segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

22 de Dezembro

A Porta

A Gigantesca Porta Sagrada de Karabagh nada tem [na verdade] de sagrada, sendo pouco menos que misteriosos os motivos que a fizeram alçar às alturas do Insondável [tão misteriosos (talvez) quanto a sua presença nestas Efemérides no dia de hoje]. Os [não muitos] especialistas que se debruçaram sobre o assunto se recolheram com uma repugnância não de todo alheia ao preconceito, pois descobriram que tal porta não guardava

alguma seita nebulosa concorrente dos templários;

o segredo do da juventude elixir;

o túmulo de Maria Madalena

porém os [esmagadoramente, humanamente prosaicos] esgotos da cidade.

A constituição física da porta [de bronze dourado, com quatro figuras aladas nos cantos que desfraldam uma faixa (já comida pelo tempo) na qual alguns querem ler Aqui Se Esconde O Elemento Essencial Do Universo] colaborou em não pouca monta para o rio de tinta [e mais recentemente de bits de computador] que jorrou em torno dela.

O povo da cidade [e as agências de turismo receptivo] não foram lentos em promover excursões nas galerias escuras [ajudados por suspiros que lá se ouvem e que são frequentemente denunciados como fake]. As agências anunciam ser as excursões desaconselhadas para idosos, menores e sensíveis, o que os atrai aos montões.

Ninguém viu nenhum dos três segredos acima [na verdade só se vê canalização velha e latrinas quebradas] mas isso não desanima os exploradores e turistas, pois [segundo os guias] os segredos bem guardados são os melhores.

domingo, 21 de dezembro de 2014

21 de Dezembro

O Demônio de Amhitar

O Djeligh-il-Khael [que em uma tradução (não isenta de críticas) tem sido popularizado como O Demônio de Shamaarkhant] percorre as noites das ruas da capital de Amhitar.

Em contraste com os congêneres que assombram as esquinas e matas do mundo o produto amhitariano não tem chifres [na verdade nem é vermelho]; não leva um saco para raptar crianças; não podia lembrar menos um esqueleto [já que é um tanto gordito]; e as poucas testemunhas que afirmaram ter sentido cheiro de enxofre se revelaram falsas.

No começo [dizem] era temido: mães arrastavam crianças e homens tomavam posição de defesa perto do velho pouco barbado que passava por eles. A multiplicação de não acontecimentos [porque o velho nada fazia a ninguém] fez os transeuntes relaxarem seu medo.

O Djeligh pratica a democracia: olha a todos [esculturais e horríveis, bebês e decrépitos] com o mesmo desejo de nada [parece ligeiramente incomodado com a presença deles, mas só].

Com o tempo [ninguém sabe quanto] popularizou-se o novo terror do Djeligh: [ao contrário dos outros demônios] ele não quer mal a ninguém [muito menos o faz]. O Diabo amhitariano é indiferente [uma indiferença gélida, brutal].

 Isso o faz diverso de todos os seus concorrentes no mundo, e esta [tola] singularidade ocasiona que alguns tenham orgulho dele, e o celebrem [sem razão aparente] hoje nestas Efemérides.

sábado, 20 de dezembro de 2014

20 de Dezembro

A última versão

Das 1.007 [segundo outros apenas 999] versões da vida de Donyhor al-Temurbek, em 1.006 [ou 998] delas o herói nacional aparece trágico; ou espirituoso; às vezes quase espiritual; ou discursador como um filósofo. A [pós-moderna] Academia do Passado Inexistente [então em fase underground] em gravação VHS de hoje em 1984 recuperou a única versão que retrata o Grande quase irresponsável.

Pouco antes do levante contra os dominadores Turkhmans Termurbek [segundo esta versão] combatia os derrotistas [traidores] que tentavam postergar a revolta. Esta passagem [na verdade] já constava em muitas das outras versões da vida do grande amhitariano – e em todas [a golpes de retórica máscula] ele arrebatava com os argumentos de que é possível vencer, e a revolução acontecia.

Na versão VHS [no entanto] após ouvir os derrotistas Temurbek ergueu-se

Essa revolta é estúpida.

O silêncio engoliu a todos. Continuou

Por muito tempo fizemos o que era sábio. É hora de sermos estúpidos.

O levante aconteceu e [como previu o herói] foi estúpido – os Turkhmans fartaram-se de empilhar cabeças. A libertação teve de esperar mais alguns anos [variáveis de acordo com a versão].

Quanto a Temurbek, esta é única de suas 1.007 [ou 999] histórias na qual desaparece. [Não morre em glória, não ascende aos céus]. Alguns pretendem ver nisso uma significação de que às vezes é preciso seguir caminhos não trilhados, mas fora dos livros de auto-ajuda poucos creem nela.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

19 de Dezembro

A má moça

As evidências de uma possível presença de Cleópatra em Amhitar [supreendentemente] falham em convencer a muitos. São elas:

a) quatro moedas desenterradas na grande seca do Lago Sarygamysh em 1971, nas quais por muito tempo uma silhueta feminina com longos cabelos foi confundida com a Imperatriz Teodora de Bizâncio, porém novas datações indicam ser bem mais antiga;

b) uma passagem mais do que dúbia nas Vidas dos Nobres Gregos e Romanos de Plutarco [incluída na página 761 da edição da Great Books of the Western World] na qual o biógrafo se refere a uma visita da Irradiante Beleza Feminina à Terra do Sol Irradiante;

c) a permanente popularidade do cabelo liso cortado rente no pescoço entre as moças do país [esta evidência não surpreendentemente desprezada pelos intelectuais].

