sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

29 de Fevereiro

Vacas não-sagradas

Não são poucos [e também não são justos, segundo os amhitarianos] aqueles que acusam o povo do país de indolência. [Estas Efemérides (inexplicavelmente) celebram um deles o (curiosamente não muito vivaz) inglês John Hopley Nelligan, a 14 de novembro]. A acusação de Nelligan [que sequer foi original – consta de viajantes hindus do século XIV] oscilava entre tachar o povo de tolo e de cego, e tal invectiva se fundamentava em um só fato: os amhitarianos [caso inexplicável para um inglês] não comiam suas vacas.

[Assim como os hindus, poder-se-ia dizer]. Mas o povo da Península considerava sagrados os animais de grandes úberes. Quanto aos amhitarianos, eles as ignoravam. Previsivelmente circulavam entre as tendas das feiras mas não só – Nelligan [não sem horror] registrou a passagem de uma vaca pelo palácio de certo paxá [deixando suas lembranças por lá, coletadas por serviçais com ar distraído de quem nada faz]. Restava o mistério da produção de queijo, explicado pelos viajantes através do leite das cabras [que não eram ignoradas] e porque os pobres bichos eram ordenhados quando o leite era tanto que ardia de dor.

A explicação talvez venha de certa subseita [da cidade de Khatlon a Melancólica e há muito extinta] que as considerava portadoras do mal [sendo o leite uma triste compensação por isso, que os homens de qualquer forma aproveitavam]. O que gerou aos amhitarianos outra acusação, a de serem pouco gratos – não menos injusta.

28 de Fevereiro

O estranho povo

Os Zhamyares vieram por volta do século VII das planuras do leste [segundo os tradicionalistas], ou dos pântanos do oeste [diz o pensamento mais novo]. As quatro únicas esferas de pedra que deixaram [traduzidas não sem algum mistério no dia de hoje em 1744 pelo linguista Abdullaeva Behruz – segundo ele, sua língua era uma distorção ilógica (e por isso fascinante) de um dos 199 dialetos Khazyr] deixam claro o reducionismo do apelido que a eles foi dado, de o estranho povo.

Uma das esferas fala de arte militar. Nas guerras dos Zhamyares, os generais vencedores recebiam tudo do melhor e do bom, os licores mais finos, os suflês mais suaves e as cortesãs de pele mais macia – e depois tinham sua cabeça cortada em praça pública. [Eram substituídos por outros que depois de vencedores tinham o mesmo destino – se perdedores, o próprio inimigo se encarregaria de matá-los.]

Sua lógica era [embora longe de ser consensual] impecável – generais vivem de mandar homens para a morte. Nada mais natural que eles mesmos morram também. O contrário seria injusto. Ao argumento de que os melhores generais deviam ser poupados os Zhamyares diziam que nada é mais fácil que ser chefe – é só não se importar com a morte dos outros.

Em pequeno pós-escrito o linguista acrescentou não sem malícia que os testemunhos do povo Zhamyar foram compreensivelmente destruídos por ordens de reis, xeques e generais – por isso restaram tão poucos.

Os pouquíssimos testemunhos que deixaram [e que permitem precisar frouxamente sua presença entre os anos 340 e 415 d.C.] valeram a eles a qualificação de estranho povo Zhamyar

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

27 de Fevereiro

A Sobriedade da Libertinagem

Breanna Oygul subiu ao palco. [O segundo número do Boletim da Academia Soviético-Proletária descreveu não sem constrangimento a cena acontecida naquele confuso 1919, talvez com mais sobriedade do que o real]. Cabelo puxado para trás, óculos largos e vestido escuro até o tornozelo - e acompanhada de outras vestidas mais ou menos do mesmo – a figura da jovem de vinte e seis anos trocava choques com o tema de sua palestra: Da completa liberdade da mulher, e da necessidade de toda mulher ou moça de ter o maior número possível de parceiros para ser feliz. Citando fontes anônimas o Boletim informa que na alocução não se ouvia um riso – a postura da palestrante esmagou qualquer vergonhinha.

Após o discurso fundamentado em estudos médicos e filósofos clássicos a moça convidou a todos a viverem a prática libertária – e sua mão desfazendo os botões foi o sinal. Durante três quatros de hora [e então parece transpirar o contido entusiasmo dos redatores do Boletim] mulheres e homens, velhos e jovens, nem todos modelos de foto, realizaram o ritual de completa libertação da sociedade patriarcal que ameaça destruir a mulher e o mundo. Depois todos se vestiram e a palestrante retomou sua postura sóbria e deixou claro que aquilo era um manifesto político, não uma demonstração de irresponsabilidade.

Há poucas dúvidas de que o fato ocorreu – apenas – e pouco explicavelmente – não há muitos que escrevam sobre ele.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

26 de Fevereiro

Fundação dos Vencidos

A Confraria Lítero-Funerária dos Vencidos da Vida detonou seu primeiro velório [é como eles denominavam suas reuniões], constando de contagem das vítimas [lista de chamada dos confrades], orações fúnebres [leitura de poemas e contos e breves ensaios] e última refeição dos condenados [um pequeno coquetel com licores e doces e salgadinhos] neste dia em 1888, data que eles se recusaram a traduzir em outros calendários, levando às [quase] costumeiras acusações de ocidentalismo.

Os jovens escritores [casacas, cartolas, coletes e pó escurecido abaixo dos olhos para acentuar o cansaço existencial] bradavam ser herdeiros dos dois Byrons, o falso (de certo país ilhéu) e de Byron Jasur, poeta já falecido que não negava que seu pseudônimo era homenagem ao outro. A poesia dos rapazes [acusada pelos bolcheviques de ser sintoma da decadência burguesa e pelos tradicionalistas de vilipendiar o Espírito da Pátria] foi criticada como sendo em todo o mundo a mais densa em menções a ataúdes, tumbas, coveiros, caveiras, alívio da morte, despedidas desse mundo vil e alegre partida para o pó.

