segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

22 de Dezembro

A Porta

A Gigantesca Porta Sagrada de Karabagh nada tem [na verdade] de sagrada, sendo pouco menos que misteriosos os motivos que a fizeram alçar às alturas do Insondável [tão misteriosos (talvez) quanto a sua presença nestas Efemérides no dia de hoje]. Os [não muitos] especialistas que se debruçaram sobre o assunto se recolheram com uma repugnância não de todo alheia ao preconceito, pois descobriram que tal porta não guardava

alguma seita nebulosa concorrente dos templários;

o segredo do da juventude elixir;

o túmulo de Maria Madalena

porém os [esmagadoramente, humanamente prosaicos] esgotos da cidade.

A constituição física da porta [de bronze dourado, com quatro figuras aladas nos cantos que desfraldam uma faixa (já comida pelo tempo) na qual alguns querem ler Aqui Se Esconde O Elemento Essencial Do Universo] colaborou em não pouca monta para o rio de tinta [e mais recentemente de bits de computador] que jorrou em torno dela.

O povo da cidade [e as agências de turismo receptivo] não foram lentos em promover excursões nas galerias escuras [ajudados por suspiros que lá se ouvem e que são frequentemente denunciados como fake]. As agências anunciam ser as excursões desaconselhadas para idosos, menores e sensíveis, o que os atrai aos montões.

Ninguém viu nenhum dos três segredos acima [na verdade só se vê canalização velha e latrinas quebradas] mas isso não desanima os exploradores e turistas, pois [segundo os guias] os segredos bem guardados são os melhores.

domingo, 21 de dezembro de 2014

21 de Dezembro

O Demônio de Amhitar

O Djeligh-il-Khael [que em uma tradução (não isenta de críticas) tem sido popularizado como O Demônio de Shamaarkhant] percorre as noites das ruas da capital de Amhitar.

Em contraste com os congêneres que assombram as esquinas e matas do mundo o produto amhitariano não tem chifres [na verdade nem é vermelho]; não leva um saco para raptar crianças; não podia lembrar menos um esqueleto [já que é um tanto gordito]; e as poucas testemunhas que afirmaram ter sentido cheiro de enxofre se revelaram falsas.

No começo [dizem] era temido: mães arrastavam crianças e homens tomavam posição de defesa perto do velho pouco barbado que passava por eles. A multiplicação de não acontecimentos [porque o velho nada fazia a ninguém] fez os transeuntes relaxarem seu medo.

O Djeligh pratica a democracia: olha a todos [esculturais e horríveis, bebês e decrépitos] com o mesmo desejo de nada [parece ligeiramente incomodado com a presença deles, mas só].

Com o tempo [ninguém sabe quanto] popularizou-se o novo terror do Djeligh: [ao contrário dos outros demônios] ele não quer mal a ninguém [muito menos o faz]. O Diabo amhitariano é indiferente [uma indiferença gélida, brutal].

 Isso o faz diverso de todos os seus concorrentes no mundo, e esta [tola] singularidade ocasiona que alguns tenham orgulho dele, e o celebrem [sem razão aparente] hoje nestas Efemérides.

sábado, 20 de dezembro de 2014

20 de Dezembro

A última versão

Das 1.007 [segundo outros apenas 999] versões da vida de Donyhor al-Temurbek, em 1.006 [ou 998] delas o herói nacional aparece trágico; ou espirituoso; às vezes quase espiritual; ou discursador como um filósofo. A [pós-moderna] Academia do Passado Inexistente [então em fase underground] em gravação VHS de hoje em 1984 recuperou a única versão que retrata o Grande quase irresponsável.

Pouco antes do levante contra os dominadores Turkhmans Termurbek [segundo esta versão] combatia os derrotistas [traidores] que tentavam postergar a revolta. Esta passagem [na verdade] já constava em muitas das outras versões da vida do grande amhitariano – e em todas [a golpes de retórica máscula] ele arrebatava com os argumentos de que é possível vencer, e a revolução acontecia.

Na versão VHS [no entanto] após ouvir os derrotistas Temurbek ergueu-se

Essa revolta é estúpida.

O silêncio engoliu a todos. Continuou

Por muito tempo fizemos o que era sábio. É hora de sermos estúpidos.

O levante aconteceu e [como previu o herói] foi estúpido – os Turkhmans fartaram-se de empilhar cabeças. A libertação teve de esperar mais alguns anos [variáveis de acordo com a versão].

Quanto a Temurbek, esta é única de suas 1.007 [ou 999] histórias na qual desaparece. [Não morre em glória, não ascende aos céus]. Alguns pretendem ver nisso uma significação de que às vezes é preciso seguir caminhos não trilhados, mas fora dos livros de auto-ajuda poucos creem nela.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

19 de Dezembro

A má moça

As evidências de uma possível presença de Cleópatra em Amhitar [supreendentemente] falham em convencer a muitos. São elas:

a) quatro moedas desenterradas na grande seca do Lago Sarygamysh em 1971, nas quais por muito tempo uma silhueta feminina com longos cabelos foi confundida com a Imperatriz Teodora de Bizâncio, porém novas datações indicam ser bem mais antiga;

b) uma passagem mais do que dúbia nas Vidas dos Nobres Gregos e Romanos de Plutarco [incluída na página 761 da edição da Great Books of the Western World] na qual o biógrafo se refere a uma visita da Irradiante Beleza Feminina à Terra do Sol Irradiante;

c) a permanente popularidade do cabelo liso cortado rente no pescoço entre as moças do país [esta evidência não surpreendentemente desprezada pelos intelectuais].

Amhitar [como todas as terras do mundo] se orgulha de passagens [por mínimas que sejam] que liguem o país aos grandes personagens. Rumores [às vezes pouco menos que ridículos] sobre Napoleão ou Cristo no país possuem defensores em fera.

O mesmo não ocorre com a Imperatriz Egípcia e a explicação [dizem os anti-patriotas] pouco tem de lisonjeira: o moralismo amhitariano se recusa a crer que uma jovem que foi amante de um homem casado [Júlio César]; que depois foi amante do filho adotivo dele [Marco Antônio]; e depois colecionou mais 199 [dizem com um exagero quase certo] seja um dos orgulhos do país, o que explicaria a batalha [quase inglória] para homenagear a Má Moça no dia de hoje. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

18 de Dezembro

O bandoleiro

A ascensão de Piotr Ilich Kamenev ficou marcada hoje em 1873 nos anais de Korovulbazar quando [abrigado na única hospedaria] visitou as três únicas famílias que valiam a pena e [armado com sorriso, fraque escocês e maneiras de gentil-homem] conquistou a simpatia das filhas [e herdeiras] de cada uma. A decadência de Piotr Ilich Kamenev veio onze dias depois, quando se descobriu que ele na verdade era o bandoleiro Haafulin Akmal.

A história de Haafulin [espalhada pelos rapazes da aldeia, que a essa altura odiavam Piotr] começara na guerra. Perdera uma perna. Fora para São Petersburgo, implorar uma pensão ao Ministro da Guerra. Disse-lhe que aguardasse. Como a pensão tardasse, procurava todos os dias o ministro. Este o olhava com cara de gastrite e dizia que se acalmasse, ele não era o único.

Haafulin com pouco dinheiro [o ministro continuava a pedir (ou ordenar) paciência]. O ministro prometeu para o dia seguinte. Haafulin o aguardou na porta. O ministro irritou-se com essa descompostura. Disse que não tivera tempo, que não haveria pensão, que fosse para o diabo. Haafulin rachou a cabeça do ministro com uma bordoada. Fugiu e [com outras vítimas da injustiça] atormentava os grão-senhores no campo.

Essa história fez sucesso até que alguém lembrou seu começo: Haafulin não tinha uma perna, e Kamenev as tinha. Isso não impediu de Kamenev de perder um possível bom casamento e bem poucos sabem explicar por que tal história veio parar nestas Efemérides.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

17 de Dezembro

Farsante

Já tinham esvaziado o segundo [ou o décimo-nono] barril de vodca na birosca ao lado da estação de trem de Kyrzylkum hoje em 1904 [beirada do deserto do Balkash] quando alguém [também com uísque de cevada na cabeça] berrou que vinha ali um gaiato sósia do Czar. Um segundo depois o gajo apareceu e uma gargalhada inundou o lugar: nunca se vira alguém mais diverso do Imperador. Baixinho, mais exatamente mirrado, de olhar incerto e fala mais ainda, o farsante pediu uma dose.