Amhitar [como todas as terras do mundo] se orgulha de passagens [por mínimas que sejam] que liguem o país aos grandes personagens. Rumores [às vezes pouco menos que ridículos] sobre Napoleão ou Cristo no país possuem defensores em fera.

O mesmo não ocorre com a Imperatriz Egípcia e a explicação [dizem os anti-patriotas] pouco tem de lisonjeira: o moralismo amhitariano se recusa a crer que uma jovem que foi amante de um homem casado [Júlio César]; que depois foi amante do filho adotivo dele [Marco Antônio]; e depois colecionou mais 199 [dizem com um exagero quase certo] seja um dos orgulhos do país, o que explicaria a batalha [quase inglória] para homenagear a Má Moça no dia de hoje. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

18 de Dezembro

O bandoleiro

A ascensão de Piotr Ilich Kamenev ficou marcada hoje em 1873 nos anais de Korovulbazar quando [abrigado na única hospedaria] visitou as três únicas famílias que valiam a pena e [armado com sorriso, fraque escocês e maneiras de gentil-homem] conquistou a simpatia das filhas [e herdeiras] de cada uma. A decadência de Piotr Ilich Kamenev veio onze dias depois, quando se descobriu que ele na verdade era o bandoleiro Haafulin Akmal.

A história de Haafulin [espalhada pelos rapazes da aldeia, que a essa altura odiavam Piotr] começara na guerra. Perdera uma perna. Fora para São Petersburgo, implorar uma pensão ao Ministro da Guerra. Disse-lhe que aguardasse. Como a pensão tardasse, procurava todos os dias o ministro. Este o olhava com cara de gastrite e dizia que se acalmasse, ele não era o único.

Haafulin com pouco dinheiro [o ministro continuava a pedir (ou ordenar) paciência]. O ministro prometeu para o dia seguinte. Haafulin o aguardou na porta. O ministro irritou-se com essa descompostura. Disse que não tivera tempo, que não haveria pensão, que fosse para o diabo. Haafulin rachou a cabeça do ministro com uma bordoada. Fugiu e [com outras vítimas da injustiça] atormentava os grão-senhores no campo.

Essa história fez sucesso até que alguém lembrou seu começo: Haafulin não tinha uma perna, e Kamenev as tinha. Isso não impediu de Kamenev de perder um possível bom casamento e bem poucos sabem explicar por que tal história veio parar nestas Efemérides.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

17 de Dezembro

Farsante

Já tinham esvaziado o segundo [ou o décimo-nono] barril de vodca na birosca ao lado da estação de trem de Kyrzylkum hoje em 1904 [beirada do deserto do Balkash] quando alguém [também com uísque de cevada na cabeça] berrou que vinha ali um gaiato sósia do Czar. Um segundo depois o gajo apareceu e uma gargalhada inundou o lugar: nunca se vira alguém mais diverso do Imperador. Baixinho, mais exatamente mirrado, de olhar incerto e fala mais ainda, o farsante pediu uma dose.

Ninguém lhe perguntou, mas [com o ar de um homem para quem a vida perdeu o valor] disse que decidira viajar incógnito para ver por si mesmo a situação na guerra russo-japonesa. O trem desarranjou e continuou a viagem só com uma locomotiva e um vagão. O vagão descarrilhara a poucos quilômetros e todos os braços eram necessários para o reparo. Viu uma luz ao longe e decidiu pedir algo quente. Recusou os puxa-sacos que o acompanhavam desde que nascera. A luz era aquela espelunca. Disseram-lhe

Mentira! Perdendo uma guerra e sem nem um trem que preste – nosso Czar não é tão incompetente assim!

Tomou o último gole: Tem razão – o nosso Czar não deveria ser tão incompetente assim

e derrubou uns rublos e saiu. Riram de novo do gaiato. Que não riu de nada.

A fofoca veio aos pedaços: souberam de uma missão secreta para ver a guerra, depois que o próprio ministro da guerra estava nela, depois o próprio imperador. Não acreditaram. Mas pelo sim pelo não a birosca nunca mais foi vista.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

16 de Dezembro

O Profeta

Jesus Cristo [segundo um relato não isento de controvérsia] viajou para o Oriente. Outra narração [ainda mais distante da unanimidade] afirma que o profeta hebreu passou por Amhitar.

A primeira história descreve jornadas de aprendizagem iniciática [condizentes com um filho de Deus] em Benares e outras províncias indianas. A segunda [compreensivelmente popular no país amhitariano] afirma que ele bebeu sua sabedoria [antes de uma pouco relevante temporada no Ganges] pelas margens do lago Sarygamysh, sob as muralhas de Shamaakhaent e nas areias dos 99 desertos do platô de Qyzylorda – locais típicos de Amhitar.

As histórias do povo [elas inevitavelmente existem] se dividem em dois grupos. As primeiras falam de um louro de olhos azuis de cabelo longo, falando com voz empostada de histórias de carneiros e sementes de plantas de meio-deserto.

As segundas [muito menores em número] dizem que o que ficou na memória dos amhitarianos da época foi um adolescente [chato como todo adolescente] perguntão e que gostava de derrubar os chapéus das pessoas. E que [também como adolescente] fechava-se em copas e de seu murmurar de vez em quando saía a palavra Pai.

O 37º Boletim da Academia Soviético-Proletária dedicou duas páginas a tal controvérsia hoje em 1941. Afirmou que a segunda versão era indubitavelmente mais simpática, por menos convencional. Apesar disso, ambas são possivelmente falsas [e o possivelmente foi grande afirmação, em se tratando de uma Academia ateia].