Apesar de todo esse funebrismo os Vencidos da Vida conseguiam vencer algo, a resistência das moças. Suas festas [todos vestidos de decepcionados e ansiando pela morte] permitiam continuações nas quais uma ou outra peça de roupa feminina ficava esquecida no chão. [Talvez] invejosos os acusavam de embusteiros que só queriam garotas.

Retrucavam lendo poemas sobre esqueletos.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

25 de Fevereiro

Passagem à clandestinidade da Academia de Ciências de Amhitar

Os últimos membros da Academia de Ciências de Amhitar com orgulho (ou com a audácia do desespero) tomaram suas duas últimas atitudes – uma a publicação da biografia e obras completas do vidraceiro Zulfizar Oygul – e a outra uma moção afirmando que Para sempre Amhitar será ela mesma, jamais submergindo sob o nome  rasteiro de Uzbequistão. Essa última foi votada quando as botas dos oficiais da polícia política soviética, a NKVD, já se juntavam nos caminhões fabricados na Bielo-Rússia para fechar à força o velho sodalício.

O Relatório do Comitê Central do Partido Comunista Soviético na República do Uzbequistão daquele 1933 afirma que a Academia era um antro de burgueses capitalistas, o que estava longe de retratar a realidade daqueles professores e poetas com poucos rublos no bolso. A Academia apenas defendia um passado misterioso e sedutor. (Dilafruz Michelet a criou em 1872 - o poeta da história, acusado de entupir Amhitar com mais heroísmos e histórias de amor que qualquer outro país). O crime dos Acadêmicos foi o de amar o passado quando o Partido o via como um degrau que se pisa visando o futuro.

O novo Poder fundou a Academia Soviético-Proletária da Ásia Central quarenta dias depois. Seu presidente o geógrafo marxista Serguei Kovinev teve a coragem de render homenagem aos tresloucados porém belos acadêmicos de Amhitar e teve de se explicar perante o Comitê Central.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

24 de Fevereiro

O dia das três raças

Diz a história que três reis [antigamente se diziam que eram magos, mas críticas de que a história era muito parecida com outra, em voga no Oriente Médio, apagou a sua profissão], em ano indefinido visitaram o que era então um deserto. Uma mulher em trabalho de parto os esperava numa caverna. Os reis [dos quais a multiplicidade de versões dos nomes tira a credibilidade de todas] lhes deram presentes, água, amêndoas e [inevitavelmente] ouro e foram embora.

Da China viera um dos reis. O outro da longínqua planície do Hindustão. O terceiro fizera longa viagem das margens do mar Cáspio, do reino dos Colchos, embora a própria história diga que ele simboliza todos os povos ao poente. E a criança, por ter nascido em um território vazio entre três povos sem nada em comum seria o primeiro amhitariano. O qual inevitavelmente tem um nome simbólico, Murbek, que no dialeto Bakhmar significa Pioneiro.

De tão combatida essa história pelos intelectuais, queda quase inexplicável que o dia de hoje [dia zero do mês Hoxxthur, de acordo com o ilógico calendário Khazyr] continue fazendo parte da lista de efemérides de Amhitar. A Enciclopédia Soviético-Proletária da Ásia Central, edição de 1966, elaborada pela Academia do mesmo nome, explica tal fato como uma reminiscência de um domínio feudal, o qual o próprio progresso da Revolução tratará de apagar.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

23 de Fevereiro

Descoberta da cidade-flor

As cidades [até então perdidas] de Sahel-al-Nikkumir foram descobertas [às custas de não poucas mortes de escavadores tragados pela malária, lama movediça e bandoleiros] para supremo azar dos seus descobridores no dia de hoje em 1875 poucos dias depois de Heinrich Schliemann [não sem estardalhaço] publicar a descoberta das ruínas de Troia. Hipnotizados pelas estripulias de Ulisses, Heitor e Helena, os jornais de Paris e Berlim pouca importância deram a um longínquo achado arqueológico só tornado possível por uma super-seca num lago na planície de Aqtöbe.

Como Troia, Nikkumir foi construída e reconstruída, no seu caso onze vezes. Ao contrário da cidade grega, ela o foi sempre do mesmo material, o barro. Só que por razões inexplicáveis [uma lacuna que a Escola Romântica de historiografia tentou preencher sem sucesso] a cada vez o barro era embebido não em agua mas em perfume – uma das cidades cheirava a madressilva, outra a gerânios, outra a uma infusão de hortênsias e margaridas.

Velhos testemunhos [o último deles é um rolo de pergaminho datado do século XVI] dizem que havia especialistas em descobrir em qual dos bairros se percebia mais o odor de épocas anteriores. O aumento das águas do lago teria sufocado a cidade, seu maravilhoso aroma - e dispersado seus curiosos habitantes. O escritor materialista Serguei Kovinev, em uma rara concessão à delicadeza, diz que se trata de uma bela história. Nega-se no entanto a confirmá-la.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

22 de Fevereiro

O homem treze iguais

Aybez Mohidil nasceu treze vezes, um delas hoje. [A história de que trocou cartas com Azuz-il-Dalakkirim, ou Hippolyte Léon Denizard Rivail, ou Allan Kardec é apócrifa – viveu um par de séculos antes do francês, e Zulfikar MaKahardec (ou Makerdekk), o precursor da doutrina dos espíritos em Amhitar, ainda nem sonhava em nascer ou encarnar-se].