Ninguém lhe perguntou, mas [com o ar de um homem para quem a vida perdeu o valor] disse que decidira viajar incógnito para ver por si mesmo a situação na guerra russo-japonesa. O trem desarranjou e continuou a viagem só com uma locomotiva e um vagão. O vagão descarrilhara a poucos quilômetros e todos os braços eram necessários para o reparo. Viu uma luz ao longe e decidiu pedir algo quente. Recusou os puxa-sacos que o acompanhavam desde que nascera. A luz era aquela espelunca. Disseram-lhe

Mentira! Perdendo uma guerra e sem nem um trem que preste – nosso Czar não é tão incompetente assim!

Tomou o último gole: Tem razão – o nosso Czar não deveria ser tão incompetente assim

e derrubou uns rublos e saiu. Riram de novo do gaiato. Que não riu de nada.

A fofoca veio aos pedaços: souberam de uma missão secreta para ver a guerra, depois que o próprio ministro da guerra estava nela, depois o próprio imperador. Não acreditaram. Mas pelo sim pelo não a birosca nunca mais foi vista.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

16 de Dezembro

O Profeta

Jesus Cristo [segundo um relato não isento de controvérsia] viajou para o Oriente. Outra narração [ainda mais distante da unanimidade] afirma que o profeta hebreu passou por Amhitar.

A primeira história descreve jornadas de aprendizagem iniciática [condizentes com um filho de Deus] em Benares e outras províncias indianas. A segunda [compreensivelmente popular no país amhitariano] afirma que ele bebeu sua sabedoria [antes de uma pouco relevante temporada no Ganges] pelas margens do lago Sarygamysh, sob as muralhas de Shamaakhaent e nas areias dos 99 desertos do platô de Qyzylorda – locais típicos de Amhitar.

As histórias do povo [elas inevitavelmente existem] se dividem em dois grupos. As primeiras falam de um louro de olhos azuis de cabelo longo, falando com voz empostada de histórias de carneiros e sementes de plantas de meio-deserto.

As segundas [muito menores em número] dizem que o que ficou na memória dos amhitarianos da época foi um adolescente [chato como todo adolescente] perguntão e que gostava de derrubar os chapéus das pessoas. E que [também como adolescente] fechava-se em copas e de seu murmurar de vez em quando saía a palavra Pai.

O 37º Boletim da Academia Soviético-Proletária dedicou duas páginas a tal controvérsia hoje em 1941. Afirmou que a segunda versão era indubitavelmente mais simpática, por menos convencional. Apesar disso, ambas são possivelmente falsas [e o possivelmente foi grande afirmação, em se tratando de uma Academia ateia].

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

15 de Dezembro

Os lagos existentes talvez

Escavações [contestadas pelo geógrafo soviético Serguei Mikhailovitch Kovinev] concluíram que os 200 lagos de Amhitar secaram. Tal achado [não isento de melancolia] constou da terceira parte da Introdução do Segundo Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas [publicado (com supreendentemente pouca fanfarra) em 1996] como exemplo de o que aguardaria a Humanidade, caso continuassem as temidas concentrações de carbono na atmosfera.

Mãos anônimas [dizem não sem certa dramaticidade em Amhitar] retiraram o trecho referente às lagoas do país e tal fato [atribuído alternadamente aos ciúmes dos vizinhos Kazaks e às tramoias das empresas petrolíferas] encontra explicação [talvez] na própria história dos corpos d´água. A existência de bolsões de lama sob o platô desértico de Qyzylorda aponta [é claro] para sua existência. As narrativas do suposto desastre [no entanto] [datadas entre os séculos XIII a XV dos hereges] afirmam que tais lagos [ou parte deles] eram compostos de ambrosia vertida para deleite dos deuses [uma história suspeita devido às suas óbvias semelhanças gregas] e de leite dos seios de uma belíssima princesa, como presente de amor a um bravo guerreiro do Céu.

Tais poemas [obviamente] lançaram suspeitas ao prático pesquisador materialista e à vetusta comissão de climatologistas em Genebra, o que justifica [não para os mais patriotas] a retirada do suspeitado acontecimento de tal relatório.

domingo, 14 de dezembro de 2014

14 de Dezembro

O falso-vero

No dia 21 de agosto de 1920 Leon Davidovich Trotsky declarou encerrada a etapa feudal e começada a Primavera Socialista em Amhitar. [Tal fato (não sem contestação de muitos) se celebra nestas Efemérides, na data]. No dia seguinte, o cabelo desalinhado, a barbicha e o Pince-nez invadiram em moda as cabeças um terço dos jovens do país. [O Povo (não sem maldade) os chamava de Trostsquinhos]. No outro dia os trostsquinhos começaram a perseguição aos nobres; a quem pensavam que era nobre; a quem algum dia desejara ser nobre; e a quem pensara que algum talvez algum dia tivesse a veleidade do desejo de o ser].

Nesse contexto [não isento de medo] um homem começou a circular pelas ruas. Vestido de fraque [um pouco puído, vá] e uma cartola de segunda mão o Conde Von Bismarck de Chateaubriand e Vicenza [era assim que ordenava que o chamassem] sentava-se à mesa com os temidos militantes, exigia charutos e vinho e previsivelmente se dizia herdeiro da nobreza de três países. Os rapazes [não sem gargalhadas] lhe davam tudo. Sua ordem de fuzilamento [dizem] foi rasgada pelo próprio Trotsky, que teria dito que A Revolução não executa doidinhos.

Só depois de seguro no seu falecimento [hoje em 1962] se soube que o Conde era conde mesmo [não com tantos sobrenomes reluzentes, mas conde]. E adotou a estratégia de assumir uma verdade inverossímil, tanto que os outros a consideraram mentira. Só então se entendeu o que dizia [entre os militantes] que A mentira tem o seu apelo.

sábado, 13 de dezembro de 2014

13 de Dezembro

Totais Lembranças

Baxrom Ogiloy partiu hoje em 1859 para Deus-Pai, Alá ou Zighukrax, a 888ª divindade do panteão Khazyr. O tio materno de Sunef, O Olvidador [celebrado nestas Efemérides a 13 de novembro] deve sua importância [tal como o sobrinho] à memória.

Baxrom Ogiloy se lembrava. Todos os dias no fim de tarde se sentava em frente à sua casa e contava do passado. O ponto inicial deste era a luz [que alguém conseguiu interpretar: Baxrom lembrava o próprio nascimento]. Lembrava a primeira rosa e todos os exercícios de aritmética do terceiro ano. Muitas vezes [porém] esquecia o próprio nome. Tinha de ser guiado, pois esquecia o próprio endereço. Esses lapsos [não infrequentes] decepcionavam os estudiosos de Shamarkhaant e Dacca que vinham à procura de um homem com memória absoluta.

Um desses estudiosos [não sem sagacidade] bradou: Baxrom não era uma farsa – ele efetivamente tinha a memória total [anseio de todos os homens]. Essa memória [no entanto] não o permitia hierarquizar suas lembranças. Assim, as chaves da casa estavam no mesmo nível das conjugações do grego vistas havia meio século. O nome da filha competia com o ronronar de um gatinho que acariciara quando bebê. Ao tentar se lembrar, Baxrom puxava uma nebulosa de informações tanto impressionantes [para curiosos] como inúteis [para ele].

Por isso até hoje em Amhitar existe o ditado Que Deus te faça lembrar de tudo! Isso é uma praga – para espanto dos estrangeiros.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

12 de Dezembro

A [i]lógica do Tempo

Zitora Zarfar conquistou a imortalidade [e também certa (talvez injusta) fama de imbecil] ao colocar hoje em 1677 dos hereges [93 do mês Morhaxxor do ano 22 do calendário Khazyr] o primeiro relógio capaz de contar a passagem do tempo de acordo com tal seita amhitariana. Não muito original – não era a primeira vez que alguém tentava um mecanismo baseado na força do vento. [Vizinhos riam de sua forma meio abutre meio urso de metal].

A lógica [ou melhor, a falta dela] diferenciava a engenhoca de Zitora – pois os seus concorrentes [movidos por uma (talvez compreensível) nostalgia do sentido] montavam seus relógios baseados em polias, alavancas e pesos que, bem azeitados, davam regularidade ao movimento e [consequentemente] ao tempo.

Os Khazyr [no entanto] abominavam a lógica [que eles (dizem) denominavam Mahgrik-ul-Ghaazudh, a Cobra Negra]. Seu calendário [e suas horas] variavam de acordo com uma tabela cujo único sentido [concluíram não poucos] era falta de um. Uma hora Khazyr podia durar de três a 339 minutos da hora cristã, sem que essa recorrência de números três implicasse qualquer regularidade. Zitora reproduziu essa lógica-sem-lógica ao colocar o vento como propulsor e regulador - nos furacões o tempo era mais rápido. Nas calmarias, não passava.

