 de março

A inscrição esquecida

Fantasmas habitam todos os desertos – essa frase tão axiomática quanto discutível previsivelmente também habita o Boletim de 1894 [na data de hoje] da romântica Academia de Ciências de Amhitar. Eles a utilizaram para introduzir as narrativas das vozes ouvidas pelos caravaneiros na planície de Aqtöbe. [Iusya Marzhaffar descontrói essas histórias como mitos criados pelo medo. Java Kharlilah no seu Os Grandiloquentes Heróis não se mostra tão seguro e chega a mencionar três bandoleiros do tipo Robin Hood que seriam os responsáveis pelas aparições fantasmagóricas.]

Além de histórias de gente perdida no deserto, dos tais fantasmas só resta parte de uma inscrição talhada em abeto e conservada no museu da cidade traidora de Tashkent – uma variação de um subdialeto Bakhmar que o poliglota Gulhayo Mansur [discípulo do semilendário Abdullaeva Behruz] traduziu como

Solitário, desesperado, farei na minha fraqueza o que os fortes não fazem.

Essa frase compreensivelmente saiu de vetustos círculos de intelectuais e ganhou as cantigas de ninar – babás ameaçavam crianças com esse estranho monstro se não dormissem logo. Talvez pelo conteúdo depressivo – fantasmas maus podem aterrorizar, mas quem se importa por um ser sobrenatural que tem pensamentos tão confusos e que podem ter [vaga] conotação inconformista? – essa inscrição esquecida na ala antropológica simbolize a comemoração talvez mais fraca das efemérides de Amhitar.

terça-feira, 11 de março de 2014

11 de março

A Estátua

Relatos de caravaneiros desde o século V mencionam o Prodígio do oásis de Zarafshan. As estátuas eram feitas para se parecer com deuses ou generais. Naquela, a pessoa que a olhava se reconhecia a si mesma. Essa Estátua sou eu! Era o grito mais comum. Moças adolescentes, velhos perto de conhecer os bisnetos, bandidos, mercadores, colhedores de água em poços – cinco minutos de recolhida contemplação e aquela massa de pedra marmórea parecia se moldar – o nariz, a boca, os olhos, os desvios na coluna, as rugas, os sofrimentos, os desejos de loteria ou cura – tudo do contemplador estava ali.

Isso não necessariamente trouxe benefícios a Oksana Abumalik. O artesão tornado escultor teve de responder a julgamentos perante o Xamã e a sete Conselhos de anciãos, desde a de se ocultar para utilizar pessoas como modelo sem sua autorização até a de escapar dos trâmites estabelecidos de fazer arte.

Escapou de todas – até que inevitavelmente veio a alegação de conluio com poderes negativos. Somente o Mal Personalizado poderia realizar um prodígio daqueles. Oksana fugiu para o Ponto Euxino [a Enciclopédia da Ásia Central sem citar fontes estabelece o dia de hoje como data de sua fuga]. Sua obra teve menos sorte. Quebrada em quatrocentos e nove pedaços rigorosamente contados foi jogada no segundo ponto mais fundo do Balkash. Sobrou seu olho esquerdo [dizem] que parecia sorrir e piscar para todos os que olhavam [e fugiam espavoridos]. Esse detalhe quedou como lenda.

segunda-feira, 10 de março de 2014

10 de março

Bonaparte em Amhitar

Napoleão [dizem] pensou em invadir Amhitar. O fato conta na página 49 do Napoleão 1812 do britânico Nigel Nicolson, e mais nobremente, nos dois volumes do Guerra e Paz de Tolstoi, sendo esta uma das duas únicas menções a Amhitar na grandiosa obra do russo [a outra estando nas páginas finais de Anna Karênina]. [O historiador Iusya Marzhaffar se revolta que este não-acontecimento – afinal, Napoleão nunca esteve em Amhitar – conste entre as efemérides do país. Mas a 13ª sessão solene da Academia Soviético-Proletária da Ásia Central [temporada de 1943] considerou tal fato digno de ser recordado, e o encaixou entre as datas do país.