Aybez dizia que além daquele Aybez havia mais doze dos quais apenas uns dois ou três ele tinha ideia de onde estavam – cada pessoa tem várias vidas e todas ao mesmo tempo, e nem todas humanas. Ele era velho em Amhitar, cabelereira na margem do lago Malawi, rato de esgoto em Hugduzzim (Paris) e mosca provavelmente em alguma palmeira na selva do rio Beni.

Tal doutrina teve um curioso desenvolvimento político – se não sei quem mais eu sou não devo matar ninguém, pois posso matando a mim mesmo. Essa piedosa noção só causaria sentimentos simpáticos – se o Califa de Smaarkanth não estivesse tomado por uma de suas periódicas fomes de mais poder e não planejasse uma guerra para expandir seu domínio.

Condenado como pacifista e temendo que o Califa pudesse ser ele mesmo, Aybez não resistiu à prisão e uma de suas treze vidas se extinguiu em poucos dias. Seus adeptos Simultaneístas  retiraram-se às montanhas do Norte, onde se dedicaram a estudos sobre tudo o que acontece ao mesmo tempo. As treze versões (nem todas alegres nem todas tristes) do que aconteceu com eles parecem confirmar as doutrinas do seu mestre.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

21 de Fevereiro

O astro reencarnado

O Planeta Dolphir [dizem] aproximou-se cinco vezes da Terra. [O fato de todas as aparições se darem em território amhitariano e de tal corpo celeste ser desconhecido em outras astronomias certamente conspira contra sua credibilidade.] A data de hoje [na verdade 7 do mês Shalwal] marca não a primeira mas a quarta [compreensível, se lembrarmos que aconteceu em 1801, a primeira na era das lunetas].

Uma tradição tão antiga quanto discutível [os astrônomos do Observatório Nacional de Tashkent sorriem quando alguma senhora idosa a menciona] afirma que a primeira se deu sobre o deserto de Aqtöbe [que há muito não é parte de Amhitar apesar de algumas reivindicações nacionalistas]. Mais que aparição foi um toque: uma enorme bola redonda teria tocado a planície [faceciosamente isso é conhecido como Teoria do Beijo Interplanetário] e retornado ao teto celestial. Esta manifestação [em data incerta] foi seguida de outras em 799 e 1522, e fechado pela de 1856, já com testemunhas críveis mas que infelizmente não tinham meios de fotografá-lo apesar de os daguerreotipos já existirem.

O que é incerto [assim como o que é certo] gera lendas. A menos crível [e mais difundida] coloca Dolphir como um planeta-prisão, de gatunos do espaço sideral, eternamente a zanzar [sem lógica nenhuma] pelo Nada. Isso explicaria a irregularidade de suas aparições. Uma Escola mais materialista pretende que seja um cometa. Aguardam uma sexta vinda para confirmar tal hipótese.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

20 de Fevereiro

O não-traidor e o quase-herói

Sador, o sábio [ou Sador, o biltre] venceu, para glória de Amhitar [ou traiu, para vergonha desse reino] os cento e quinze mil bebedores de sangue de Tamerlão, o Tártaro [ou os duzentos mil quebradores de ossos da Horda de Ouro; a primeira versão, antes achincalhada, agora foi imposta como verdade] hoje em 1404 [ou a 21 de setembro de 1395; a data de 30 de junho de 1511 foi carimbada como apócrifa].

Esse heroico feito [até 1920 considerado ato de vil covardia] consistiu em, armado de uma espada [ou coberto com uma capa escura], avançando em pleno sol em campo aberto [ou protegido pela noite rastejando até o campo inimigo], pensando apenas na Pátria [ou tendo cólicas de tanto medo] ter cortado sete cabeças [ou ter se oferecido para abrir os portões da cidade] assim inspirando os até então amedrontados soldados de Amhitar [ou ter possibilitado que o inimigo, então enfraquecido, pudesse massacrar a cidade] e assim conquistando grande vitória [ou assim ter feito sua pátria cair na escravidão].

O fato de as duas histórias serem completamente diferenças as tornou ainda mais verossímeis. De acordo com a situação política a Sador se erigem estátuas como jovem sensual ou velho corcunda. A breve ditadura do General Chavkat estabeleceu seu heroísmo. O atual governo tem ordem secreta para enviar ao fundo do rio Syr-Daria todo celerado que duvidar da existência de Sador, do qual o Presidente Karimov é a reinterpretação.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

19 de Fevereiro

A descoberta do múltiplo rio

Nove expedições desceram o rio Syr-Daria [este é o número da tradição, assinalado também na enciclopédia da Academia Soviético-Proletária da Ásia Central; o monge Gelasiminius duvida de duas, diminuindo o número para sete; Abdul Al-Wazahari – a quem o assunto visivelmente desagrada – diz que não houve nenhuma, embora – é claro – todos esses cronistas escrevam em épocas diferentes.]

Afirma o monge que a primeira expedição [à qual a tradição turcomana atribui a data inicial de 16 de Sha´ban, ou 19 de fevereiro] se compunha de barbados idosos, decididos a não morrer antes de cometer um feito heroico e nisso foram satisfeitos, pois as corredeiras do ramo montanhoso afogaram todos menos um. Agrega o prudente eclesiástico que sua versão, por ser de um só, é menos que confiável. A Academia diz que não havia corredeiras, os exploradores eram jovens, apenas três morreram de malária e o resto de velhice. Acrescenta que esta é apenas uma das variantes quanto à geografia do rio. Em uma, o rio tem sete cachoeiras, uma a tocar o céu, e as exploradoras eram mulheres. Noutra, o rio é plano e atravessa um deserto de pedras e outro de areia, e silencia quanto aos marinheiros.