Zitora Zarfar morreu com 107 anos, onze meses e nove dias [mas como tal contagem se deu no calendário da seita, ninguém sabe com exatidão o que significa].

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

11 de Dezembro

Ecolo-dia de Amhitar

“Quando Dasha Ulugbek iniciou sua caminhada pelo Deserto de Qyzylorda não havia Deserto de Qyzylorda, mas uma Floresta de árvores de 90 metros com esse nome”.

A repressão ao primeiro estudo ecologista de Amhitar faz com que hoje seja considerado o Dia da Natureza no País. De fato tal obra [de autoria coletiva e todos os autores com nomes apropriados como Camelo, Elefante e Cobra] não se pauta pelo rigor metodológico. O amor pela natureza muitas vezes eclipsa as estatísticas e a permeia uma [talvez imprudente] confiança em testemunhos de velhos viajantes, como o do andarilho Dasha Ulugbek [celebrado nestas Efemérides a 23 de janeiro e reputado por ter (dizem) dado a volta ao mundo a pé por três vezes].

A censura [no entanto] veio da denúncia de que Amhitar nem sempre foi deserto [já tendo sido jardim ou selva] em uma época em que o Partido sugava a última gota dos rios e o último grão de solo limoso para transformá-la em algodoal.

Um motivo mais nebuloso [e talvez por isso mais forte] veio da descrição de que o mundo da natureza era belo [com seus lagos verdosos e nuvens de pólen e bambus a se dobrar sobre riachos] enquanto o mundo dos homens soprava fumaça e graxa e ferro fundido. O Subcomitê de Propaganda de Agitação do Partido considerou a obra exemplo de nostalgia burguesa – e [inadvertidamente] condenou as palavras acima à imortalidade, ao proibir [hoje em 1946] o opúsculo no qual elas constavam na primeira página.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

10 de Dezembro

Não existe esse País

O Atlas das Sociedades Inexistentes [publicado em Shmarkant hoje em 1911] posiciona [de maneira menos que explicável] a própria Amhitar como Não-Real. [Tal fato (compreensivelmente) arrancou represálias de índole nacionalista, desde um corte de cabelos forçado de um dos subeditores da obra (o qual teve de fugir para a Terra dos Kazaks) até duas sóbrias moções de repúdio, uma no mesmo ano, da (já decadente) Academia de Ciências de Amhitar e outra (três décadas mais tarde) da Academia Soviético-Proletária da Ásia Central].

E de fato [dizem] não era para tanto. A inofensiva obra sem crédito de autor [embora o adjetivo longe esteja de ser unânime] listava a terra amhitariana como uma das civilizações efetivamente existentes, mas apenas na cabeça de seus criadores, ou de um único criador [ou ocioso sem ter o que fazer – a redundância se encontra na página CXCLX do livro]. Embora isso em princípio dê razão aos patriotas [de que o tal Atlas acusa o país de não existir] , mitiga-se ao se ler que seu conceito é bem mais amplo: os Estados Unidos [a Terra da Liberdade] também constam como país que só existiu na imaginação de Jefferson e Washington e mais meia dúzia, já que naquele país [afirmam os anônimos autores não sem certo progressismo] nunca existiu real liberdade.

A dubiedade do Atlas garante sua permanência nas datas da pátria – e também debates [que enchem os jornais sempre que as notícias rareiam] sobre a efetiva existência nacional.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

09 de Dezembro

O Super-herói

A Revista underground Zhalib-al-Bashimoy [geralmente traduzida como O invencível Homem Estrela] lançou-se hoje em 1947 na Livraria Heróis do Proletariado no centro de Shamaekheent. Seus desenhistas [um grupo de rapazes que hoje ganhariam o título de nerds] prudentemente não veio ao lançamento. [Sua atitude se revelou acertada quando o Partido proibiu a revista depois do terceiro número e mandou recolher os exemplares no mercado [transformando a revista hoje em cult e catapultando seu preço].

Bashimoy [o tal Homem-Estrela] ostenta o [um tanto tolo] galardão de ser uma das poucas criações amhitarianas que não clama por pioneirismo mundial – ao contrário, assume-se claramente inspirado por um tal que veio de certo Planeta Krypton e vive disfarçado de repórter foca de jornal bobo.

O primeiro herói em quadrinhos de Amhitar tem [não sem obviedade] a luz como sua grande arma: sempre que os contrabandistas, ladrões de joias ou mesmo paqueradores da sua sempre eterna quase-namoradinha Kyndal Yuna passam dos limites, ele pode emitir clarões que cegam e prendem [e que de vez em quando falham (como qualquer lâmpada queimada) para desespero dos fãs que torcem por ele].

Dizem que Stalin riu das histórias da sua distante província – tanto que ordenou que o herói tivesse bigodes, para ficar mais parecido com o Líder. Como os desenhistas se recusaram, a revista foi proibida. Essa versão [a muitos] parece demasiado parecida com histórias em quadrinhos para ser real.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

08 de Dezembro

Nasci há muitos anos

Por 49 anos vivi na cidade de Ônix – e com esta frase Shahlo Maqsud [barba, três mil rugas e um olhar que denunciava catarata] começou seu relato hoje em 1879 na estação de Zarafshan a um magote de oficiais peterburgueses que o olhavam com um misto de curiosidade para com o estrangeiro [como todo czarista] e desprezo pelo mesmo [como todo czarista].

Sua narrativa em nada diferia das dos malucos que sempre emergiam nas estações ferroviárias fronteiriças ao platô desértico de Qyzylorda, se, primeiro, uma cidade chamada Ônix existisse [e nada havia de semelhante em toda a Ásia Central] e se Shahlo Maqsud não tivesse [a se levar a sério suas narrativas] dez mil anos de idade [onze mil, setecentos e sessenta e três, segundo uma paciente contagem].

O General Konstantin Petrovich von Kaufmann o ouviu e a coincidência de que lá se encontrasse o Comandante russo tem sido interpretada [não por poucos] como uma prova de que Shahlo falava a verdade. Vieram as inevitáveis perguntas sobre Cleópatra e Napoleão e a estas Shahlo respondia [com certa banalidade] que não conhecera essas pessoas.

O fato de não ter presenciado nem a descoberta da América nem a Queda de Roma, tendo apenas vivido em vilas abandonadas que ninguém conhecia minguou o interesse sobre ele. Terminou seus dias contando histórias a troco de moedas nos arredores de Shamearkhaant – a maioria delas inventadas, sobre Napoleão ou Cleópatra, ou sobre como presenciou a Descoberta da América.

domingo, 7 de dezembro de 2014

07 de Dezembro

O nosso Gandhi

O Gandhi de Amhitar não tem [obviamente] a mesma fama do original. [Aliás para os nacionalistas Jumanova Bekzod é que é o verdadeiro, sendo o outro o Jumanova da Índia. A cronologia não deixa de lhes dar razão, pois a cópia nasceu em 1869, quando o original amhitariano já contava vinte e sete anos de vida].

Sua carência de filmes biográficos de Hollywood não se deve a uma suposta falta de mérito. Jumanova tornou-se falado por convencer o governo de ocupação russo a deixar de amassar os camponeses do país como se fossem minhocas fossem e a conceder o Estatuto de Autonomia do Território de Amhitar, assinado com os dentes rilhando [dizem] pelo Czar Nicolau II hoje em 1897, e que outorgou certo autogoverno ao país. Os métodos para tal vitória foram os mesmos de todo combatente não-violento: meditação, concentração e capacidade de levar cacetadas sem se engolfar pelo ódio que vem junto com elas.

A grande diferença do célebre Jumanova para uns certos Gandhi e Martin Luther King é que, enquanto estes senhores nos deixaram palavras de sobriedade, o lutador amhitariano legou aos pósteros apenas a frase Kalibash-al-Junihkol, pronunciada quando lhe perguntaram por que era tão corajoso e lutava tanto pela paz.  Tal frase [vertida em certo subdialeto Khazyr] foi traduzida

Todos os homens têm sua maneira particular de ser estúpidos; esta é a minha.

Por ver com tanta facécia a sua nobre missão, Jumanova é menos lembrado do que merecia.

sábado, 6 de dezembro de 2014

06 de Dezembro

O Dia do Nada

O Marhabogh-ol-Khemizoor [que do sétimo dialeto Bakhmar é tradicionalmente entendido como Dia Universal do Nada] causou a maior discussão da Academia Soviético-Proletária da Ásia Central hoje em 1942. De resto sem grandes motivos. Os sétimos sectários Bakhmar [cuja existência também é longe de ser aceita com unanimidade] adoravam muitos deuses [ou nenhum, discutem eternamente as academias]. Em verdadeiro pesadelo para os arqueólogos, as suas dezessete cidades em volta do lago Sarygamysh às vezes [por camadas e camadas de argila datada por carbono 14] ostentam tantos deuses que parece que nem os Museus de Shmarkaant, Dacca e Moscou juntos não poderiam conter os pedaços de estatuetas. Tal período é seguido por outro em que se diria que o povo se converteu subitamente ao ateísmo – até uma nova fase de intensa produção sobrenatural.