A data de hoje se refere ao dia [aproximado] previsto nos planos do Estado-Maior Napoleônico no qual a cavalaria do Marechal Murat deveria cercar a cidade sagrada de Shmaerkaant, a qual, segundo os sempre hiperotimistas cálculos franceses, deveria se render sem disparar um tiro. [A invasão de Amhitar seria mais um passo no caminho da megalomania: ao invadir a Rússia em junho de 1812, o baixinho tinha planos de, depois de esmigalhado o Czar, seguir adiante até a Índia.] Nicolson se refere aos mapas que os puxa-sacos de sempre levavam, da Turquia, do Império de Amhitar e do Punjab. Não consta que Napoleão desse grande importância a Amhitar ou a qualquer coisa ou pessoa além de si mesmo. Mas havia rumores de que já havia reservado a coroa do país a mais um de sua miríade de cunhados, todos sem nenhuma classe.

domingo, 9 de março de 2014

09 de Março

Os homens do espaço

A última e talvez mais tonitruada aparição pública do antropólogo Dr. Ilhom Aziza o Homem Urso – já que nos muitos anos em que vivera no Deserto Norte os pelos lhe tinham crescido como selva - se deu nos últimos sete dias de sua vida [no espaço conhecido] durante a chamada controvérsia de Shamanay.

Por cinco vezes a cidade com esse nome reconstruiu seus muros – e por cinco séculos os estudiosos cavoucaram as margens do Amur e do Syr-Daria em sua busca. Outra subcorrente afirmava que as destruições e construções não passaram de 3, outra que o número era de 99, e outra inevitavelmente afirmava que nunca existiu uma cidade com esse nome, mas apenas uma aldeiazinha de bloquinhos de barro para o filho do Vizir brincar.

Ilhom Aziza levantou-se em palestra no dia de hoje.  As tribos do Norte [disse] não têm noção de tempo mas de espaço. Não é que as coisas deixem de acontecer, mas elas se deslocam. Teu avô não está morto – disse ele –apenas mora em outro lugar, e tu é que não o amas, senão o procurarias. Assim, a cidade, se existiu, foi apenas uma. As outras quatro [ou mais] seriam apenas outra forma de relatar a fundação das demais cidades de Amhitar.

Três sodalícios rejeitaram tal explicação por sua falta de charme. Um estilhaço de bala russo – o general von Kaufmann  já cercava a cidade - levou o Dr. Ihom para o Norte celestial. No seu invencível otimismo deixou um bilhete – não morri, apenas me desloquei.

sábado, 8 de março de 2014

08 de Março

Viajantes do tempo

Raeka não tinha esse nome [ou provavelmente o tinha, sendo um do número indefinido de suas reaparições] e teria passado em branco na história se não a tivesse encontrado hoje em 1911 num beco na cidade maldita de Tashkent a talentosa [e então jovem] professora Sabina Shernazar [a qual já escrevera em jornal que A mulher é quase igual ao homem, o que então marcava ousadia em excesso].

Raeka aparentava nove anos, talvez dez. Sabina deu-lhe café, três bolinhos e duas fitas para o cabelo e já tinha decidido adotar a garota de cabelos quase-claros quando esta lhe contou que viera do século III, da cidade de Antioquia. Tomou mais um faminto gole e disse que antes, viera das margens do Lago Tanganika, em 1888. E anteriormente, da Palestina, pouco depois daquele rabino judeu ser executado, o tal Jesus Cristo.

Os olhos da professora grelavam enquanto a garota revelava um grupo de Viajantes, gente que é transportada no tempo sem nenhum controle. Sem saber se brincava, Sabina falou Deve ser maravilhoso viajar no tempo. A menina: É terrível. Sempre existi, não sei de onde vim nem se vou estar aqui em um minuto.