Al-Wazahari pretende resolver a questão. Syr-Daria é apenas um nome [eventualmente conferido a um rio específico]. Mas, naquela época, desde riachinhos até golfos recebiam esse nome. Por isso todas essas histórias podem ser ao mesmo tempo verdadeiras, e portanto nenhuma o ser.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

18 de Fevereiro

O dia do Hoje-tem-espetáculo

Não foi nenhum erudito historiador ou aposentado malabarista querendo nobilitar seu meio-de-vida que fixou o dia 71 de Morhaxxor [no calendário Khazyr] como o dia em que se comemoram saltimbancos, mágicos, mulheres barbadas, enfim o espetáculo do circo em Amhitar [esta data foi tradicional e inexplicavelmente traduzida para 18 de fevereiro dos hereges – inexplicavelmente pois o calendário Khazyr não tinha datas fixas]. A fixação resultou de um poema da doce Nargiza Donisheva, a qual, deixando de lado seus [quase] másculos poemas sobre antigas civilizações de Amhitar, rabiscou três dúzias de estrofes sobre um dia de longínqua menina em que seus pais a levaram a um reino de céu de panos grossos cobrindo o tumulto das impossibilidades.

Nesse reino, o verossímil se tornava inaceitável, e o improvável, muito real – homens venciam lutas com leões; garotas se dependuravam em fios mais finos que linha de seda; ovos surgiam e desapareciam de chapéus; e homens com tintas na cara berravam com voz de ganso coisas em que não existia nenhum pingo do que não fosse alegria.

As últimas sete linhas do poema, talvez tão enigmáticas como o resto, pretendem afirmar que Nargiza não saiu de seu quarto, e tudo se resumiu à enorme criatividade de uma mulher genial, ou ao efeito [diz-se em quase difamação] da planta erva-do-paraíso. Tais melancólicas versões não prosperaram e hoje se amontoam os malabaristas e a alegria.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

17 de Fevereiro

O deserto dos fantasmas

O verbete surpreendentemente sóbrio da Enciclopédia do Turquestão atribui essa data a um opúsculo anônimo [na verdade três lâminas de pergaminho] aparecidas [segundo a tradição] hoje em 1611.  O Sul, o Leste e Oeste possuíam fronteiras marcadas por pontes, quartéis e portos. Sabia-se, com maior ou menor certeza, quem habitava além da fronteira, que eram homens iguais [embora as guerras às vezes os levassem a matá-los].

O Norte de Amhitar se abria em um deserto [e hoje ainda o faz]. Sete reis e emires por sete vezes tentaram abrir sete estradas, e em pouco tempo quase tudo de seus leitos se esfarelou em areia, permanecendo apenas os seis quilômetros iniciais. [Essa assimetria do último número fez respirar aliviado o materialista Serguei Kovinev, que temia interpretações místicas para os números sete. Elas existem.]

Os observadores dos fortes extremos sempre escrutinaram a planura, antes a olho nu, depois com lunetas. Embora os céticos tudo atribuam à luz e ao vento, poder-se-ia fazer coletâneas [e elas foram feitas] de testemunhos de guardas que viram [de dia e de noite] monstros de mãos de três dedos, ou enormes mães chamando os filhos no céu, ou vozes agudas como lâminas berrando a data da morte de quem ouvia. Desgraçadamente para as interpretações materialistas, as tropas soviéticas vieram do deserto em um dia sete e instauraram sete julgamentos de traidores do povo, aumentando [involuntariamente] a mística do deserto.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

16 de Fevereiro

O poeta rebelde

Enquanto a bala do marido traído penetrava nove centímetros em seu corpo, o poeta Byron Jasur [o nome é um evidente pseudônimo] teve tempo de pronunciar uma frase e a já existência de jornais em Amhitar no dia de hoje em 1863 torna ainda mais difícil saber que frase é essa. Das cinco alegadas frases [que correspondem ao número de diários da capital] apenas três são consideradas minimamente verossímeis. O poeta maldito casaca violeta e bigodes encerados teria falado

- Hoje adormecerei nos braços das deusas, ou
- Para que viver se sonhar nos basta, ou
- Tudo pelos teus seios, ò adorada minha.

Não adormeceu com deusas mas durante dias tomou sopa com as enfermeiras do Hospital de Shkmaarkant. Byron Jasur tinha tudo para ser ídolo dos jovens de Amhitar, e o era. Sua capacidade de combinar hemistíquios e fazer poemas sobre rouxinóis e tempestades rivalizava apenas com seu talento de fazer moças desafiarem junto com ele as convenções dessa doce e mentecapta prisão do casamento, como bradou em sua poesia mais recitada.

A soturna Enciclopédia das Massas Trabalhadoras, editada em 1958 pela Academia Soviético-Proletária da Ásia Central, diz que os poetas românticos, apesar de sua alienação pequeno-burguesa, representaram sem dúvida um avanço na crítica à tola vida capitalista. O furor desvirginante do poeta, ardentemente admirado pelo seu então discípulo adolescente e futuro historiador Dilafruz Michelet, é ignorado pela puritana Academia.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

15 de Fevereiro

O mundo como caixa de pão

Cosmas, o Indicopleustes, viveu no século VI e os homens o louvaram como sábio. Hoje o  acusam de tolo. Além de um par de citações no Declínio e Queda do Império Romano de Gibbon dele só se soube quando (não sem certa crueldade) a Sociedade Hakluit traduziu um dos dois exemplares de sua Topografia Cristã para a língua bárbara (o inglês). A partir de então o vulgo o acusou de ser o idiota que via o mundo como uma chapa horizontal, com paredes verticais fechadas por um semicírculo – como uma caixa de guardar pão.