No congresso da Academia hipóteses se empilharam, a maior parte [compreensivelmente] de corte marxista-leninista. A briga começou quando um grupo avançou que o Dia do Nada não era a jornada depressiva que todos pensavam. Essa data [a maior do calendário Bakhmar] lembrava ao povo que não acreditar em Nada ou em Tudo não faz diferença, o importante era viver – e era um dia em que pululavam danças e piadas além de alguma shiibatz [a cerveja marrom amhitariana].

A imagem de um povo folgazão celebrando ao mesmo tempo a validade e a não validade da crença não é popular em nenhum dos lados, e são poucos os que lembram a data.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

05 de Dezembro

Tentações

A Zoda Shuhrat  tem-se atribuído [não sem flamante injustiça] a frase

Isso é uma tentação – e eu vou cair nela

constante em dois pedaços de pergaminho [um deles rasgado em quase metade] conservados no departamento de manuscritos raros da Universidade de Dacca. Na verdade [dizem] o tímido linguista [o único capaz de escrever um texto coerente utilizando palavras de 49 línguas e dialetos, segundo seus não poucos discípulos] não foi responsável por tal frase. Zoda apenas a traduziu. O verdadeiro autor seria [não surpreendentemente] o Monge Gelasiminius. Um prelado é [por razões óbvias] o alvo preferencial para uma fofoca do gênero – a imagem de um homem velho se entregando ao festim com jovens desnudas sendo praticamente um arquétipo no inconsciente coletivo.

Um artigo publicado hoje em 1992 no Boletim da Academia do Passado Inexistente [embora não impassível de contestação] eliminou muito do charme da história: Abdulaeva Behruz [o mestre de Zoda e de outro grande glotologista, o folgazão Gulhayo Mansur] teria escrito tal frase [e dado aos pergaminhos propositalmente um tom antiquado]. A tentação  que se referia [no entanto] era a de saber todas as línguas do mundo, coisa que [quase] conseguiu – chegando a 999. Embora seja uma tentação [e quase demoníaca, pois saber as línguas é controlar os homens, desde a Torre de Babel] por alguma razão ela tem sido considerada monótona, e desde então esta data, embora constante nessas Efemérides, tem sido pouco lembrada.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

04 de Dezembro

O salvador normal

Husan Mariya salvou a cidade de Karakalpakstan das mãos dos selvagens. [Husan Mariya, lugar-tenente ou, segundo outros mais radicais, um avatar do ubíquo Donyhor al-Temurbek]. Tal prodígio de coragem é objeto de debates não isentos de amargura [os tradicionalistas afirmam que aconteceu em 26 de março de 887 (no calendário herético) e versões mais modernas o empurram para o dia 89 do mês Kheomirxx do ano 003 do calendário Khazyr; uma opinião moderada o estabeleceu na data de hoje em 1251 ou 1252, aproximadamente a mediana entre as duas primeiras].

A natureza precisa de seu feito também causou [não poucas] rixas de família [dizem]. A ideia de que teria degolado 77 inimigos [Turkmans ou Kazaks, as sub-histórias variam] tem sido abandonada [para escândalo dos conservadores] em favor de versões light, de que matou [e à de espada] apenas três, com uma subcorrente afirmando que só deu ordens, sem ter ele mesmo enviado ninguém para o outro Mundo.

Nada disso [no entanto] é mais contestado que as histórias pós a grande batalha. Husan [dizem os poucos testemunhos da época] arrotava e dormia de tarde e olhava para saias de garotas [e às vezes tinha timidez de fazer-lhes propostas] e gostava banhos de rio. Pessoas o visitavam em busca de palavras heroicas e ele lhes dava bocejos e pão e queijo [não melhores nem piores que os de todos] e falava sobre o tempo. A escandalosa normalidade do herói o fez menos louvado [talvez] do que deveria.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

03 de Dezembro

O anti-anti-herói

O maior dos heróis byronianos de Amhitar, [curiosamente] não o construiu o maior dos escritores byronianos de Amhitar, o [não surpreendentemente] chamado poeta Byron Jasur. De fato ninguém o fez. Não consta autor na coletânea cujo banal título A Vitória de um Patriota [publicado em imprensa clandestina driblando a censura czarista hoje em 1882] é menos interessante que o [muitas vezes omitido] subtítulo Ou: os meus problemas com o mundo, um mundo que na verdade nunca me interessou muito.

Likarek Sunnat protagoniza tal epopeia [o que para alguns a torna suspeita, pois Likarek é nome estranhíssimo para um amhitariano, para um russo, ou para qualquer pessoa]. O herói [título duvidoso] dos mil e dezessete versos desperta pouca empatia: mal-humorado, não muito bonito [com uma cicatriz na face esquerda não contribuindo em nada para sua aparência], Likarek combate os inimigos do país não porque creia na bondade do país e na maldade dos estrangeiros mas porque sente que,  mais que a coisa certa, lutar pela liberdade é a coisa menos errada a fazer, ou talvez a única.

Muita tinta [e bits de computador] se gastaram na busca de quem seria Likarek. Tentativas de que Ele somos todos afundaram no seu excesso de romantismo. Uma corrente [não isenta de iconoclastia] clamou que esse semideus sem charme seria Donyhor al-Temurbek, o herói da pátria. E o combate a tal versão é um dos poucos assuntos no qual o governo e a guerrilha da oposição se põem de pleno acordo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

02 de Dezembro

A lei do Amor

Vivemos no mundo. [Todos calaram o bate-boca]. E o mundo não é puro.

[Barba de quem não vê lâmina há três anos, cara gretada de sol do deserto]. Continuou:

E Deus, bem, talvez não exista. E se existir, pior ainda: não se importa.

O Czar tinha uma [não surpreendente] alergia por eleições. As primeiras de Amhitar ocorreram com o enfraquecimento do regime estrangulado por guerra e revolução. A Primavera das Flores de Barro açambarcou o poder no país.

O nascente governo amhitariano queria: indústrias; tecnologia; fios de telégrafo em todos os quilômetros quadrados do território; alta produtividade agrícola; e também [diziam os eternos opositores]: vida eterna; paz eterna; felicidade; amor e maçãs em calda para todos – e para o próximo ano, de preferência para a próxima semana.

Inevitavelmente surgiu a ideia de proibir a intimidade sem respaldo em amor verdadeiro. [O projeto de lei respectivo (dizem) recebeu forte apoio das floriculturas e lojas de chocolates]. Levantou-se então Nasiba Dalton, cuja idade [já próxima (fofocavam) dos cem] o respaldava teoricamente pouco para uma matéria afeita a fogosos jovens. E disse o que pensava do mundo.

Calaram-se todos. O que não impediu o avanço do projeto. Resolveu-se tudo de maneira amhitariana [a meio-termo]: tornou-se lei o amor [espiritual e puro] obrigatório. Porém não foi seguida na prática e um golpe de Estado logo derrubou o regime. Por causa ou não da lei – é questão aberta.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

01 de Dezembro

Quase mil e uma amhitares

As Noites de Amhitar não eram Mil [estimativas não inteiramente livres de pessimismo afirmam não passar de cinquenta]. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: a coletânea de histórias fantásticas de Amhitar [que permaneceu sem nome até sua tradução para o Bengali moderno e sua publicação hoje em 1827] no início numera os episódios. Depois a ordem se dissolve mas semiólogos [não sem paciência] chegaram à quantidade [ainda significativa] de 333. A necessidade de um título vendável levou o editor a rotular o volume de Os Dias Fantásticos de Amhitar.

Não os 333 Dias Fantásticos – ao orgulho [para não dizer ao machismo] amhitariano repugna qualquer comparação com uma tal de Mil e Uma Noites de uma tal Arábia [é assim que nos bares de Shmaerkaant se referem a tal obra, entre dentes]. A razão [dizem] é que sem infidelidade não existiria Sultão, nem Sherazade, nem metade [em uma estimativa tímida] das histórias que ganharam o mundo.