No próximo minuto ainda estava lá mas em três meses a professora, quando se voltou, a garota sumira. Sabina escreveu um opúsculo A Confraria dos Viajantes do Tempo. Tal obra gerou falatório quando quatro anos depois a própria Sabina sumiu, presumivelmente [dizem os amantes de mistérios] para encontrar a filha adotiva, sabe Deus quando.

sexta-feira, 7 de março de 2014

07 de Março

O Protodetetive

Sioran Munisa [se detetive for considerado] é obviamente o pioneiro – no século XV Sherlock Holmes não sonhava em existir.  Em 11 do mês Dhu'l-Qa'dah da Hégira [7 de março dos hereges] pregou placa dizendo-se o Achador. [Em Shmharkhmant a Rota da Seda cruzava com o Itinerário das Pepitas e a população metadeava de prostitutas e profissionais do contrabando, com um restinho de gente decente].

Sua história [guardada em dois relatórios do sub-Grão-Vizir, um deles quase intacto] provocaria hoje bocejos: a beleza estonteante morena de uma esposa de receptador de safiras o procurou – seu marido desaparecera. Ela, pobre garota, queria achar o gordo rico velho chato.

Humphrey Bogart nunca escorregaria nessa [afirma não sem sarcasmo a Revista de Cinema de Amhitar em artigo sem indicação de autor em 1952] mas Sioran não tinha exemplos anteriores para guiá-lo. Sofreu três espancamentos, uma rasteira num abismo e dois quase afogamentos no rio Syr-Daria antes de descobrir que a fonte de todos os afagos era a cliente – que queria que o detetive a livrasse do marido [e depois ela se livraria do primeiro].

Sioran resolveu o caso. A partir daí em outros achamentos entre dois tragos de cachimbo repetia sempre que Nenhuma mulher tem o valor de uma verdadeira amizade. A Revista [talvez por ser financiada pelo Comitê Central do Partido] apressa-se em esclarecer que, Apesar disso, o protodetetive Sioran permanece como um símbolo da masculinidade da Nossa Eterna Pátria.

quinta-feira, 6 de março de 2014

06 de Março

O caminho em fragmentos

O poeta Jakhongir do século XII ou XIII dos hereges narrou sobre antigo caminho que ligava os dois rios Daria. As oito partes [ou estrofes agigantadas] do poema revelam que um Xamã atribuiu a espíritos a ordem de amaciar a passagem dos camelos [a Enciclopédia das Massas Trabalhadoras diz que o ardiloso Xamã pensava em comércio, mas como a noção de economia ainda não nascera precisou criar lendas – uma noção hoje fortemente combatida]. Para não desanimar os trabalhadores com o esforço dividiu a estrada em pedaços. Cada pedaço ao ser terminado motivava festas. Depois os homens iam para longe e concluíam outro.

Resultou uma estrada de oito partes desconectadas [portanto inúteis], que as invasões dos bárbaros da Horda de Ouro se encarregaram de submergir com areia e esqueletos. A falta de documentação não permite afirmar se foi a inutilidade do trabalho que motivou o assassinato do Xamã com um suco de pêssegos supostamente envenenado.

A escola romântica de história levantou na data de hoje em 1893 a curiosa hipótese de que a estrada não existiu – seria uma [para eles] bela epopeia, confirmada pela pouco provável coincidência entre partes concluídas e estrofes sobreviventes [oito]. A Enciclopédia das Massas Trabalhadoras compreensivelmente condena tal noção, e aponta 666 tijolos encontrados à beira da ferrovia de Shalkar como prova da existência do antigo caminho – advertindo no entanto contra qualquer explicação religiosa desse número.

quarta-feira, 5 de março de 2014

05 de Março

A vergonhosa Engenharia

Quis o destino [mas o destino não existe] que após sete anos de escavações o relatório sobre A História da Engenharia em Amhitar fosse entregue na data de hoje em 1945, quando o Exército Vermelho [com muitos amhitarianos nele engajados na marra] forçava a entrada em Berlim e o mundo regurgitava patriotismos. O Engenheiro Stephen Dilobar subiu na tribuna da Academia Soviético-Proletária, o correspondente do Pravda de Moscou e o sub-secretário-geral do Partido em riste:

Outros povos construíram Esfinges. Outros, o Taj Mahal. A primeira obra de engenharia em Amhitar foi uma latrina.