Não tem nome - pois Cosmas nada mais é que uma menção ao seu estudo do Universo, e Indicopleustes significa banalmente aquele que foi à Índia. Em Amhitar este homem inominado ganhou larguras de quase-herói. Depois de visitar reinos há sete séculos esquecidos como os Lazi, os Mingrelianos e os habitantes de Colchos, o viajante atravessou as paredes de lápis-lazúli (no dia de hoje, segundo a tradição) e adentrou uma terra planíssima, com apenas uma imensa montanha em volta da qual girava o sol – e quando este se encontrava detrás dela, fazia noite. Os habitantes o resgataram da morte pela sede, e de tão grato escreveu sua obra inspirado em Amhitar [diz uma das lendas]. A outra diz que sua gratidão se deveu a que um xamã lhe presenteou um harém de dezenove belas garotas, tanto que o viajante após voltar à sua Síria natal resolveu dedicar-se à escrita e à penitência – mas essa segunda história por bem poucos é levada a sério.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

14 de Fevereiro

A in-falável história dos Segredos

Hoje em 1879 [21 de Safar de 1296 da Hégira] - poucos meses após a conquista do Amhitar visível pelos traidores uzbeques - o impiedoso dentista Mavluda Jamol fraque e cartola cinza pronunciou a segunda parte de sua palestra As Sociedades Secretas de Amhitar.

Na primeira parte Mavluda se agarrara aos documentos como ostra e identificara trinta e uma dessas sociedades – sobre trivialidades como receitas culinárias ou delírios de inviável nacionalismo.  O interesse cresceu [e arrastou uma quase-multidão ao segundo evento] quando Mavluda disse que falar de uma sociedade secreta é um contrassenso, pois significa que foi descoberta. Ele palestraria sobre as sociedades realmente secretas – das quais nunca se soube nada. O médico Alexander Gregorievitch Kovinev [cujo neto viria a ser o geógrafo] afirma [de maneira pouco crível] que Mavluda ficou em silêncio por três horas, para deixar claro que não se pode falar sobre o segredo absoluto.

A versão que ficou no imaginário, de um discurso sobre uma Amhitar paraíso de grupos secretos, senhas e planos de dominar o universo vem de Kobe Dilbar, que lá estava e não surpreendentemente seria um dos cinco fundadores da Ufologia amhitariana. A polícia czarista infelizmente para Mavluda não gostou desta versão e o forçou a exilar-se nas margens do rio Bangui, onde se notabilizou como Xamã e Feiticeiro [essa última informação também é do garoto Kobe e sua confiabilidade é discutível].

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

13 de Fevereiro

Criação da festa popular
Ilyos Aynur decretou com a força das pontas de ferro das lanças dos quarenta e cinco soldados de sua guarda pessoal que durante seis dias, quatro horas e dezessete minutos Cada habitante de Amhitar terá de ser outra pessoa, sendo enviado para a outra margem do Rio das Sombras todo malévolo que não se submeter. [Ninguém soube explicar esse período de tempo quebrado]. Pessoas tristes [diz a lenda] compunham então toda a terra – sem comemorações, os amhitarianos nasciam e viviam como bichos [apenas o bom-senso é necessário para contestar tal versão – não existem povos sem festas].

Ilyos Aynur cara gretada barba de três séculos era provavelmente a pessoa menos provável de criar celebrações. Valiam máscaras, vozes torcidas, fingimentos. Não sendo a si mesmas, as pessoas dançavam e cantavam e vomitavam e copulavam livres. [Os excessos não eram combatidos pelos sacerdotes, pois ainda segundo a lenda, os sacerdotes não existiam]. Java Kharlilah [o único autor a levar a sério essa invenção do carnaval amhitariano] estabelece a data de sua criação como hoje no ano de 610 a.C., uma fixação fruto tanto da pesquisa como da fantasia conforme o sombrio relatório publicado em 1962 pela [traidora] Academia Soviético-Proletária da Ásia Central, a qual, sempre zelosa das lutas das massas, proibiu essa festa alienante. Os governos, até mesmo o do ditador Karimov, temerosos da reação popular, preferiram olhar de lado.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

12 de Fevereiro

O criador de sonhos

A fama [não de todo indevida] de Amhitar de ser uma terra de palácios abandonados, águias falantes e caminhos sem saída se deve [ao menos em parte] a um estrangeiro, que hoje em 1804 na rua D´Orsay em Paris publicou sua Viagem Magnífica da minha Juventude, da qual se arrependeu, recomprou e queimou os exemplares, com exceção de um em poder das Brigadas Libertadoras al-Temurbek e de outro leiloado a um comprador incógnito na Sotheby´s de Londres.

Ramsheed-Barumi-N´gaar [Augustin de Saint-Hilaire] antes de aventurar por incivilizados países tropicais aventurou-se por Amhitar [isso é quase consenso entre os estudiosos]. Logo na segunda página descreve um labirinto feito por um antigo rei. Os céticos Iusya Marzhaffar e Serguei Kovinev espinafram. Este último explode [não sem ironia] que segundo certos viajantes antigos e certos contistas modernos os reis nada tinham a fazer a não ser construir inúteis labirintos, quando, como exploradores feudais que eram, deveriam se dedicar em tempo integral a explorar e matar quem se rebelasse contra a exploração.

A obra se estende por mais labirintos, mais palácios e mais civilizações antiquíssimas. Só ganha credibilidade quando se refere a um tigre de prata, e se descobriu de fato um tigre de pelo quase prateado, meio século depois. Nem isso fez cessar as críticas à obra, que hoje é geralmente considerada [não sem crueldade] como mais um delírio de um europeu em busca de exotismos.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

11 de Fevereiro

Apotegmas do duplo-Freud

A hoje discutida e [quase] misteriosa Academia de Ciências de Amhitar no dia de hoje em 1933 [duas semanas antes de sua passagem à clandestinidade] publicou [não sem críticas e risos que disfarçavam raiva] uma biografia do [inicialmente] vidraceiro Zulfizar Oygul.