Evitando as anedotas de mulheres de gênios, mulheres de sultões, mulheres de vizires e até mulheres de peixeiros todas diuturnamente empenhadas na nobre arte da chifrança do marido [e que enchem a boca de Sherazade e os ouvidos do Sultão] a coletânea amhitariana sofre do terrível mal da monotonia, o que, se a torna desconhecida internacionalmente, coloca-a mais autenticamente como nacional, por ser Amhitar a grande pátria do ramerrão diário. [Evidentemente são os eternos críticos que o dizem].

domingo, 30 de novembro de 2014

30 de Novembro

Monótonos Maçonicos

There is no such thing as an Amhitarian Freemasonry. Sir William James Hughan [casaca, luvas e cartola com forro de cachemira] pronunciou estas palavras [não sem amargura] diante da Grande Loja de Londres hoje em 1899.

Para os maçons, a maçonaria começou com certo Hiram em certo Oriente Médio [para os opositores, são ambos fictícios]. Para o orgulho amhitariano trata-se de genealogia falsa pois a maçonaria [não surpreendentemente] teria começado no país. [Tal honra (considerada fantasiosa no resto do mundo) é ainda hoje objeto de periódicas homenagens do governo e da oposição guerrilheira].

Esse rumor trouxe o inglês coautor do massudo A História da Franco-maçonaria, o Rito Escocês Antigo e Aceito e a Real Ordem da Escócia. Hughan descobriu que efetivamente havia lojas em Amhitar. E que elas muito possivelmente não vinham de raiz europeia. No entanto a maçonaria se agrada nos seus rituais [no mistério e nos compassos]. Quanto à maçonaria amhitariana, nela não havia nada. Os irmãos se reuniam com a euforia de quem vai fazer exame de sangue e com o mesmo misticismo de um almoxarifado de cartório. Quando se enfileiraram para receber um copo d´água o inglês chegou a pensar em algum Rito Aquático. Mas é que estavam com sede mesmo.

Concluiu que a banalidade é inimiga dos Irmãos, e pronunciou o discurso que transformou a Ordem amhitariana em pária entre as Lojas do mundo, o discurso que [inexplicavelmente] entrou na lista de comemorações do país.

sábado, 29 de novembro de 2014

29 de Novembro

Para o Céu

E Utkirbek Lennon, às vinte horas e trinta e seis minutos do dia de hoje do ano da graça de 1976 [do calendário herege] viu, observou, sentiu e até percorreu uns bons milhares de quilômetros de uma Escada para o Céu. [As acusações de plágio a certa de banda de rock são indevidas, pois, no momento, Utkirbek jura que não lembrava a canção Stairway to Heaven – como, aliás, costumava esquecer muita coisa].

Ao primeiro [e talvez único autêntico] hippie de Amhitar não se pode assestar as acusações de estar além de Bagdá – pois, significativamente, a aparição se deu quando Utkirbek [tomado de certa iluminação pós-Budista] decidira que o caminho para o Nirvana era a água – e havia já uns bons três meses não ingeria nada que não fosse inócuo, insípido e inodoro.

A Escada não lhe apareceu no meio do deserto – sendo de resto difícil dizer onde lhe apareceu, já que o profeta da contracultura às vezes se jurava no Polo Norte para descobrir que se encontrava em uma quitinete infecta em Calcutá. Não se parecia com nenhum delírio habitual de escada, pois, para começar, tinha corrimãos [onde já se viu escada mística com banais corrimãos?]. Anjos não o seguiram. Nenhuma bela garota o esperava no alto. Uma capa de nuvens impediu logo a visão da paisagem abaixo. A aventura terminou melancolicamente, com ele voltando por puro tédio daquela aventura chata.

Utkirbek concluiu então que A Água causa perigosos delírios – e voltou à conhecida química de sempre.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

28 de Novembro

O cheiro do Comum Lugar

O país não se orgulha de sua indústria perfumista [o que não deixa de surpreender, já que os patriotas amhitarianos (dizem os vizinhos Kazaks) se orgulham de (quase) tudo]. De fato, excetuando um opúsculo [depois renegado] do historiador Java Khalilah e duas notas pagas da Academia do Delírio publicadas hoje em 1906, nada se pode encontrar sobre as fábricas de odores em Amhitar.

O conformismo [ou um compreensível horror a ele] explicam tudo [é o que dizem]. A indústria perfumista [em todo o mundo] busca uma radical transformação do lugar-comum: cheira-se o que não se cheiraria normalmente – em um escritório ou em uma festa familiar desprovida de qualquer vestígio de graça podem vir à tona [através de alguma essência importada] flores de picos de montanhas da China ou de folhas que só possuem aquele odor na beira de certo lago na Tanzânia.

Em Amhitar [ao contrário] os perfumes encarnam o dia a dia: pequenas flores de terrenos baldios [não exatamente prodígios de cor e forma] são maceradas e usadas por pessoas que moram ao lado dos tais terrenos. [As ervas daninhas têm o mesmo destino e aplicação].

Dizem até que alguém [para escândalo dos puristas] transformou o suor em perfume [embora o olvido e a vergonha sufoquem esse assunto]. A indústria perfumista nacional talvez por esse motivo [exceto por três laboratórios artesanais nos subúrbios de Smaarkhaat] sumiu – pois ninguém [dizem] quer ter o odor da banalidade.

27 de Novembro

A Fundação

Vigorosa contestação derrubou a tese da inexistência das Brigadas Libertadoras Lembranças Afetuosas ao Grande Donyhor al-Temurbek [para alívio dos patriotas]. Resta a doutrina da inexistência de uma História desse grupo. Não porque nunca tenha feito nada [embora isso seja real, dizem os eternos ironistas] mas porque a sinuosidade [ou a falta de sentido] de sua trajetória [se é que se pode falar de tal] tornaria impossível escrever-lhe uma narrativa, tão a gosto dos compêndios escolares e das biografias pop.

O grupo guerrilheiro com o nome mais longo do Planeta teria sido fundado hoje, e a escolha da data [feita de maneira arbitrária no III Congresso da Academia Soviético-Proletária da Ásia Central em 1936] revela o desconhecimento [ou a multiplicidade de versões] que o cercam. [A data de hoje era só uma das 125 prováveis]. O ano 1777 acabou sendo escolhido [o que gerou suspeitas não totalmente infundadas, pois Serguei Kovinev (o Manda-Chuva da Academia) era (de forma inexplicável) fanático pelo número sete].

Resta o problema de como se formou tal guerrilha. As versões mais comuns [não sem banalidade] apostam nas montanhas habituais, com um grupo jurando morrer antes de se render [outras mencionam um porão urbano]. A narração mais poética [saída em nota sem autor na Gazeta de Amhitar no último dia de 1919] afirma que no grupo só havia os 1.007 avatares de Temurbek, e a reunião se deu no Céu. Tal versão [surpreendentemente] não é desprovida de adeptos. 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

26 de Novembro

O Impopular

Ninguém nasce nem morre só – diz o ditado amhitariano. Esta tradição seria quebrada [não sem impiedade] hoje em 1841, quando Feruza Otabek deu sua entrada no cemitério além-dos-muros da capital Shmaerkhaent. Dois testemunhos afirmam que, além dos funcionários do cemitério, um cãozinho Lulu marcou presença na rápida cerimônia.

Feruza [o feroz panfletista Feruza] não deixou de dar razões que [se não justificam] ao menos tornam menos incompreensível seu pequeno nível de amigos. Era sincero – até os adversários o reconheciam. Porém o Homem Mais Impopular do País [e não desgostava do apelido] parecia procurar motivos que aumentassem ainda mais a fama.

Inimigo do álcool numa terra de fanáticos da cerveja preta [a festejada Shiibatz], pacifista quando todos se orgulhavam de um tio-avô degolador, vegetariano no país que alegava ter criado o churrasco de iaque, adepto dos namoros castos quando o prêmio de toda família era ter um filho Don Juan, não havia movimento impopular que o jornalista não abraçasse. [Curiosamente o nacionalismo e o liberalismo contra os paxás opressores, causas que (embora perigosas) não deixavam de arrastar multidões ocultas, nunca lhe fizeram a cabeça]. Feruza acostumou-se a andar sozinho na rua [exceto pelos garotos que o vaiavam].

Como tudo, da sua morte há uma visão revisionista: o cachorrinho seria a alma do povo, arrependido de tanta incompreensão. Embora bela e nobre, tal [piedosa] versão só é aceita em círculos mais espirituais.

25 de Novembro

O Cientista

A Ciência [e também (dizem) o chauvinismo amhitariano] implantou no país um antecessor injustiçado: Kyndal Shavkat, o Lavoisier de Amhitar. [Os verdadeiros patriotas detestam isso – Lavoisier é que seria o Kyndal da França].