E seguiu inexorável relatando como as escavações na antiga cidadela de Aktash revelaram um conjunto de banheiros com dutos de impecável argila levando os dejetos para longe dos olhos [e narizes] humanos. 
Continuou:

Por tal obra, o povo amhitariano deve ser considerado maior que os Egípcios e os Hindus, os Gregos e todos os demais. Pois, o que é mais útil, uma pirâmide ou um cano de esgoto?

Stephen Dilobar [já suspeito por seu prenome ocidental] só via eficiências engenheirísticas e para ele um tijolo era mais importante que a Bíblia. O Politburo do Partido, no entanto, considerou vergonhosa sua descoberta.

No dia seguinte foi transferido para uma distante hidrelétrica às margens do rio Lena. Transferido mais não vencido, escreveu uma História dos Dejetos no Antigo Turquestão, durante muito tempo só disponível em cópias clandestinas mimeo a álcool.

terça-feira, 4 de março de 2014

04 de Março

O Enciclopedista dos Bichos

O Dicionário Completo dos Animais de Amhitar ainda hoje permeia todos os trabalhos [minimamente sérios] de zoologia e entomologia da região a oeste do Cáspio. Malgrado isso, Yuliya Rahman não disfarçava [ao contrário, fazia o melhor para deixar claro] o seu mau-humor na palestra de sua publicação, no dia de hoje no ano de 1901. Os animais, para ele, eram matéria inferior.

O filósofo-feito-zoólogo se dizia Humanista - para ser exato, o único Humanista do Mundo [dois artigos publicados no Figaro e um ensaio na Revista dos Dois Mundos – sob pseudônimo - em Paris davam segundo ele certo respaldo a tal grandiloquência]. Abraçando uma interpretação peculiar da Origem das Espécies de Darwin concluiu que, se a evolução existe, e se a espécie humana é a mais evoluída, todas as outras deveriam ter cessado de existir, por serem anacronismos da natureza.

O óbvio beco-sem-saída biológico a que isso levaria não deixou de ser discutido em sete sessões na Academia de Ciências. Apesar de odiar bichos, Yuliya dedicou metade da vida a caçá-los em tocas, prendê-los em redes e levar ferroadas dos ditos. [E também a cortá-los em pedaços, arrancar-lhes as peles e cortar-lhes os olhos, diziam seus detratores].

Dizia que seu trabalho era na verdade historiográfico, pois os bichos em breve seriam passado. Quando ao fato de se dedicar tanto ao que detestava, bradava que essa era uma das incoerências que Evolução no seu curso inexorável se encarregaria de pulverizar.

segunda-feira, 3 de março de 2014

03 de Março

A frase solitária

Das três inscrições encontradas na sétima [e última] caverna na borda do lago Sarygamysh, Abdullaeva Behruz traduziu [com rapidez e não sem desprezo] duas delas, na verdade meras obscenidades; quanto à terceira, ele decidiu ser muito terrível para sua tradução ser revelada a olhos mortais. [É claro que esse mistério apenas acrescentou interesse a algumas dúzias de rabiscos entalhados na pedra].

O maior dos linguistas de Amhitar morreu em 1798 [1213 da Hégira] com a pouco provável idade de 111 anos [diz a lenda], e na sua maçaroca de papel escritos em alfabetos que só ele entendia os pesquisadores [e caça-tesouros] buscaram a tradução, a qual [descoberta hoje em 1831] se revelou uma tanto enigmática quanto decepcionante frase

Não culparei ninguém por uma ilusão que é só minha

e que gerou uma polêmica de décadas. Disseram uns que era uma advertência de seitas mágicas que usavam drogas para provocar alucinações; outros, que era um aviso [talvez demasiado poético] que caravaneiros escreviam uns aos outros sobre as miragens do deserto.  