Zulfizar [segundo tal documento] fundou poderosamente com seus escritos a psicologia, cuja criação era então [e até hoje] falsamente atribuída a um médico vienense de óculos, ao qual a Academia [não sem desprezo] sequer dá o nome de Dr. Freud. As obras do vidraceiro se resumem a três rolos, dois recopiados no ano de 1099 e o terceiro sem data.

Confessa Zulfizar no primeiro de seus escritos sem título Durante um par de décadas vi a mim mesmo nos espelhos que cortava. Depois, passei a desconfiar que nos espelhos havia outro homem, que me espionava e, às vezes, fazia troça de mim. Descobri que esse homem, sem deixar de ser outro, era eu mesmo.

Escreve que o segredo consiste não em combatê-lo mas em reconciliar-se com ele.  E que esta falta em ouvi-lo causa desde a melancolia até a unha encravada. E que a melhor forma de ouvi-lo era deitado e falando. O duplo usaria a boca do paciente para falar.

Por revolucionárias que fossem, suas ideias quedaram esquecidas. {Dizem que] na [maldita] cidade de Tashkent há um museu clandestino com o divã em que Zulfizar escutava os duplos de seus admiradores, mas isso é provavelmente uma falsidade para fazer o seu imitador parecer ainda mais imitador.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

10 de Fevereiro

O fim do reino Khazyr

O [quase] literal desenterro da até então esquecida civilização Khazyr [a qual dominou Amhitar por certo período] não foi obra de nenhum historiador mas da poetisa Nargiza Donisheva, que escreveu uns quatro séculos depois do fechamento do último dos círculos daquele período.

Nos 6.999 versos do seu controverso épico O mundo antigamente já existia [que apesar de se propor a ser obra de arte encerra informações admiravelmente objetivas] Nargiza afirma que o modo de vida Khazyr [ela prefere esse nome ao de civilização] imiscuiu-se por todas as áreas do país tão devagar que não se pode dar um início objetivo ao mesmo, embora se possa declará-lo bem instalado no ano 598 dos hereges, podendo seu final ser convencionado quando da partida do último dos Khazyr pela fronteira do Norte, no dia de hoje em 843.  As pessoas, segundo ela, simplesmente deixavam de pensar no futuro e sem premeditar se tornavam Khazyr.

Segundo a poetisa, o principal nos Khazyr era que eles quase-totalmente se desinteressavam pelo futuro – incluindo a vida após a morte no céu ou na terra [a busca de deixar grandes obras, por exemplo, era punida com vaias em público]. A religião existia mas não tinha importância. Os deuses se entediavam e viviam a bocejar. Interessados apenas no dia-a-dia, pouco se deixou para cronistas ou arqueólogos. Apesar de toda essa obscuridade, a antiga ideia de os Khazyr são apenas a criação de uma mulher genial há muito se considera ultrapassada.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

09 de Fevereiro

Inexistências

Nada aconteceu no ano de 1705 a não ser que nele Dilshod Mukhayyo publicou a sua Irrefutável Prova da Inexistência das Coisas.

Nesse tratado [que não teve sucesso até sua segunda edição 199 anos depois em versão trilíngue de uma gráfica de fundo de quintal em Shangai] o filósofo esfarela as teorias céticas. Quem dizia que o mundo era uma ilusão criada por um ente mágico só para iludi-lo [uma crítica endereçada ao amhitariano Muniza] sofria de egocentrismo infantil. Quem duvidava de tudo para a partir da dúvida reconstruir as certezas [a teoria de Zakhmir-al-Marrhubi, ou René Descartes] não passava de uma contradição ambulante.

A inexistência parte das pequenezas: duas pessoas não veem a mesma flor vermelha. Uma aponta e diz: vermelha, a outra aponta e diz: vermelha, só que nenhuma está no cérebro da outra para dizer se aquele objeto é o mesmo. Portanto [em um salto epistêmico que não deixou de ser criticado] a cor não existe. O mesmo no tocante à forma. E como os objetos são combinações de forma e cor, se estas não existem nada existe. Não se trata de negar o mundo para reivindicar paz ou compreensão. Trata-se de negar mesmo.

Resta o problema de, diante da inexistência das coisas, o que se fazer. Uma versão diz que o filósofo escreveu um livro com esse título, do qual restam três exemplares, dois no cofre do ditador Karimov e o último encerrado no depósito especial do Serviço Secreto britânico, uma história talvez demais romanesca para ser real. 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

08 de Fevereiro

A duplamente fictícia coleção de contos

A história oficial [longe de ser incontroversa] reza que na data de hoje no ano de 1830 dois rapazes saltimbancos alegres e idealistas, os felizes irmãos Shahlo, publicaram a primeira coletânea de contos de fadas de Amhitar. Essa dupla [continua a história] pretendia conhecer o verdadeiro Amhitar e por um par de anos percorreu estradas inexistentes pelo interior, quase se afogou em riachos e definhou de disenteria em estalagens de último nível e o resultado foram maravilhas como A história do homem, do leão e do jumento, ou A princesa dos dentes de prata, ou Aventuras do gatinho que queria ser rei, os quais [diz o patriotismo amhitariano] são dignos de figurar em qualquer coletânea mundial de lendas populares.

Iusya Marzhaffar [como sempre] joga seu balde de água fria: diz ele que os irmãos não eram alegres e sim uma dupla de mal-humorados; e que os irmãos percorreram Amhitar inteira e não acharam nenhuma história que interessasse. O povo de Amhitar era o mais chato e sem imaginação de todo o mundo. Os irmãos [afirma o (quase) aborrecido historiador materialista] inventaram tudo. Da sua cabeça saíram fadas e monstros e duendes, multiplicaram os braços dos gênios e as trombas dos elefantes mágicos, e criaram um país imaginário interessante como contraste a um país real e que batia recordes de chatice.