O cientista pulou para o anedotário: a [esperável] juba de cabelos brancos, a barba a qual [dizem] enrolava para que não entrasse nos tubos de ensaio. A sua principal contribuição [estabelecida sem nenhuma base factual como tendo sido feita hoje em 1698] foi modificar a visão da química amhitariana. Antes, velhos sábios [eles sempre existem] escreveram [em pedra] a fixidez absoluta de todos os elementos. Nada mudava [e a visão de um Heráclito de que Tudo Muda para eles teria soado absurda]. Tal [antiga] visão gerava não poucos problemas principalmente de ordem linguística: durante séculos o poder científico [com sucesso limitado] lutou para que as palavras pedra e areia fossem uma só [já que a areia seria só pedra moída].

Kyndal levou [não sem algum exagero] a questão para o polo oposto: tudo muda, e ao mudar, nada tem em comum não só com o que foi mas com os demais. O químico [como os demais amhitarianos] tinha horror à ideia de infinito, por isso advogava que o número de elementos químicos correspondia ao número de coisas que vemos e sentimos: assim, uma pedra branca é um elemento, uma pedra preta é outro. Embora não deixe de conter sua verdade, tal conceito obteve pouco sucesso mundial e o Cientista só é celebrado em Amhitar.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

24 de Novembro

Romance comum-lugar

Ninguém é Inocente nessa História Toda – Shahzoda Umarkan [tido por alguns (mas não por tantos assim) como o maior romancista amhitariano] escreveu esta frase [não destituída de dramaticidade banal] na primeira página de seu décimo-sétimo romance [sendo os outros 16 hoje raridades (não necessariamente preciosidades) bibliográficas e o publicou hoje em 1901].

Um dos [re]fundadores da Academia do Delírio [nestas Efemérides a 17 de outubro] mistérios cercam a vida de Shahzoda [ou ele os criou], a começar da mudança de seu nome de Utkirbek Shahzoda para o de Shahzoda Umarkan, atribuída alternadamente a uma tola superstição numerológica ou a uma desavença com o avô. Mais importante [no entanto] é sua descrença em qualquer literatura, a qual evoluiu [dizem não poucos] para uma descrença em tudo, até na própria descrença – sendo o significado de tal coisa ainda hoje objeto de monografias.

Ninguém é Inocente nessa História Toda sugere desde um drama policial [com as tolices típicas do mesmo] à la Agatha Christie ou Khannat Nurayan [celebrado a 17 de setembro] mas não o é. Nem um drama existencialista indutor de depressões. Sua história da luta [afinal bem-sucedida] de um viúvo para sustentar os filhos [pelo contrário] não se afasta demasiado do lugar-comum.

Dizem os fãs que a aparente incongruência entre os bons personagens e o título soturno revela que a maldade existe, mesmo na bondade. Os [inevitáveis] opositores dizem que foi erro do autor, mesmo.

domingo, 23 de novembro de 2014

23 de Novembro

Herói talvez

Morrer jovem e herói; ou viver o suficiente para se descobrir canalha

- Abdullaeva Behruz [não sem dificuldade] traduziu este dístico [vertido em versão samoiedo-basca do nono subdialeto Bakhmar, com sílabas do japonês arcaico]. [Sendo (no entanto) exageradas as versões de que o linguista amhitariano tenha partido para o grande campo glotológico celeste por causa deste esforço].

Na verdade o homem que sabia 7.777 línguas [Abdullaeva, em estimativa talvez excessivamente otimista] já traduzira escritas mais difíceis. O que causa a celeuma deste pequeno trecho é a sua falta de base material – pois não quedaram registros do papel ou pedra na qual foi escrita. E [como consequência] essa imaterialidade permite especulações.

Que nada teriam de importante se não fosse o conteúdo da mensagem. Trata-se [à primeira vista] de invectiva contra a idade provecta – pois [segundo o escrito] é melhor morrer jovem e puro. À segunda vista [no entanto] trata-se crítica à juventude, pois debaixo de cada jovem se esconderia um malvado – precisando apenas de tempo para se desenvolver.

Suspeita-se [e sempre há quem levante suspeitas negativas] que um idoso, tido como sublime, e sabendo-se uma farsa, deixou escrita essa quase confissão. O grande herói amhitariano Donyhor al-Temurbek teria escrito tal frase – e interesses óbvios negaram que fosse dele. Os mesmos que apagaram outro dístico, no qual assumia a autoria do primeiro – mas a existência deste é mera especulação.

sábado, 22 de novembro de 2014

22 de Novembro

Cidade Perdida

O Gato Transparente [o símbolo] e o dístico A mentira possui o seu próprio encanto encimavam a portada de pedra da cidade perdida de Terebazar. Tais afirmações [é claro] não podem ser comprovadas pois [além do Gato] toda a cidade era transparente e [segundo não poucos] não o dístico mas toda a cidade era mentira. [O fato de a cidade ser hoje perdida (de acordo com os cínicos) constitui conveniente desculpa para o seu nunca-ter-sido].

Escavações empreendidas pela Seção de Propaganda Arqueológica do Partido [cujo excesso de surrealismo logo a fez extinta] na beira de dois ou três afluentes do Lago Sarygamysh resultaram em um fracasso incomum [pois os pesquisadores sempre encontram alguns ridículos cacos de cerâmica ou pontas de flecha]. As pesquisas [encerradas melancolicamente hoje em 1951] resultaram [literalmente] em poeira.

Curiosamente isso só aumentou o interesse quanto à cidade perdida. Não seria perdida por uma banal capa de areia – mas porque ela, cidade [ou pretensos feiticeiros que a construíram] se fizera com a habilidade de esconder suas belezas.

Para alguns os Gatos seriam não um mas 177; os feiticeiros controlavam o tempo e mandavam furacões sobre os inimigos; uma versão popular afirma ser ela uma cidade de amor livre e cujas habitantes femininas eram todas jovens e de cintura menor que 62.

Livre dos constrangimentos do real, uma contagem em 1987 recenseou 10.917 livros e artigos [só em Amhitar] sobre a Cidade Perdida. E no aumento.

21 de Novembro

O Esquecedor

O Destino [cuja existência é objeto de debate] devolveu o dom da memória hoje em 1866 a Sunef Muniza O Olvidador, e este fato [dizem não sem dramaticidade] constituiu a [única porém definitiva] tragédia de sua vida.

Sunef esquecia. Na infância isso lhe causou surras – quando entrava em portas de outras famílias [pois esquecia a própria casa] ou balbuciava como bebê [pois esquecia a linguagem]. As surras [é verdade] não faziam efeito pois ele não as lembrava.

Tratada alternadamente como possessão ou doença, a sua característica [pois acabou por tomar esse nome asséptico] evoluiu para certa lógica. Sunef não olvidava tudo. Podia perder-se por horas [até algum conhecido o encontrar] mas à sua mente vinha o prazer que tivera do primeiro banho de bica d´água, com cinco meses, dezessete dias e nove minutos [e era ele quem lembrava esta tão precisa data].

Não poucos perceberam que para ele o tempo patinava: com 17 anos parecia ter 12, e com 51 semelhava 30. A explicação óbvia – Sunef vivia em um Paraíso particular, não porque coisas más não ocorressem com ele mas porque ele as esquecia. [Até hoje se discute se tinha algum controle sobre sua amnésia ou se a mesma era um dom natural].

Discute-se a irrelevância de saber como Sunef recuperou sua memória, e as versões vão desde clarão dos céus até bordoada. Daquele momento em diante [no entanto] começou a envelhecer e se tornou um homem comum. [Só o Sunef desmemoriado se celebra nestas Efemérides].

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

20 de Novembro

Da Seita

Uma Plenária da Academia Soviético-Proletária da Ásia Central hoje em 1939 refutou a tese [já um tanto desacreditada] da inexistência dos Khazyr. [O Geógrafo Serguei Kovinev fez a parte mais consistente da defesa da velha seita mística, o que não deixa de ser surpreendente para um ateu convicto e partidário do progresso material dos povos].

Os românticos [meio século antes] advogaram que o grupo social que povoou as regiões central e sul do platô amhitariano não passava de lenda. Seus argumentos [no entanto] muito tinham de emocional e pouco de arqueológico. Um deles [não o mais consistente porém talvez o mais popular] tomava a frase [atribuída aos sacerdotes Khazyr]

Há muitos deuses – uns são possíveis, outros não

como um exemplo da tolice da teologia da seita [pois negava a própria essência do teísmo]. Kovinev explicou a contestação romântica afirmando ser compreensível a revolta idealista diante de um grupo social que, apesar de ter crença, possuía-a de forma racional, quase materialista.