Décadas depois a poetisa adolescente Iroshka Maruf em seu pequeno livro de sonetos O Dicionário das Delicadezas escreveu que tal frase seria apenas o desabafo de um jovem por seu amor não correspondido. Quanto à advertência do vetusto Abdullaeva, a poetisa disse que ele estava certo, o amor é mesmo algo terrível - escreveu em um admirável soneto. Talvez por sua simplicidade foi essa versão que ficou para o povo.

domingo, 2 de março de 2014

02 de Março

As gargantas e a pedra

Trinta tempestades mágicas em sequencia criaram as três gargantas pedregosas chamadas Dilshoda [diziam, e depois deixaram de dizer]. A primeira vaga de pensamento racionalista em Amhitar [ocorrida no século XIV dos hereges, muito antes do Ocidente] destruiu essa lenda com a beleza esfumaçada de todas as lendas. Tais gargantas, diziam os sóbrios filósofos, não existiam.

Livres do constrangimento do chamado mundo real [com sua beleza esfumaçada] as canções de ninar e as histórias de botequim por cinco séculos encheram esses inexistentes vales de pedra de palácios de ametista, Cinderelas virgens, guerreiros de lança e velhos sábios com barba de quatro quilômetros e meio [sem que nenhum folclorista jamais soubesse a causa de tamanha precisão].

Uma caravana perdida [e semimorta de sede] chegou a Shhmaerkant no dia de hoje em 1868 com a notícia de que os lendários desfiladeiros não eram lendários. [A razão de sua não-descoberta é que todos os procuravam nas montanhas do Sul, quando se encontravam perto da bacia Garabogazköl, no Oeste.] Essa descoberta [e as expedições arqueológicas que se seguiram] transformaram as mágicas escarpas em um tolo lugarejo seco e sem graça, habitado por duas aldeias sujas das quais nem o folclore possuía alguma beleza. Ao saber que suas histórias de ninar eram fantasias, o menino [e futuro historiador radical] Iusya Marzhaffar escreveu em seu diário que hoje eu descobri que nenhuma lenda existe, e só a pedra é real.

sábado, 1 de março de 2014

01 de Março

Os Dois desertos e a única floresta

Abdul Al-Wazahari bradou na décima-sétima [e a segunda mais estranha] de suas Crônicas que no dia de hoje [15 de Muharram da Hégira] três homens tiveram ao mesmo tempo três sonhos cada. [O fato de nenhum dos três lembrar nada dos dois primeiros sonhos e do cronista não registrar o ano em que tal acontecimento se deu em nada aumenta a credibilidade de sua história.] No terceiro dos sonhos, um Fhiurzzim [equivalente ao gênio das Arábias] mostrava sucessivamente um descampado com alguns pedregulhos; um capinzal com arbustos que não passavam de um palmo; e uma selva tão  fechada que os povos que viviam no chão não tinham nenhuma ´tradução para a frase “luz do sol”, pois não a conheciam.

[Como costuma acontece em tais sonhos] uma voz se ergueu – disse que Amhitar fora e seria todas essas fases – e cabia aos homens descobrir quando e em qual ordem – e então cada um dos homens acordou.

Tal relato teria ficado como um delírio do grande cronista se seis séculos depois Ramsheed-Barumi-N´gaar, um francês batizado de Augustin de Saint-Hilaire, não a tivesse levado surpreendentemente a sério. Durante duzentos dias [e levado por sua energia juvenil] teria cavoucado o solo do Amur-Daria atrás de fósseis de grandes árvores. Não as encontrando, interpretou as crônicas ao reverso e concluiu que a floresta se situava exatamente do outro lado do mundo, e foi buscá-la. Dizem que a encontrou, embora tal afirmação não seja incontroversa.