Embora essa versão crie dois grandes escritores em Amhitar, é hoje compreensivelmente esquecida pelos patriotas autênticos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

07 de Fevereiro

O maior ator de cinema

Meninos crescem e querem saber quem são - brincam de ser soldados, reis ou atletas e Mohira Daniyar aos oito anos e meio descobriu: não era nada. Os outros riam, e choravam, e brigavam, e Mohira se entristecia, e se alegrava, e se enraivecia, mas nele esses sentimentos eram superficiais como uma capa de gordura que sai com detergente. Jovem, arrastava um vazio, não de tristeza, mas um vazio puro. Até que, nessa data [cuja única fonte é uma nota publicada na terceira página do Pravda por seu admirador Rhared Dorshimoor, ou Serguei Eisenstein] viu as manchas preto-e-brancas de uma nova arte, o cinema.

Mohira percebeu que havia uma profissão que consiste em encher um homem de outro homem, melhor ainda se for outro por completo diferente. Tornou-se ator. Encharcou-se de outras almas em Sete caminhos para o Inferno, Vovô Bobão e principalmente A Invasão dos Saticons, a história de uma família de pistoleiros (inspirada em um obscuro episódio da história amhitariana) sempre vestidos de capa preta e que queriam arrasar uma cidade. A sombria fala do mocinho vivido por Mohira: Não se preocupe comigo – eu escaparei; eu sempre escapo foi imitada por meninos por duas gerações em Amhitar. A facilidade com que Mohira Daniyar passava de um papel triste para uma comédia admirava os fãs e invejosos, mas não a ele. Basta ser vazio – disse a seu admirador Rarhed ou Eisenstein, mas pelo meio-riso, este não o teria levado a sério.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

06 de Fevereiro

Brincadeiras do dia

O primeiro palhaço de Amhitar eram na verdade três [ou cinco, de acordo com o improvável cronista estrangeiro Gelasiminius, ou nove e meio, na surpreendente versão bem-humorada do (quase) sempre soturno historiador do século XIX Iusya Marzhaffar]. A versão mais corrente [tão entremeada de piadas que se torna impossível distinguir se é verdadeira] conta que um número indefinido de rapazes e moças veio se apresentar a um indefinido chefe tribal em indefinidos tempos sempre antigos.

Tal chefete [como é óbvio] sofria de cálculos biliares, mau humor e uma tendência a ver tudo cinza, metafórica e literalmente. Do grupo, um era gordo de quebrar cadeiras, outro magro de caber em garrafas, dois partiam jarros em estúpidas tentativas de malabarismo e um anão dava conta do “e meio” da estatística de Iusya. O momento drástico [contam mais da metade das versões] foi quando uma moça vesga rasgou um travesseiro de penas em cima do chefe. Este por um momento pensou em azeite fervente, camas de pregos e chicotes com nós de ferro. Mas se enterneceu e então as versões se dividem: uns dizem que o chefe casou com a moça e fez dos outros os seus mais elevados cortesãos. Outros, que se tornaram governadores das províncias e governaram um tempo feliz. Ninguém sabe, nem mesmo o sóbrio monge Gelasiminius, que registrou o dia de hoje como a data do feito, e completou que é uma história por demais bela para não ser real.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

05 de Fevereiro

O batalha dos homenzinhos

O Xeque Elmurod vencera cinco batalhas quando jovem – vale dizer, causara ferimentos a pessoas e miséria a famílias. Tal o pavor de seu nome que, na breve guerra civil de 1578, as Três Hordas [seus inimigos] não se atreviam a atacá-lo. Pensavam em ir para a esquerda, Elmurod ficava parado – os adversários pensavam que ele adivinhara que seu ataque pela esquerda era só um disfarce para um real ataque pela direita; pensavam em descer o desfiladeiro mas a imobilidade de Elmurod os convencia de que sua tentativa de atraí-lo para uma emboscada fora prevista pelo imperturbável inimigo.

Elmurod se dizia imune a flechas, lanças e sortilégios mas esqueceu as gripes – uma o matou cercado por  trezentas e nove cortesãs. Seus sete sobrinhos (tomados de ambição e impaciência) atacaram as Três Hordas – estas atacaram de volta – e o resultado (no único pormenor da história que desafia a credibilidade) é que apenas quarenta e um homens não foram enviados para o Reino das Sombras.

O estranhíssimo mas esperado resultado da batalha de Tasbuget causou um debate séculos depois entre historiadores. Dilafruz Michelet afirma que a aura da genialidade militar do Xeque enchia de orgulho a pátria. Já c dizia que o tal Xeque era um homenzinho mau, gordote e comedor de haréns, e vencia em batalha outros tão mesquinhos quanto ele. E que todos os homens são, como o tal Xeque, joguetes de forças que não podem controlar.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

04 de Fevereiro

A não-celebração da maldita folhagem

Amhitar colaborou [dizem] e de maneira não insignificante para a Bíblia dos hereges – e tal colaboração é comemorada hoje [de maneira escandalosamente arbitrária] ao se celebrar o Dia da Erva Armindollah.

Tal dia [que segundo o botânico Mendoleiev, discípulo rebelde do geógrafo Serguei Kovinev, não deveria ser festejado mas chorado] marca a [lendária] primeira colheita desta planta, em tempos [nunca definidos] sempre remotos.