A Academia do Passado Inexistente [de maneira compreensível e pós-moderna] trouxe a velha seita de volta. Os muitos deuses dos velhos mestres seriam na verdade os Paradigmas [uma palavra odiosa para os pós-vanguardistas amhitarianos] os quais existiriam para ser quebrados. Um subgrupo mais radical diz que os Khazyr se referiam na verdade a Nada – e esse combate a deuses sem relevância os tornaria eternos – embora discutam se a eternidade tenha grande importância.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

19 de Novembro

Da guerra de sempre

Durante 999 anos Amhitar combateu os Bárbaros [e a simetria do número não deixa de causar suspeitas]. Não que esse combate fosse contínuo: não foram poucos os decênios [ou séculos] em que paxás e xeques sequer se referissem aos Gulkahyos [assim eram chamados], para que logo depois surgissem como ameaça. Casamatas eram construídas, soldados eram convocados, manobras se faziam, sentinelas desabavam de sono nas ameias – e os Bárbaros [ou a presença deles nos discursos] sumia.

Antes de sumirem [no entanto] tropas retornavam de alguma batalha a dois mil quilômetros com bandeiras inimigas [na verdade trapos que alguns (sem coragem de dizê-lo) assemelhavam a estopas]. As histórias de massacres e estupros do cruel inimigo e da vitória final de nossas tropas ocorriam não sem certa monotonia.

A oposição [sempre há uma] é brutal: os Bárbaros não existiam. Sua finalidade única era promover generais e enriquecer empreiteiros de fortes e estradas. A própria estupidez do nome seria prova: Gulkahyo [no quinto subdialeto Khazyr] significaria Os que chocam galinhas.

Os patriotas contestam: para eles a aparente tolice de tal nome é mais uma prova, pois Bárbaros são estranhos, e nada mais estranho que chocar uma galinha ao invés de um ovo [como acontece nos países civilizados].

Esse argumento [de maneira não de todo injustificada] é tido por pouco convincente.

18 de Novembro

Não aos versos sim à liberdade

- Não quero contar histórias. Prefiro salvar o Mundo!

Jasur Akmal subiu os sete degraus para a tribuna [com seu discurso sobre técnicas de fazer versos] e tudo lhe pareceu tolo. Fez voar a papelada e berrou.

Não o Mundo mas o teto do Teatro quase caiu com os assobios, bordoadas nas cadeiras, tabefes, tiros para o ar e até cócegas em vizinhos neste 18 de novembro de 1861 na abertura do Congresso dos Homens de Espírito. A literatura amhitariana [e a música, e tudo o mais] até então tinha sido comportada, ou técnica. Os poetas preocupavam-se com hemistíquios, os romancistas com tramas, os músicos com solfejos.

O discurso do poeta Jasur [que compreensivelmente mudou seu nome para Byron Jasur] mudou tudo isso. Os homens da pena e do teatro só falavam em liberalismo, pátria, democracia, fim da opressão. A invasão russa oito anos depois foi [quase] recebida com alegria, pois as torturas e prisões solitárias na Sibéria imprimiam ainda mais drama à atividade da cultura e valorizavam a vitória final. O que não impediu [quando a ocupação se tornou mais branda] os homens de espírito de continuar se queixando da opressão’.

A técnica perdeu – erros de versificação e cantores sem garganta passaram a não ser incomuns. Alguém criticou a cultura amhitariana por ser cheia de boas intenções sem estudo. Certo simpósio de poetas respondeu [não sem fúria] que Não os versos, mas a liberdade é o que importa!

17 de Novembro

O monotom

Uma capa de nuvens cobria o céu de Amhitar [dando a tudo uma monótona cor cinza-chumbo] no dia em que o mais monótono dos homens visitou o país. Era a data de hoje [dia em que, tirando os aniversários e falecimentos de sempre, nada aconteceu de especial] do monótono ano de 1972 [ano que, excetuando as guerras e massacres de rotina, só provocou bocejos]. A população [sem ter o que fazer naquela monótona sexta, feriado decretado pelo partido] acorreu em não pequeno número para Estação de Trem Triunfo da Revolução [a qual tinha sido rebatizada especialmente para o fato. Como os gráficos do Jornal oficial Voz do Proletariado Vitorioso se esqueceram de publicar o decreto, o novo nome não pegou]. A multidão [na verdade] chegou quase toda em atraso, mas como o trem esperado também retardou, ninguém prestou atenção.

O homem chegou. Sua cara de buldogue parecia não ter cor [assim como os sobretudos que vestia]. Estendeu a mão com a leveza de um guindaste enferrujado e cumprimentou alguns dos membros do comitê local do partido [alguns com jeitão gostaria-de-estar-na-cama]. Dizem algumas testemunhas que até pretendeu ensaiar um sorriso – mas a questão ainda hoje controverte.

Leonid Brejnev veio a Amhitar – inaugurou as cooperativas de sempre, percorreu as metalúrgicas de praxe, cortou fitas dos ramais ferroviários que seriam de esperar, recebeu as flores de costume das crianças de rotina e foi embora.

O regime que representava acabou por cair no sono.

domingo, 16 de novembro de 2014

16 de Novembro

O ídolo

O primeiro astro do cinema amhitariano fez seu début na História não por ser o primeiro [título aliás duvidoso] mas [dizem os eternos dizedores-de-não] por trazer a Amhitar o título [não necessariamente honroso] de casa do primeiro astro teen da era moderna.

Kyndal Bekzod [indiscutivelmente] possuía o tipo físico para isso: idade indefinida [obviamente oscilando entre os treze e os quinze], magrinho, de pele perfeita e olhos de pérolas azuis que faiscavam a um par de milhas, as suas feições quase femininas tornavam incompreensível [para os mais velhos] porque ele invariavelmente destruía os corações das garotas.

A máquina [a famosa máquina] entupiu o país de comerciais dele, desde bicicletas até pó anticaspa, todas com o olhar [supostamente] fatal. O menino era ladeado por antigos guardas do palácio do [destronado] SemiSultão [os precursores dos modernos seguranças] e usava uma faixa na cabeça que ressaltava os cabelos louros [cumprindo função que nos ídolos de um século depois seria realizada pelos óculos escuros].

Kyndal subiu à cabeça: não só o sucesso como também a cerveja shiibatz, da qual [diziam] no final da carreira tomava hectolitros; dezessete grávidas alegaram que o culpado fora ele; e deu para fazer pinturas em muros públicos [inspirando os pichadores hodiernos]. Nisso [dizem os pessimistas eternos] reafirmou mais uma vez o pioneirismo amhitariano – na tolice adolescente. Claro que esta opinião down não é por todos partilhada.

15 de Novembro

A Cidade esquecida

Khatlon, a Melancólica não o era – ao menos segundo o subsetor antropológico da Academia de Ciências de Amhitar que descobriu seus [surpreendentemente coloridos] resquícios hoje em 1960. Embora a primeira edição da enciclopédia para crianças Maravilhas da Cultura de Nossa Pátria enfatizasse o aspecto jovial da cidade da primeira biblioteca do país, revisões posteriores a retratavam poeirenta, com os habitantes enxugando as lágrimas da monotonia [a tola metáfora é da enciclopédia] nos [poucos] lenços de algodão marrom. [Tal enciclopédia é festejada (embora com duvidoso mérito, dizem) a 12 de agosto nestas Efemérides].

Uma visão revisionista [elas sempre existem] saída em nota sem crédito de autor na terceira página da ressuscitada Gazeta de Amhitar no primeiro dia de 1991 afirmou que um mal-entendido [ou má-intenção] atribuiu à velha urbe uma renitente fama de down. Segundo a nota, a turma que não se interessa por estudo [esta existiu, nos séculos XXI, XX, XIII, Zero e sempre] quis [de maneira sutil mas nem por isso menos efetiva] vingar-se de uma cidade cuja diversão eram as páginas emboloradas de volumes [na verdade os livros de Khatlon eram quase todos rolos de pergaminho, mas You got the idea].

A vingança [embora torpe] funcionou, e as companhias de turismo [ansiosas em oferecer excursões até para a segunda maior bola de fio dental do mundo] não oferecem nenhuma para Khatlon, alegando [sem base científica] que a melancolia é contagiosa.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

14 de Novembro

O Britânico

Os Kazaks [ao leste] e Turkmans [ao sul] atribuem aos amhitarianos uma fama de pouco inteligentes, a que os nativos de Amhitar respondem com uma [compreensível] fúria. Tal fama [no entanto] não veio de gente próxima, mas de certo [chapéu cartola, terno cachemira e nariz de ponta] John Hopley Nelligan.

Os ingleses se espalhavam pelo mundo e este jovem filho de banqueiro falido resolveu espalhar-se por Amhitar [Sir Arthur Conan Doyle na Aventura de Black Peter contou o afogamento de seu pai em tétrica tempestade]. Nada fez de muito extraordinário [nem em Amhitar nem fora dela] a não ser escrever [em capítulos publicados na revista The Strand] umas histórias sobre o país visitado [e o fato de não saber nem uma sombra de dialeto local faz com que (não poucos) suspeitem do caráter ficcional (ou plenamente falso) de suas histórias].