Não se tem certeza do sabor, do cheiro ou do DNA desta planta [e nem se poderia ter, já que seu último exemplar morreu em  04 de fevereiro de 1604 – uma data tão cheia de coincidências que Mendoleiev ri de sua falsidade].

A segunda mais repetida das histórias sobre a plantinha afirma que os Xeques da Dinastia Horrenda dos Muntoza utilizavam seu chá como última punição a seus inimigos. O tal chá poderia matar em três segundos de síncope; ou exalar um delicado odor de amêndoas; ou ter sabor mais doce que as mais finas guloseimas da Mesopotâmia; ou semelhar a ovo podre; ou causar dores terríveis por seis dias, se a vítima não morresse antes. O pior não era o efeito – era a incerteza do mesmo, o que fazia as vítimas acabarem antes, de pavor.

A primeira história mais repetida leva a tal planta pelas mãos de mercadores para, em um ato de guerra bacteriológica, estragar a produção de trigo concorrente da Palestina. Lá teria ganho o nome de Joio e virado personagem num certo Livro. Tal versão não é unânime.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

03 de Fevereiro

O encalhamento do inesgotável navio do Balkash

Os cronistas que se debruçaram sobre o assunto [Al-Wazahari Nilufar, Serguei Kovinev e Java Kharlilah, para quem a história depende exclusivamente dos heróis] concordam que a data de hoje, estabelecida para uma tempestade que teria jogado um navio de cinquenta braças contra as praias arenosas do Lago Balkash, é completamente arbitrária. Desde o primeiro registro [o de Nilufar] o barco já estava lá havia muito, sem que os moradores da aldeia ao lado soubessem quanto.

O episódio não teria importância, se os aldeões [nem eles sabiam desde quando] não tivessem o hábito de trocar as madeiras podres do barco, substituindo-as por novas. Até que em certo momento não havia mais madeiras originais no navio. Os letrados do Reino detonaram uma discussão: o navio continua o mesmo ou trata-se de outro navio?

A Escola de Shmharkkand defendia que o movimento não existia, a essência das coisas permanece e o barco era, sim, o mesmo dos tempos do seu infeliz e desconhecido dono. Os cadetes do Grupo da Mudança Inelutável afirmava que a essência se encontra na substância das coisas, e se a substância muda, a coisa também mudará. Como a madeira não era a mesma, o barco também era outro.

A discussão passou dos previsíveis panfletos, artigos e palestras, e quando chegou às facadas o Vizir as proibiu. Java Kharlilah afirma que, se não fosse o teimoso Vizir, já teríamos hoje uma resposta exata, embora tal otimismo esteja longe de ser unânime.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

02 de Fevereiro

O Terrível primeiro selo

Há dezessete versões [todas fantasiosas] do nome do homem [ou vítima] que recebeu a primeira carta selada de Amhitar, hoje em 1817, quase vinte e seis anos antes de a história oficial [sempre falsa] atribuir a invenção do primeiro selo aos ingleses. Esse delegado de polícia [ou oficial do exército, ou sacerdote Khazyr, embora a última versão seja menos provável] desmaiou [ou jogou-se de um precipício, segundo outros] quando recebeu uma carta com um pedacinho de papel colado. Dois vizinhos mais bravos nada viram de mais no selo: a gravura de um leão de cinco patas, um gavião de asas cortadas e uma inscrição em dialeto Bakhmar, Eu te mostrarei as coisas escondidas desde a fundação do mundo, tudo em um fundo azul de doer a vista.

O infeliz primeiro recebedor de uma carta sumiu vinte nove dias depois e o mistério permaneceu até que o segundo habitante de Amhitar a colecionar esses pedacinhos de papel [Rashid Kamola] escreveu que aquele papel significava que o recebedor estava marcado de morte pela Tétrica Confraria do Leão Azul, sociedade secreta depois sucedida pela Mão Negra [lembrando que o Azul era cor do medo e do remorso na cultura Bakhmar].

O sumiço do filatelista também 29 dias depois de sua descoberta gerou pavores de que a Confraria ainda se vingava de seus inimigos. Uma versão mais banal diz que Rachid sumiu para dar credibilidade à sua história e tornar ainda mais valioso o seu selo, embora tal fanatismo seja pouco provável.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

01 de Fevereiro

As sete mil histórias de uma jovem

Odina Rahman morreu centenária, esposa de Sultão ou prostituta aos dezessete, assassinada pela varíola ou fabricante de bonecas, além das 6.996 outras versões de sua vida que a tradição lhe atribui. [O sempre entusiasmado historiador Dilafruz Michelet espinafra o seu apelido de Sherazade de Amhitar - para ele, Sherazade é que é a Odina da Arábia]. Desde criança a garota criou sua vida, ou vidas. Pensava [estranho para seus seis ou oito anos] que dois passos à direita numa rua e podia ter se perdido de seus pais. Perdida, podia ser adotada por mercadores. Adotada, podia ter sido levada para o Hindustão. Levada, podia partir em navio. Em navio, podia naufragar. Naufragada, podia aportar em uma ilha deserta. E cada em um desses podia ter outra possibilidade, e uma vida completamente diferente. Menina, chorava ou gritava de prazer pelo que podia ter acontecido se tivesse dobrado na esquina errada um par de horas antes.

O inevitável cronista Abdul Al-Wazahari no seu Livro dos insuportáveis Paradoxos estabeleceu para a tradição que foi no dia de hoje três anos antes da Hégira que Odina deixou seus pais e se estabeleceu como contadora de histórias no mercado de Shermarkandd. Bifurcando a história quando queria, matando-se ou dando-se prêmios de loteria multiplicou a si mesma, e contou sete mil vezes a própria vida. [Abdul brada que as pessoas a viam transformar-se sete mil vezes diante de seus olhos, mas não cita fontes confiáveis].