Acusa os amhitarianos de cegos [por não matarem as vacas para comer]; de indecentes [por suas mulheres não usarem espartilhos]; de indolentes [por não investirem em ações da Bond and Share Ltd. (das quase incontáveis Bond and Share Ltd. que os anglos espalharam pelo mundo)] – acusava-os, em suma, de não serem suficientemente ingleses.

A obra [previsivelmente] só fez sucesso entre os vizinhos [e rivais] de Amhitar. Uma nota favorável a ela saiu no Daily Mail, assinada por A C Doyle. Dizem que o próprio Nelligan a fez para se atribuir a aprovação do romancista, mas [não poucos] creem que era tolo demais para tanto.

13 de Novembro

A Matemática dos povos

Iusya Marzhaffar [previsivelmente ele] principiou os estudos demográficos em Amhitar hoje em 1882, um dia em que nada aconteceu de extraordinário. [E esta acachapante chatice cai bem tanto com o assunto quanto com o autor]. O profeta do aborrecimento [apelido (obviamente) dado pelos seus arqui-inimigos, os românticos] insistia em não acreditar em nenhuma realidade que não fosse visível: Deus é uma ilusão, os Espíritos um saco de tolices, a Honra uma Quimera, e o Amor então nem se fala. [Dizem que chegou a duvidar da eletricidade, a qual (como todas essas coisas, é invisível) mas tal informação não é consensual].

Iusya publicou o seu ensaio A Matemática guia os Povos [na verdade uma conferência tão aborrecida quanto seu título] defendendo a tese de que a quantidade e densidade de população determinam as escolhas dos países. Baseado no estudo do comportamento do mamífero Ebok [existente apenas em Amhitar e (segundo alguns) não existente nem em Amhitar] o autor afirmou que as populações mais rarefeitas [pelo tédio e falta de diversão] tendem a fazer revoltas políticas e migrações [especialmente se açuladas pela falta de alimento, pois, na falta do que fazer, divertem-se comendo]. As populações densas seriam mais quietinhas.

Por contrariar o sendo comum [e as conclusões de certo pastor Malthus] tal estudo tem apenas mérito histórico e os admiradores do autor tentam [não sem paixão] provar que é escrito apócrifo, até agora sem sucesso.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

12 de Novembro

A Monotonia

Paleobibliófilos italianos encontraram hoje em 1968 [encadernados em conjunto com os dois únicos exemplares conhecidos da Cosmographia Christiana de Cosmas o Indicopleustes] os [também] dois únicos sobreviventes [um deles incompleto] do ensaio Da Incrível Monotonia da Virtude, e tudo foi surpreendente em tal descoberta. Em primeiro lugar a sua própria existência: a intensa perseguição a tal livro [que durou (dizem talvez com algum exagero) 199 anos] foi feita para até sua lembrança durar fumaça.

Depois a própria localização dos exemplares: na Biblioteca Vaticana e na Biblioteca Laurenciana de Florença [fato que pode ser explicado pela própria eficiência da censura, que não deixou um só em Amhitar]. E finalmente o fato de terem sido encadernados com um clássico cristão [o que gerou especulações quanto ao seu suposto autor].

Livro sem valor literário, Da Incrível Monotonia... tem sua tese única sintetizada no título. O mal causa o mal, isso é claro [diz o anônimo escritor]. Mas o bem [forçoso é dizê-lo] é chato. Os maus morrem por seus malfeitos, os bons morrem de tédio [e tal universo tipicamente cristão tem levado alguns a apontar o Monge Gelasiminius como o responsável por tais (heréticas) palavras].

Tal ensaio conseguiu juntar contra ele todas as religiões. Certo Xeque [dizem] chegou a encetar uma campanha Faça o bem, o Bem é Divertido. A semelhança com as atuais campanhas publicitárias, no entanto, faz com tal história seja pouco verossímil.

11 de Novembro

A beberagem

Diante d ´ELE não há ricos nem poderosos, pois diante d ´ELE todos se abatem. Os homens se submetem a seus desígnios, e através deles as mulheres também a Ele são submissas. Os sábios reconhecem Seu Poder [se o Seu Poder não tiver arrojado os sábios ao chão].

ELE na verdade é Ela, a Shiibatz, a cerveja marrom amhitariana.

Amhitar se orgulha de a sua cerveja ser a mais forte do Planeta. Histórias de como o bisonho mercador Eldor, o Intruso espalhou a [visualmente pouco atrativa] beberagem pela Rota de Seda [fato celebrado nestas Efemérides a 20 de janeiro] ainda são contadas ao pé do fogo [antes que a televisão chegasse].

Estudos da Universidade da cidade traidora de Tashkent afirmam ser o teor alcoólico do Shiibatz equivalente a 67 por cento. A divulgação de tais resultados não trouxe popularidade a seus autores, que tiveram de abandonar às pressas o hotel – em parte porque uma coisa é dizer nossa Cerveja é a mais forte do Mundo – e outra é reduzir essa qualidade a uma banal porcentagem, inferior até mesmo a certos tipos de absinto.

Contestações [com tintura científica] afirmam que os estudos ignoram que o Shiibatz é na verdade feito de leite da fêmea do Touro Takhvazz [o que é contestado por outros com o não pouco razoável argumento de que o Takhvazz não existe]. Alguns [não sem certa lógica] afirmam que todas as nações têm algo de que se orgulhar, esse algo é sempre falso ou bobo, e que Amhitar se orgulha de sua Shiibatz. E pronto.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

10 de Novembro

Talvez existentes Bruxos

Não existem sinais de Feiticeiros na história amhitariana e tal fato [de forma não necessariamente paradoxal, segundo seus defensores] constitui a maior prova de que homens de chapéu cônico, livros de magia e caldeirões pululavam desde Shmaerkhant até Khatlon a Melancólica. [Apesar de resmas de declarações da Academia Soviético-Proletária da Ásia Central afirmando que esta ausência comprovava o absurdo de supostas realidades não calcadas na experiência].

Madina Jakhongir [dizem os adeptos] resolve a questão. Era [previsivelmente] um feiticeiro, e a época em que viveu é indefinida [por razões que se verão]. Com suas poções e sua [inevitável] varinha mágica ele destronava reis, acalmava terremotos, refazia amores, jogava furacões sobre os inimigos, controlava o tempo, não só o clima, mas o tempo.

Seu excesso de poderes [paradoxalmente] garantiu a falta de menções ao seu nome [ou ao nome de qualquer feiticeiro] nos registros nacionais. Madina podia voltar atrás no tempo. Assim, após realizar algum feito fantástico [como curar todos os afetados por certa peste] podia voltar ao passado e fazer com que a peste nunca tivesse existido. Do mesmo modo podia ir ao futuro. E por alguma razão pouco explicável [que os adeptos garantem ser modéstia] ele apagou todo papel ou pedra que mencionasse seu nome. Para os adeptos, a ausência de seu nome é prova de sua existência e poder.

Desnecessário lembrar que tal versão longe está de ser unânime.

domingo, 9 de novembro de 2014

09 de Novembro

A Ponte Murada

Diz a lenda e mais quatro papiros na Universidade de Dacca que dois Xeques [antes inimigos de não ordinária ferocidade] resolveram fazer uma ponte entre seus domínios para selar uma aceitação mútua. [Desafortunadamente, dos quatro dois se revelaram falsos, um teve sua tradução contestada e outro sofreu roubo em circunstâncias reputadas como misteriosas. Assim só restou a lenda].

[Ao contrário do que dizem os livros de história] nem os Reis, Imperadores, Subgerentes e Xeques são por completo livres, assim os comandantes de lanças [diríamos hoje, os chefes de Estado-Maior] de cada lado encheram os ouvidos de seu Xeque com perigos sobre se o outro atacasse primeiro [histórias de saques e esquartejamentos (inclusive do próprio Xeque) encheram o ouvido-do-mesmo].

Soluções como guardas armados e cães ferozes e armadilhas para ursos foram propostas, tentadas e refutadas, cada qual com sua desvantagem.

Golpes de Estado quase simultâneos nos dois países mantiveram os Xeques mas colocaram no poder um grupo de pedreiros e especialistas em carpintaria [diríamos hoje, empreiteiros].

Isso explica [dizem os cínicos] a solução de se colocar um muro sobre a ponte [além de sua constante necessidade de dispendiosas ampliações e reparos]. Para amenizar a separação, batizaram o conjunto de Ponte de Fraternidade entre os Povos [lamentavelmente destruída por bomba em 31 de outubro de 1941, segundo dizem].